Kobori critica modelo neoliberal e defende atuação forte do Estado para proteger pequenos investidores
Professor afirma que educação financeira sozinha não impede fraudes e cobra fiscalização mais rigorosa de órgãos reguladores
247 - Durante audiência pública no Senado sobre educação financeira e proteção aos pequenos investidores, o professor e especialista em finanças José Kobori fez duras críticas ao funcionamento do sistema financeiro brasileiro e à fragilidade da fiscalização estatal diante de grandes fraudes de mercado.
Ao longo de sua fala, Kobori afirmou que a simples disseminação da educação financeira não é suficiente para proteger investidores comuns contra esquemas sofisticados operados dentro do próprio sistema financeiro. Segundo ele, cabe ao Estado exercer um papel ativo de regulação e fiscalização para impedir abusos do poder econômico.
“O Estado foi criado para regular uma relação desigual”, afirmou o professor. “No mercado financeiro, a relação desigual que ele tem que regular é do poder econômico sobre os pequenos investidores.”
Kobori lembrou que participa há décadas de iniciativas de educação financeira no país, incluindo o antigo Circuito Expo Money, evento patrocinado por instituições do mercado financeiro e voltado à formação de investidores. Apesar disso, ele argumenta que o problema atual vai muito além da falta de informação.
“Só a educação financeira não será suficiente”, disse. “As entidades do mercado financeiro já fazem isso há muito tempo. Mas se o Estado não atuar da forma que deve atuar, sendo fiscalizador e regulador do mercado, o pequeno investidor continuará vulnerável.”
O professor citou casos recentes envolvendo instituições financeiras e grandes empresas para defender sua tese. Entre os exemplos mencionados estão o escândalo contábil da Americanas, operações ligadas ao Banco Master e movimentações envolvendo a Ambipar.
Segundo Kobori, muitas dessas irregularidades foram realizadas dentro da legalidade aparente do sistema financeiro, dificultando a identificação por investidores comuns.
“É impossível um pequeno investidor chegar ao nível de capacitação técnica necessário para identificar certas fraudes”, afirmou. “Isso é papel do Estado, dos órgãos fiscalizadores e reguladores.”
Em outro trecho contundente da audiência, Kobori afirmou que técnicos de órgãos públicos frequentemente conseguem detectar problemas, mas acabam sendo ignorados ou pressionados politicamente.
“O serviço público no Brasil é muito capacitado, muito técnico”, declarou. “Mas por algum motivo esses negócios são abafados e a gente só descobre depois que muita gente já perdeu dinheiro.”
Ele também criticou a influência do poder econômico sobre decisões políticas e regulatórias. Para o professor, existe uma distorção estrutural no funcionamento do sistema brasileiro.
“O poder econômico neste país se traduz em poder político”, disse. “Não adianta levar educação financeira para os investidores se o Estado não tiver força para enfrentar isso.”
Ao final da audiência, Kobori propôs que a futura Semana Nacional do Pequeno Investidor inclua sabatinas públicas com representantes da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), Banco Central e demais órgãos reguladores, permitindo que investidores questionem diretamente as decisões e omissões das autoridades.
“Os órgãos reguladores deveriam ser confrontados uma vez por ano com os investidores”, defendeu. “Porque a sociedade precisa saber por que alertas técnicos muitas vezes não avançam.”
A fala terminou em tom descontraído, após elogios de parlamentares presentes. A senadora Damares Alves chegou a sugerir que deputados e senadores fossem obrigados a fazer cursos de educação financeira. Em resposta, Kobori arrancou risos do plenário ao afirmar: “Eles vão sentar sempre à sua esquerda.”



