Leonardo Trevisan: 'O pensamento progressista precisa discutir política de defesa'
Professor analisa o avanço da direita na América Latina e o peso crescente da China na região
247 - Em entrevista ao programa Boa Noite 247, o professor Leonardo Trevisan analisou o avanço da extrema direita na América Latina, a disputa entre Estados Unidos e China na região e a necessidade de o campo progressista abandonar o tabu em torno da política de defesa.
Para Trevisan, a ascensão de governos e candidatos de direita no continente não pode ser compreendida apenas pela lente ideológica. Segundo ele, há um elemento econômico incontornável: a dependência dos países latino-americanos das commodities e do mercado chinês.
“Em vez de olhar para eles a partir da ideologia, eu olho para eles a partir do bolso”, afirmou. “Todos esses países dependem essencialmente do bom humor chinês para comprá-las.”
O professor sustentou que a China está “especialmente instalada” na América Latina e que isso limita a capacidade de governos alinhados a Washington de simplesmente virarem as costas ao Brasil ou ao eixo econômico regional. Ele citou como exemplo a integração produtiva entre Brasil e Argentina, especialmente no setor automotivo, que continuaria existindo independentemente de quem ocupe o Palácio do Planalto ou a Casa Rosada.
“Pouco importa o inquilino que está no Palácio do Planalto ou na Casa Rosada. A Fiesp daqui e a Fiesp de lá têm interesses em comum”, disse.
Trevisan também avaliou que as vitórias recentes da direita no continente não nasceram apenas das urnas, mas sobretudo das redes sociais. Em sua visão, o celular tornou-se uma ferramenta decisiva para destruir posições de centro e ampliar a polarização política.
“Essas vitórias não aconteceram na urna. Essas vitórias aconteceram no celular”, afirmou. “É uma vitória do celular que destruiu as posições de centro na América Latina.”
Ao comentar a polarização na Colômbia, Trevisan observou que a sociedade não está simplesmente dividida em dois blocos equivalentes. Para ele, a abstenção revela a existência de uma parcela expressiva da população que não aderiu a nenhum dos polos.
“Quando a gente fala que a Colômbia está dividida no meio, não. A Colômbia tem três terços. E um terço não aceitou os outros dois”, declarou.
O professor também chamou atenção para o crescimento da produção de coca na Colômbia e para a sofisticação econômica do crime organizado. Segundo ele, os grupos criminosos já operam em mercados financeiros, lavam dinheiro e retornam fortalecidos para outras atividades.
Nesse contexto, Trevisan defendeu que a esquerda e o campo progressista passem a discutir seriamente a defesa nacional. Para ele, fugir desse debate significa deixar um tema estratégico nas mãos da direita.
“O pensamento progressista precisa discutir política de defesa. Se o pensamento progressista não discutir política de defesa, ele será engolido”, afirmou.
Trevisan citou o Atlântico Sul como área central para a soberania brasileira e disse que o Brasil é peça essencial no tabuleiro estratégico regional. Segundo ele, a relação entre militares brasileiros e norte-americanos também precisa ser compreendida à luz da disputa com a China.
“O Brasil é essencial para a segurança do Atlântico Sul. É fundamental”, declarou.
Na parte final da entrevista, o professor defendeu a reconstrução de um centro democrático, capaz de dialogar tanto com a centro-esquerda quanto com a centro-direita. Para ele, sem enfrentar a desigualdade estrutural e o patrimonialismo latino-americano, a região continuará vulnerável a saídas autoritárias e falsas promessas de segurança.
“Ou nós reconstruímos o centro democrático de centro-esquerda e centro-direita, ou nós não vamos a lugar nenhum”, afirmou.
Trevisan também criticou a estrutura tributária brasileira, que pesa sobre o consumo e penaliza os mais pobres. Em sua avaliação, qualquer projeto democrático consistente precisa enfrentar a desigualdade de renda e a baixa conversão da carga tributária em bem-estar social.
Ao concluir, o professor ironizou a crescente influência chinesa na economia regional e afirmou que as elites latino-americanas terão de se adaptar ao novo cenário geopolítico.
“A escola de mandarim tem futuro”, disse. “A elite aqui e o nosso negócio vão acabar tendo que aprender mandarim.”



