Luciano Elia: “A psicanálise é aliada dos movimentos sociais”
Psicanalista defende que a tradição freudiana é subversiva, combate a patologização e não pode ser tratada como adversária das lutas sociais
247 - A psicanálise deve ser compreendida como uma prática subversiva, capaz de dialogar com as práticas sociais e de ampliar a compreensão sobre opressão, sexualidade e sofrimento humano. Essa foi a linha central defendida pelo psicanalista Luciano Elia ao longo de uma ampla reflexão sobre o lugar da teoria freudiana no debate contemporâneo.
A declaração foi feita no podcast Papo Curvo, da TV 247, exibido na TV 247, em uma conversa em que Elia sustentou que a psicanálise vem sendo alvo de leituras distorcidas ao ser apresentada, em alguns setores, como uma prática conservadora ou hostil aos movimentos sociais. Para ele, esse enquadramento ignora o próprio núcleo conceitual e ético da tradição inaugurada por Sigmund Freud.
Segundo Luciano Elia, há razões históricas para que a psicanálise tenha sido associada, em muitos momentos, às camadas mais favorecidas da sociedade, já que a prática ficou socialmente vinculada a um atendimento caro e de acesso restrito. Ainda assim, ele argumenta que esse histórico não autoriza reduzir a psicanálise a um instrumento de elitismo. Ao contrário, sustenta que existe um esforço continuado para romper essa barreira e popularizar a escuta analítica.
Na avaliação do psicanalista, esse movimento não decorre apenas de uma escolha ideológica, mas da própria estrutura do discurso analítico. “Ela no seu tecido, no seu tecido conceitual, ético, metodológico, ela tem essa vocação”, afirmou, ao defender que a psicanálise possui, em sua base, uma dimensão crítica voltada à desconstrução de exclusões e normatividades.
Ao reconstruir a origem da psicanálise, Luciano Elia destacou que Freud funda sua prática a partir da escuta de mulheres diagnosticadas com histeria. Para ele, esse ponto é decisivo, porque marcou uma ruptura com a tendência de desqualificar o sofrimento feminino. “Ele foi a primeira figura mesmo masculina que deu crédito às mulheres, escutou as mulheres mesmo antes da fundação da psicanálise”, afirmou, ao comentar o papel de Freud diante de sintomas que a neurologia da época não conseguia explicar.
Elia observou que Freud não tratou essas manifestações como mera simulação, mas como fenômenos que exigiam uma nova forma de escuta. A partir daí, segundo ele, abriu-se um campo inteiramente novo para compreender o sujeito, o inconsciente e a sexualidade humana. Em sua leitura, esse gesto foi profundamente subversivo porque retirou essas experiências do terreno da condenação moral ou da patologização simplista.
Na exposição, o psicanalista também associou a obra freudiana a uma crítica das normas rígidas que organizam a vida sexual e social. Ao lembrar formulações centrais de Freud, ele argumentou que a pulsão não está naturalmente presa a um objeto e que, por isso, a sexualidade humana não pode ser reduzida a padrões biológicos ou heteronormativos. Para Elia, esse ponto é central num momento em que as discussões sobre gênero e diversidade sexual ganham espaço no debate público.
Ele afirmou que, em vez de ser adversária dessas pautas, a psicanálise oferece instrumentos para compreendê-las com mais profundidade. “A psicanálise é aliada, ela é aliada e jogar contra ela é um tiro de canhão no pé”, disse. Na sequência, fez um apelo direto aos movimentos sociais: “Não atirem contra a psicanálise porque isso é um tiro de canhão no pé”.
Outro eixo importante da fala de Luciano Elia foi a distinção entre análise e julgamento moral. Segundo ele, o psicanalista não está no consultório para condenar ou absolver ninguém, mas para escutar o sujeito e sustentar o trabalho analítico. Isso, porém, não significa neutralidade política no espaço social. Fora do setting clínico, defendeu, é necessário ser combativo diante do racismo, do machismo, da LGBTfobia, do abuso e da violência.
Ao tratar desse ponto, Elia criticou a ideia de que a psicanálise seria conivente com abusos por causa da transferência ou de conceitos centrais da clínica freudiana. Para ele, essa acusação distorce o método analítico. “O método é o contrário”, afirmou, ao rebater a tese de que haveria algo, na estrutura da psicanálise, que favorecesse violência contra mulheres.
Na mesma linha, ele rejeitou tentativas de transformar a teoria da fantasia em encobrimento de violências reais. Segundo o psicanalista, esse tipo de leitura empobrece a elaboração freudiana e reduz a complexidade do sujeito a uma explicação linear. Em vez disso, argumentou, a fantasia foi um avanço decisivo porque permitiu compreender outra cena, a cena do inconsciente, sem apagar a gravidade da violência no mundo real.
Luciano Elia também dedicou parte de sua intervenção a condenar a cultura do cancelamento, que classificou como incompatível com a psicanálise e com o debate democrático. Em sua avaliação, o cancelamento simplifica conflitos complexos e substitui a elaboração pela exclusão pura e simples. Para ele, combater abusos e opressões não pode significar reproduzir métodos autoritários ou fascistas no espaço público.
Ao fim da conversa, o psicanalista reafirmou que a tradição freudiana precisa ser lida com rigor, e não por meio de caricaturas. A seu ver, a psicanálise nasceu de uma escuta que desafiou saberes estabelecidos, desmontou certezas sobre normalidade e abriu espaço para pensar o sujeito em sua contradição. É por isso, sustentou, que ela continua tendo potência crítica para dialogar com o presente e com as lutas sociais de seu tempo.