Marcio Pochmann: “Já faz tempo que não debatemos o futuro do Brasil”
Marcio Pochmann cobra um projeto nacional diante das mudanças demográficas e sociais
247 - Márcio Pochmann afirmou que o país deixou de discutir de forma organizada o seu horizonte de longo prazo e advertiu que essa ausência de debate ocorre justamente quando o Brasil já vive mudanças demográficas e sociais que exigem planejamento. Para o presidente do IBGE, o futuro do Brasil não é uma abstração distante, mas uma realidade em formação, marcada por desigualdade, empobrecimento e necessidade de políticas públicas capazes de antecipar transformações.
Em entrevista ao programa Boa Noite 247, da TV 247, Pochmann disse que o país perdeu um tipo de discussão que foi forte no fim dos anos 1970 e no início dos anos 1980, quando havia confronto aberto de projetos nacionais. “Já faz tempo que nós não debatemos o futuro do Brasil”, declarou. Na sequência, reforçou que esse adiamento cobra preço alto: “O futuro, eu vou lhe dizer, já chegou do ponto de vista demográfico”.
Ao desenvolver esse argumento, ele afirmou que a população brasileira de 2050 já nasceu e que, por isso, o desafio central é observar quem comporá a força de trabalho nas próximas décadas. “O que nós podemos dizer desses brasileiros que já nasceram e vão ser a classe trabalhadora em 2050?”, questionou. Em sua análise, a resposta passa pela origem social dessa população. “80% desses que nasceram nasceram em famílias miseráveis, pobres”, disse.
Pochmann sustentou que o perfil demográfico do país tornou o debate sobre projeto nacional ainda mais urgente. Segundo ele, a fecundidade caiu entre os segmentos de renda mais alta, enquanto a reprodução social se concentra nas camadas mais pobres. “A classe média alta e os ricos não têm mais filhos no Brasil. Quem está tendo filhos são os segmentos mais pobres”, afirmou. A partir daí, argumentou que a ausência de políticas robustas de educação, saúde, transporte e proteção social pode levar o país a reproduzir, em escala maior, a precariedade já existente.
“O futuro do Brasil, mais empobrecido”, disse ele ao descrever esse quadro. Em seguida, advertiu: “Se não tiver política pública de educação, de saúde, de transporte, políticas adequadas, nós corremos o risco de ter uma população em situação mais precária que temos hoje”. A fala resume o ponto central de sua intervenção: sem planejamento estatal, a mudança demográfica tende a aprofundar desigualdades em vez de corrigi-las.
Na entrevista, Pochmann também associou esse vazio de projeto à forma como o Estado passou a funcionar nas últimas décadas. Para ele, a estrutura pública foi sendo moldada por uma lógica que reduz sua capacidade de responder a interesses amplos da população. “Nós temos um estado que, por força do receituário neoliberal, passou a operar de um neopatrimonialismo”, afirmou. Em sua leitura, isso limita a construção de uma agenda capaz de reorganizar o desenvolvimento em bases mais amplas.
Ao mesmo tempo, ele rejeitou a ideia de que o setor privado, isoladamente, possa oferecer uma solução para a maioria da sociedade. “Não acredito que o setor privado, por si só, possa oferecer uma realidade melhor para as pessoas”, declarou. Segundo Pochmann, as alternativas privadas atendem com mais facilidade quem já dispõe de renda, enquanto a maior parte da população depende de políticas públicas consistentes para ter acesso a condições mínimas de mobilidade e bem-estar.
Outro ponto destacado foi a necessidade de substituir políticas reativas por políticas preditivas. Ele observou que grande parte da ação estatal ainda opera sobre fatos consumados, reagindo depois que os problemas se instalam. “Hoje nós temos outra possibilidade de fazer, na verdade, políticas públicas preditivas”, afirmou. Na explicação do presidente do IBGE, a leitura antecipada de tendências demográficas, territoriais e urbanas permitiria ao Estado agir antes que carências em habitação, mobilidade, saúde e educação se tornem mais graves.
Como exemplo, ele citou a própria projeção populacional do instituto. “A partir do ano 2041, a população no Brasil estagna e começa a decrescer”, disse. Para Pochmann, esse tipo de informação deveria orientar desde já decisões sobre localização de serviços, infraestrutura para idosos, distribuição regional de equipamentos públicos e desenho das cidades que receberão novos fluxos populacionais.
Nesse ponto, ele relacionou o debate sobre o futuro à interiorização do crescimento demográfico e econômico. Segundo sua análise, o país passa por um deslocamento populacional em direção ao interior e ao oeste, associado a corredores logísticos e rotas de integração com o Pacífico. Esse movimento, afirmou, exigirá outro padrão de urbanização e outra forma de presença do Estado. “Será que o governo vai esperar acontecer o fato para depois atuar ou ele pode atuar de forma antecipada?”, perguntou.
Pochmann defendeu que esse novo cenário exige instrumentos diferentes dos que orientaram fases anteriores da história brasileira. “Nós estamos diante de uma nova época histórica e que precisa de novos instrumentos”, afirmou. A formulação aparece como síntese de sua crítica: o país já mudou, mas parte da política, das instituições e do debate público continua operando com categorias do passado.
Ao recuperar a experiência dos anos finais da ditadura e do início da redemocratização, ele lembrou que o Brasil já teve um ambiente de disputa mais clara sobre seu destino econômico e social. “Havia uma disputa de futuro”, disse. Para ele, essa disputa se enfraqueceu, e o país passou a conviver com políticas fragmentadas, medidas pontuais e respostas emergenciais, sem uma visão articulada do que deseja ser nas próximas décadas.
A fala de Pochmann aponta, assim, para um diagnóstico de longo alcance: o Brasil não enfrenta apenas carências sociais ou desaceleração da mobilidade, mas também um déficit de imaginação política e de planejamento estatal. Ao dizer que o país deixou de debater seu futuro, ele não trata apenas da ausência de um plano formal, mas da incapacidade de organizar maiorias, prioridades e instrumentos para responder a uma sociedade que já está em transformação.


