"O autoritarismo se reinventa para parecer aceitável", afirma professor da UERJ
João Claudio Platenik Pitillo analisa a guerra na Ucrânia, o papel de Trump e Putin e os impactos para a geopolítica global
247 - Em entrevista ao Boa Noite 247, o professor João Claudio Platenik Pitillo, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), avaliou o momento atual do conflito entre Rússia e Ucrânia e o papel das potências mundiais nesse cenário. Segundo ele, Donald Trump explora o discurso de pacificação mais como recurso político do que como proposta concreta. “Trump não tem um projeto de paz para a Ucrânia”, afirmou, explicando que a retórica contra a guerra serviu mais como contraponto à política belicista de Joe Biden do que como um plano realista de solução.
Concessões e interesses estratégicos
Para Pitillo, Moscou pode adotar medidas que, sem encerrar imediatamente o conflito, consolidem ganhos no campo de batalha e permitam que Trump reivindique avanços diplomáticos. Entre elas, ele cita a possibilidade de recuo em programas militares, como a retomada de produção de mísseis de médio e longo alcance, e a manutenção de áreas estratégicas — como Zaporíjia e Kherson — sob controle russo, com previsão de plebiscitos futuros. Essas ações, no entanto, teriam de ocorrer de forma gradual para não expor concessões diretas.
EUA, Europa e agendas distintas
O professor destaca que Washington e Bruxelas têm estratégias diferentes em relação a Moscou. Enquanto Trump poderia buscar aproximação pragmática, a União Europeia mantém interesse na narrativa de ameaça russa para justificar gastos militares e políticas de rearmamento. “A Europa precisa do espantalho do ‘Putin perigoso’ para sustentar sua agenda”, disse Pitillo.
Aliança estratégica com a China
Pitillo ressalta que, mesmo diante de qualquer aproximação pontual com os EUA, a Rússia não romperá a parceria estratégica com a China, fortalecida pelas sanções ocidentais. Ele também aponta que a pressão norte-americana sobre países como Brasil, Índia e África do Sul pode acabar fortalecendo o BRICS. Como exemplo, cita movimentos recentes da Índia de reaproximação com Pequim e a solidariedade de diversos países do Sul Global ao Brasil diante de tarifas impostas por Washington.
O Brasil na integração do Sul Global
Para o professor, o Brasil deve priorizar relações comerciais e políticas com parceiros fora do eixo EUA-Europa, aproveitando o potencial de blocos como o BRICS e a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC). Ele critica barreiras ideológicas que, segundo afirma, impedem a ampliação de negócios com países como Rússia, Irã e Coreia do Norte, e vê nos acordos com a União Europeia um viés desfavorável. “Precisamos apostar em relações de ganha-ganha e na autonomia política”, concluiu. Assista:


