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Pepe Escobar vê China como peça-chave no jogo do Irã e do Golfo

Escobar diz que Pequim é o ator central diante dos limites de Paquistão, Turquia, Egito e Arábia Saudita

Pepe Escobar vê China como peça-chave no jogo do Irã e do Golfo (Foto: Brasil247)

247 - A China aparece como peça central nas articulações diplomáticas em torno do conflito envolvendo o Irã, num cenário marcado por impasses entre Teerã e Washington, pressões das petromonarquias do Golfo e limitações políticas dos países que tentam se apresentar como mediadores regionais.

A análise foi apresentada pelo jornalista e analista geopolítico Pepe Escobar em vídeo publicado em seu canal no YouTube, Pepe Café, no qual ele avalia que a reunião realizada em Islamabad expôs mais a fragilidade dos participantes do que a existência de uma proposta concreta de paz. 

Segundo Escobar, o encontro reuniu representantes de Paquistão, Turquia, Arábia Saudita e Egito com a intenção de discutir saídas diplomáticas para a guerra e, eventualmente, reabrir algum canal indireto de negociação entre Estados Unidos e Irã. Na leitura do analista, porém, o grupo não demonstrou capacidade política nem peso estratégico suficientes para formular um plano consistente.

Ao reconstruir o contexto, Escobar lembra conversas que acompanhou anos antes em Islamabad sobre a possibilidade de uma articulação entre Turquia, Irã e Paquistão capaz de alterar o equilíbrio regional e influenciar as monarquias do Golfo. Para ele, o cenário atual retoma parte dessa hipótese, mas sob condições muito mais tensas, com a guerra impondo novos limites e aprofundando as contradições entre os atores envolvidos.

Na avaliação apresentada no Pepe Café, o Egito surge como um participante de influência reduzida nesse tabuleiro. A Arábia Saudita, embora central para qualquer rearranjo regional, seguiria condicionada por seus vínculos estratégicos com Washington e por sua rivalidade estrutural com Teerã. A Turquia, por sua vez, é descrita como um ator ambíguo, que mantém sua inserção na OTAN enquanto tenta ampliar espaço na integração euroasiática. Já o Paquistão procura transformar sua posição geográfica e seus canais simultâneos com China, Irã, sauditas e Estados Unidos em ativos diplomáticos.

Escobar sustenta que Islamabad tenta convencer Washington de que pode desempenhar um papel de mediação mais eficaz do que o exercido anteriormente por Omã. Esse cálculo, segundo ele, se apoia na fronteira paquistanesa com o Irã, no pacto de defesa com a Arábia Saudita e na interlocução do atual establishment paquistanês com a Casa Branca.

Ainda assim, o centro de gravidade da crise, segundo sua análise, deslocou-se rapidamente para Pequim. Após a reunião em Islamabad, autoridades paquistanesas intensificaram contatos com os chineses, e o chanceler do país viajou à capital chinesa para relatar o conteúdo das conversas. Para Escobar, isso evidenciou que os quatro países muçulmanos não teriam condições de avançar sem consulta direta à China.

Na interpretação do analista, o protagonismo chinês deriva de uma relação estratégica consolidada com o Paquistão, sobretudo por meio do Corredor Econômico China-Paquistão, um dos eixos mais importantes da Iniciativa Cinturão e Rota. Ele relata ter acompanhado ao longo dos anos a expansão da infraestrutura ligada a esse corredor e aponta esses investimentos como demonstração concreta da profundidade da presença chinesa no país.

Foi nesse contexto, afirma Escobar, que China e Paquistão apresentaram uma declaração conjunta com cinco pontos, defendendo cessar-fogo, acesso humanitário, retomada de negociações, proteção de civis e fortalecimento do papel das Nações Unidas. Para ele, porém, o comunicado teve alcance mais simbólico do que prático.

Na visão exposta por Escobar, o texto não oferece mecanismos reais para destravar a crise porque esbarra em posições que, neste momento, seguem incompatíveis. De um lado, o Irã não indicaria disposição para encerrar o confronto nos termos defendidos por Washington. De outro, os Estados Unidos e seus aliados manteriam uma lógica de pressão militar e política que esvazia a confiança necessária para qualquer mediação.

Escobar argumenta ainda que a China não aceitaria o papel de garantidora de um eventual acordo sem segurança mínima de cumprimento pelas partes. Em sua leitura, Pequim evita atrelar sua credibilidade diplomática a um processo cercado por volatilidade estratégica, escalada militar e ausência de confiança recíproca.

Ao tratar das petromonarquias do Golfo, o analista afirma que Arábia Saudita, Kuwait, Bahrein e Emirados Árabes Unidos seguem pressionando os Estados Unidos a endurecer a ofensiva contra o Irã. Ainda assim, ele observa que o quadro pode sofrer ajustes à medida que tensões políticas e disputas de interesse alterem o cálculo estratégico de Riad.

Nesse ponto, Escobar destaca a importância do precedente da reaproximação diplomática entre Arábia Saudita e Irã, formalizada em Pequim. Para ele, esse episódio demonstrou que a China ocupa uma posição singular por ser capaz de dialogar ao mesmo tempo com Teerã e com a liderança saudita.

Sobre a Turquia, a análise é de que Ancara segue em posição especialmente delicada. Escobar afirma que o presidente Recep Tayyip Erdogan atua de maneira pendular, buscando preservar canais com os Estados Unidos e a OTAN sem abrir mão da ambição de ampliar sua inserção em estruturas euroasiáticas. Isso transforma a Turquia em ator relevante, mas também cercado por desconfiança.

O quadro mais amplo traçado pelo analista é o de continuidade da escalada nas próximas semanas, sem base sólida para uma solução negociada de curto prazo. Escobar considera improvável uma invasão terrestre em larga escala do Irã, mas avalia que bombardeios e ataques contra estruturas civis e estatais devem continuar.

Ele também aponta o estreito de Ormuz como peça decisiva desse conflito, por seu peso estratégico nas rotas energéticas e comerciais. Na leitura do jornalista, qualquer mudança em seu funcionamento amplia a pressão geopolítica sobre os Estados Unidos e seus aliados e reforça a dimensão internacional da crise.

Nesse cenário, a China aparece, segundo Escobar, como o único ator com peso suficiente para influenciar simultaneamente Irã, Arábia Saudita, Paquistão e, de forma indireta, os próprios Estados Unidos. Ainda assim, Pequim atuaria com discrição e evitaria expor publicamente negociações sensíveis ou compromissos prematuros.

A conclusão da análise é que a reunião de Islamabad teve relevância menos pelo que entregou e mais pelo que revelou: a articulação entre países muçulmanos segue fragmentada, limitada e dependente de uma instância externa de coordenação. Na visão de Pepe Escobar, essa instância, hoje, é a China.

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