Ricardo Antunes vê IA como vetor de desemprego e servidão digital
Sociólogo afirma que o uso corporativo da inteligência artificial amplia a precarização, ameaça direitos e reforça a concentração de riqueza
247 - A inteligência artificial, no modelo hoje dominante, não representa uma promessa automática de progresso social nem de melhoria das condições de vida. Para o sociólogo Ricardo Antunes, professor titular da Unicamp e pesquisador do mundo do trabalho, o avanço dessas tecnologias tem sido guiado sobretudo pela lógica de acumulação das grandes corporações e do capital financeiro, com efeitos diretos sobre emprego, renda e direitos trabalhistas.
Em entrevista ao programa Forças do Brasil, da TV 247, Antunes sustentou que o centro do debate não está na tecnologia em si, mas em quem a controla, com quais objetivos e sob quais regras. A conversa, conduzida pelo jornalista Mario Vitor Santos, girou em torno do impacto da IA sobre o mercado de trabalho, da expansão do trabalho por plataformas e da ofensiva contra a regulação trabalhista.
Ao longo da entrevista, o pesquisador rejeitou a ideia de que a inteligência artificial seja, por natureza, destrutiva. Segundo ele, a questão decisiva é política e econômica. “Não é a tecnologia que destruirá ou salvará a humanidade. A questão crucial é: quem comanda? Quem controla? Quem concebe? E para que fins a inteligência artificial tá sendo desenvolvida?”, afirmou.
Na avaliação de Antunes, a IA que avança globalmente está subordinada a interesses empresariais que buscam reduzir custos, substituir trabalhadores e ampliar lucros. Por isso, ele propõe uma definição crítica do fenômeno e diz estar finalizando um novo livro sobre o tema. “A inteligência artificial do nosso tempo, dominantemente, ela está na mão de grandes corporações”, declarou, antes de resumir sua leitura em outra formulação: “A tecnologia do nosso tempo tá visando uma disputa poderosa, não é para o bem da humanidade, não é tecnologia, inteligência artificial para melhoria das condições de vida da humanidade, mas para valorizar mais capital”.
Para o sociólogo, uma das consequências centrais desse processo será a eliminação de postos de trabalho em escala global. Ele argumenta que a IA pretende reproduzir, em sistemas automatizados, parte do complexo de pensamento humano, o que amplia a capacidade de substituição de tarefas antes desempenhadas por profissionais de diferentes áreas. “Ela vai significar, primeiro, uma eliminação em massa global de trabalhadores e trabalhadoras”, disse. Em seguida, acrescentou: “A inteligência artificial, na medida em que ele é usada em tudo, no jornalismo, na medicina, na escola, no escritório, na fábrica, ela objetiva eliminar trabalho vivo”.
Na mesma linha, Antunes sustentou que a automação não tende apenas a expulsar trabalhadores do mercado formal, mas também a ampliar formas extremas de precarização. Em sua leitura, o avanço da plataformização e do microtrabalho cria uma massa de trabalhadores sem proteção social, submetida a jornadas longas, remuneração instável e controle algorítmico permanente. “Ela explode no mundo inteiro através do crowdsourcing, do crowdworking, do microtrabalho”, afirmou. E resumiu sua crítica em uma expressão forte: “Então, nós estamos na escravidão digital”.
Ao tratar do cotidiano dos trabalhadores de aplicativos, o professor apontou que a promessa de autonomia vendida por essas empresas esbarra na realidade do bloqueio, da instabilidade e do esvaziamento de direitos. Segundo ele, o trabalhador até pode escolher quando ligar o aplicativo, mas segue subordinado à lógica da plataforma, à necessidade de aceitar corridas e à opacidade do algoritmo. Por isso, rejeita a tese de que se trate de trabalho genuinamente autônomo.
Essa crítica aparece também na defesa enfática da redução da jornada de trabalho. Para Antunes, se a inteligência artificial aumenta produtividade e reduz a necessidade de trabalho vivo, o resultado socialmente justo deveria ser a redução do tempo de trabalho, e não a explosão do desemprego ou o aprofundamento da exploração. “Se a inteligência artificial reduz brutalmente trabalho vivo, tem que reduzir a jornada de trabalho”, afirmou. Na entrevista, ele foi além: “Não é de seis para cinco, não, no mínimo para quatro”.
O sociólogo também vinculou esse debate à luta contra a escala 6x1, classificada por ele como uma pauta central. Em sua avaliação, a permanência de jornadas extensas em um contexto de forte avanço tecnológico revela uma contradição estrutural do capitalismo contemporâneo. Em vez de usar ganhos técnicos para ampliar tempo livre, convivência familiar e qualidade de vida, o sistema transforma inovação em mais pressão, mais produtividade e menos proteção.
Outro ponto destacado por Antunes foi o impacto desigual da IA entre categorias profissionais. Ele avalia que um pequeno núcleo altamente qualificado pode ser absorvido pelas grandes empresas de tecnologia, mas a tendência predominante é de destruição ocupacional em massa. Jornalistas, professores, cineastas, roteiristas, motoristas, médicos e trabalhadores administrativos foram citados entre as atividades sujeitas a substituições, reconfigurações e perda de direitos.
Nesse contexto, o professor contestou o discurso empresarial segundo o qual novas tecnologias necessariamente geram bem-estar coletivo. Para ele, não há exemplo consistente de grandes corporações que tenham investido pesadamente em inteligência artificial para reduzir jornada e elevar salários. O padrão observado, segundo sua análise, é o oposto: ganhos de eficiência apropriados privadamente e socialização dos custos do desemprego, da insegurança e do adoecimento.
Antunes também ligou o avanço da IA a um cenário mais amplo de regressão social e política. Ao comentar o ambiente internacional, associou a nova etapa tecnológica à intensificação da destruição ambiental, da xenofobia, do racismo, da misoginia e do neofascismo. Nessa passagem, criticou o presidente dos Estados Unidos Donald Trump e disse que o mundo atravessa um período de radicalização perigosa. “O cenário é um pouco complicado”, resumiu, ao mencionar também o risco de guerras conduzidas por sistemas automatizados e armamentos cada vez mais sofisticados.
Na parte final da entrevista, o pesquisador voltou a defender a necessidade de regulação forte, controle público e reconstrução de um horizonte humanista para a tecnologia. Ele insistiu que não é contrário à inteligência artificial como ferramenta. O problema, segundo afirmou, é seu uso subordinado à financeirização e à mercantilização generalizada da vida. “Eu não sou contra a inteligência artificial. Eu acho que nos ajuda muito”, disse. Em seguida, definiu o que considera essencial: “Eu quero a humanidade controlando”.
A síntese de sua argumentação aponta para um impasse histórico. De um lado, a tecnologia poderia reduzir o esforço humano, encurtar jornadas e melhorar a vida coletiva. De outro, sob comando corporativo e financeiro, ela tende a servir à concentração de riqueza e à corrosão dos direitos. É essa disputa, segundo Antunes, que decidirá o futuro do trabalho nas próximas décadas.


