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Qual a relação ao uso de insulina e a morte precoce do jovem fisiculturista Gabriel Ganley

Discussão ganhou força após a perícia encontrar medicamentos, possivelmente anabolizantes, na casa de Gabriel Ganley

Gabriel Ganley (Foto: Reprodução/Instagram/@ganleygabriel)
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247 - Uso de insulina por fisiculturistas pode causar hipoglicemia grave, coma e riscos cardiovasculares, segundo endocrinologistas. O hormônio, essencial para o tratamento de pessoas com diabetes, tem sido utilizado fora de indicação médica por atletas saudáveis em busca de aumento de massa muscular.

As informações são do g1. A discussão ganhou força após a perícia encontrar medicamentos, possivelmente anabolizantes, no apartamento onde o fisiculturista e influenciador Gabriel Ganley, de 22 anos, foi encontrado morto. A causa da morte ainda não foi confirmada e depende de exames do Instituto Médico-Legal (IML), sem previsão de divulgação.

Nas redes sociais, Ganley havia relatado o uso de insulina e afirmou que, semanas antes, passou mal em um episódio de hipoglicemia depois de aplicar o hormônio em um dia de alimentação restrita. Os relatos, no entanto, não permitem estabelecer relação direta com a morte, que permanece sob investigação.

Sem comentar o caso específico, o diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), Clayton Macedo, afirmou que o uso de insulina por pessoas sem diabetes ocorre com mais frequência do que se imagina no ambiente de academias, especialmente entre usuários de esteroides anabolizantes.

O interesse pela substância está ligado a uma característica real do hormônio. A insulina facilita a entrada de glicose nas células e participa de processos associados ao ganho de massa corporal. Segundo Macedo, esse efeito explica por que o hormônio passou a ser explorado por fisiculturistas em protocolos voltados ao aumento muscular.

“A insulina é um anabolizante”, resumiu o endocrinologista.

Dentro das células, a insulina bloqueia vias catabólicas, relacionadas à degradação de proteínas, e estimula vias anabólicas, que favorecem a síntese de proteína muscular. Em pacientes com diabetes tipo 1 descompensada, a falta do hormônio leva à perda de peso; quando a reposição é feita corretamente, há recuperação de massa.

Macedo ressalta, porém, que o uso seguro do hormônio depende de indicação médica e de deficiência comprovada. Para pessoas saudáveis, a aplicação representa risco elevado, justamente porque altera de forma brusca o equilíbrio da glicose no sangue.

“Para quem tem deficiência e repõe doses corretas com critério, o remédio é seguro e até protetor. O problema aparece quando alguém sem deficiência alguma passa a usá-la.”

Um estudo publicado em 2024 na revista científica Sports Medicine - Open, feito por pesquisadores da Itália e da Eslovênia com 92 fisiculturistas e 45 integrantes de um grupo controle, dimensionou a presença desse tipo de prática. Cerca de 43% dos atletas avaliados admitiram, em questionário anônimo, usar hormônios com regularidade.

Entre os que relataram uso de hormônios, quase todos recorriam a esteroides anabolizantes. O estudo também apontou combinações com hormônio do crescimento e insulina, indicando que a substância costuma aparecer dentro de protocolos mais amplos, sem respaldo médico para fins estéticos ou de performance.

Além do efeito associado ao ganho muscular, a insulina também favorece o depósito de gordura. Esse aspecto faz com que ela seja usada em fases de “bulking”, etapa em que atletas buscam aumentar volume corporal. O problema, segundo especialistas, é que o suposto controle da glicose durante essas práticas se baseia em orientações sem segurança científica.

“Quando falta, o indivíduo queima gordura e emagrece; quando há insulina em excesso, ele acumula”, explicou Macedo.

O estudo europeu descreve uma prática relatada nesses círculos: a aplicação subcutânea de insulina de ação rápida acompanhada do consumo de açúcar antes ou depois do treino, na tentativa de evitar quedas bruscas de glicose. O endocrinologista, no entanto, rejeita a normalização desse tipo de conduta.

“Eu nunca vi médico, nem o pior possível, preconizando insulina.”

O principal risco imediato é a hipoglicemia, queda da glicose no sangue a níveis perigosos. Em pessoas sem diabetes, a aplicação de insulina pode reduzir rapidamente a glicemia e comprometer o funcionamento do cérebro, que depende de açúcar para manter suas funções.

Macedo explica que, em condições normais, a glicemia permanece acima de 70 mg/dL, sem sintomas. Quando começa a se aproximar da faixa de 50 mg/dL, o organismo aciona mecanismos de defesa, como a liberação de adrenalina. Esse processo pode provocar coração acelerado, tremores e suor intenso.

Se a glicose continua caindo e não há ingestão rápida de carboidrato, ocorre falta de açúcar no cérebro. Esse quadro é chamado de neuroglicopenia e pode evoluir para agitação, confusão mental, torpor, convulsões e coma.

Em situações graves, segundo o médico, a pessoa pode “dormir e não acordar mais”. O risco aumenta em períodos de restrição alimentar, quando o atleta treina intensamente, reduz a ingestão de comida e ainda assim utiliza o hormônio.

Outro fator que preocupa especialistas é a dificuldade de detecção. Diferentemente de outras substâncias, a insulina recombinante usada por humanos é praticamente idêntica à produzida pelo próprio corpo. Além disso, circula por pouco tempo no sangue, o que torna sua identificação por exames antidoping extremamente difícil.

O estudo europeu buscou marcadores indiretos para tentar contornar essa limitação. Os pesquisadores observaram alterações em fisiculturistas usuários de insulina e hormônio do crescimento, como queda no colesterol HDL, conhecido como “bom colesterol”, e mudanças em enzimas do fígado.

Segundo a pesquisa, em usuários de insulina, a relação entre as enzimas ALT e AST apresentou elevação característica. Esse achado poderia, no futuro, contribuir para monitoramentos de longo prazo, embora ainda não resolva a dificuldade de flagrar o uso da substância em exames tradicionais.

A insulina, no entanto, raramente aparece de forma isolada nesse contexto. De acordo com Macedo, ela costuma ser combinada com esteroides, estimulantes e diuréticos, formando um conjunto de substâncias que aumenta a preocupação de endocrinologistas e cardiologistas.

Os esteroides anabolizantes reduzem o HDL, elevam o LDL, conhecido como “mau colesterol”, aumentam a pressão arterial e tornam o sangue mais espesso e propenso à coagulação. Com isso, crescem os riscos de trombose e embolia.

O coração também pode ser afetado. Por ser um músculo, ele responde a estímulos e pode sofrer hipertrofia. Esse cenário se agrava quando há predominância de treinos de força, com pouco exercício aeróbico, sem desenvolvimento proporcional da capacidade circulatória.

“Mesmo que não use anabolizante, quem faz só treino resistido já tem aumento de risco cardiovascular”, afirmou Macedo.

Um coração hipertrofiado e sobrecarregado pode se tornar mais vulnerável a arritmias. O risco aumenta quando há associação com substâncias estimulantes, que atuam sobre o sistema adrenérgico e podem desencadear eventos graves.

O endocrinologista afirma atender com frequência crescente pacientes que desenvolveram arritmias após o uso de esteroides, inclusive alguns após implantes hormonais. Ele também observa que mortes súbitas em treinos e competições têm se tornado mais recorrentes.

O uso de hormônios para ganho muscular permanece proibido quando não há finalidade terapêutica. Esteroides anabolizantes para fins estéticos ou de performance são vetados pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) e pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), por não configurarem tratamento de saúde. No caso da insulina, não há indicação para pessoas sem diabetes.

Segundo Macedo, as doses usadas nesses ambientes podem ser “literalmente cavalares”, e parte das substâncias vem de produtos veterinários, mais fáceis de obter e mais potentes, como a trembolona.

Para o especialista, o problema ultrapassa o uso individual. Atletas jovens, com grande visibilidade nas redes sociais, acabam projetando um padrão corporal descrito por ele como “inatingível fisiologicamente” sem substâncias. A popularização desse ideal, segundo o médico, avançou mais rapidamente do que o conhecimento público sobre os riscos envolvidos.

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