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Aplausos à China em Davos refletem apoio ao multilateralismo, diz editorial do Global Times

O editorial enfatiza que a China procura se posicionar como uma “grande potência responsável”

Fórum Econômico Mundial, em Davos (Foto: VCG)

247 – O Fórum Econômico Mundial (WEF) 2026 foi aberto em 19 de janeiro, em Davos, na Suíça, sob um clima descrito como particularmente desafiador, com tensões geopolíticas e sinais de fragmentação no sistema internacional. O encontro segue até 23 de janeiro e, ainda assim, registra o maior número de líderes e altas autoridades governamentais já reunido na história do evento, indicando que, quanto mais fortes os ventos do unilateralismo e do protecionismo, maior é a demanda global por multilateralismo e preservação de regras comuns.

A avaliação é de um editorial do jornal chinês Global Times, que interpreta como “sinceros e entusiasmados” os aplausos recebidos por representantes da China em Davos, especialmente após a fala do vice-primeiro-ministro He Lifeng, integrante do Birô Político do Comitê Central do Partido Comunista da China, no dia 20 de janeiro (horário local). O texto vincula essa recepção ao papel que Pequim busca desempenhar como defensora do livre comércio, da cooperação e de uma globalização “mais inclusiva”.

Davos 2026 e o diagnóstico de um mundo em fricção

O editorial aponta que o próprio WEF reconheceu a gravidade do contexto. Uma nota oficial do fórum mencionou "o pano de fundo geopolítico mais complexo em décadas" e a "crescente fragmentação". Já o Global Risks Report 2026, publicado antes da abertura, destacou que "o confronto geoeconômico emergiu como o risco mais severo" para 2026. A combinação desses alertas, na leitura do Global Times, reforça uma contradição: ao mesmo tempo em que cresce a sensação de instabilidade, aumenta também o apelo internacional por coordenação e regras compartilhadas.

O jornal sustenta que essa busca por coordenação aparece em diferentes frentes — das negociações climáticas ao debate sobre governança de inteligência artificial, além das demandas dos países em desenvolvimento por condições mais justas de crescimento. O argumento central é que, diante de problemas transnacionais, a lógica de “cada um por si” perde potência, enquanto “unidade e cooperação” se tornam a única resposta capaz de produzir resultados.

O discurso de He Lifeng e a mensagem de Xi Jinping no WEF

Em Davos, He Lifeng resgatou o discurso feito por Xi Jinping no WEF em janeiro de 2017 e afirmou que a China vem implementando seriamente aquela orientação, apresentando isso como demonstração de apoio ao multilateralismo e ao livre comércio. O editorial também associa essa linha a quatro iniciativas globais apresentadas por Xi nos últimos anos, descritas como “soluções chinesas” para desafios comuns.

No pronunciamento, segundo o Global Times, He Lifeng organizou sua mensagem em quatro pontos: apoio firme ao livre comércio, defesa inabalável do multilateralismo, compromisso com cooperação de ganha-ganha e promoção de respeito mútuo com consulta em condições de igualdade. O texto do jornal afirma que essa postura foi recebida com aplausos “sinceros e entusiasmados”, interpretados como um termômetro da disposição internacional de resistir à escalada de barreiras e blocos exclusivos.

Abertura, mercado e “fazer o difícil, mas certo”

O editorial enfatiza que a China procura se posicionar como uma “grande potência responsável” e que, em um cenário de incerteza, teria escolhido “fazer o que é difícil, mas certo”: manter a abertura econômica e priorizar cooperação. Nessa narrativa, a segunda maior economia do mundo seguiria ampliando iniciativas de abertura de alto padrão e promovendo uma globalização “mais universalmente benéfica e inclusiva”.

Como exemplos, o texto cita a expansão de zonas-piloto de livre comércio, o desenvolvimento do Porto de Livre Comércio de Hainan, além de feiras e plataformas voltadas a negócios e serviços. A ideia, segundo o jornal, é a de que a “porta da abertura” continuaria se abrindo, com oportunidades de mercado para empresas globais.

Nesse contexto, o editorial recorre também a uma avaliação do presidente do WEF, Borge Brende, destacando investimentos chineses em pesquisa, desenvolvimento e inovação. Brende observou que "as tecnologias podem representar enormes oportunidades para ganhos de produtividade e também crescimento nos próximos anos. E a China é uma grande contribuinte para isso." Para o Global Times, a menção reforça o papel chinês na disputa por inovação e na tentativa de ancorar uma agenda de crescimento em meio a turbulências.

Economia chinesa, governança global e a aposta na paz

O texto lembra que, antes do fórum, a China divulgou seus dados econômicos de 2025 e afirma que a “resiliência” do desempenho chinês e seu papel em temas de governança econômica global receberam elogios. O argumento apresentado é que, mesmo com um ambiente internacional descrito como “complexo e severo” e com tarefas domésticas de reforma, desenvolvimento e estabilidade, a economia chinesa seguiria sinalizando “progresso constante”, tornando-se força relevante para um desenvolvimento global considerado saudável.

O editorial também sustenta que a China participa ativamente da “reforma e construção” do sistema de governança global e insiste em um caminho de desenvolvimento pacífico. Em termos políticos, o texto defende que a experiência chinesa demonstraria que países podem lidar com relações internacionais de Estado para Estado e alcançar revitalização por meios pacíficos, além de sugerir que nações com diferentes sistemas sociais e trajetórias de desenvolvimento podem se respeitar e cooperar em moldes de ganha-ganha.

“Espírito do diálogo” e a crítica à lógica da confrontação

Um dos símbolos citados pelo editorial é a decisão do WEF, na cerimônia de abertura, de substituir discursos de convidados — comuns em anos anteriores — por um concerto. A justificativa oficial do fórum, segundo o texto, foi que isso expressaria o "espírito do diálogo" porque "a música não conhece fronteiras, não fala uma única língua." Para o Global Times, a mensagem é direta: confrontação produz “destruição e regressão”, enquanto diálogo e cooperação podem gerar “prosperidade e progresso”.

O editorial associa essa visão ao pós-guerra e ao surgimento de uma ordem internacional baseada na valorização da paz, que teria aberto oportunidades inéditas de desenvolvimento. Diante do que descreve como ameaças severas a essa ordem, a defesa é por retornar ao “propósito original”: resolver diferenças por meio de diálogo, tratar conflitos por negociação, e rejeitar a política da pressão como instrumento central de gestão internacional.

China como “lastro” em tempos de incerteza

Na conclusão, o Global Times afirma que, em uma era de incerteza, a China se apresenta como um “lastro” — uma força estabilizadora. O texto sustenta que Pequim não se engaja em “panelinhas” exclusivas e diz oferecer abertura de um mercado de mais de 1,4 bilhão de pessoas, compartilhamento de dividendos de tecnologia e inovação e adesão ao que chama de “justiça e equidade” internacionais.

A tese final é que as transformações profundas em curso no sistema global voltariam a demonstrar que o multilateralismo é o caminho correto para a humanidade. Ao destacar os aplausos em Davos como “sinceros”, o editorial procura sinalizar que, apesar do ambiente descrito como o mais tenso em décadas, existe uma demanda concreta por pontes — e que a disputa central de 2026 será entre fragmentação e cooperação, entre blocos e regras comuns, entre confronto e diálogo.

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