"A China não é só a fábrica do mundo, mas sim um dos maiores mercados – e aberto a todos", diz He Lifeng em Davos
Em discurso em Davos, o vice-premiê chinês defendeu cooperação “ganha-ganha e prometeu ampliar importações, investimentos e transição verde
247 – O vice-premiê da China, He Lifeng, afirmou hoje, no Fórum de Davos, que o país não pretende ser visto apenas como a “fábrica do mundo”, mas também como um dos maiores mercados globais, disposto a ampliar compras, investimentos e parcerias com empresas e governos estrangeiros. Em um discurso centrado na defesa do multilateralismo econômico e da cooperação internacional, He disse que a China seguirá aprofundando reformas e abertura, em meio a um cenário internacional de crescimento lento, desigualdade crescente e dificuldades para cumprir metas de desenvolvimento sustentável.
Críticas ao baixo crescimento e alerta sobre metas da ONU
He Lifeng iniciou sua exposição destacando que a economia mundial “está sem impulso”, citando uma projeção do Fundo Monetário Internacional (FMI) de crescimento de 3,1% em 2026, abaixo da média pré-pandemia, estimada em 3,7%. Ele afirmou que, além disso, a desigualdade continua se aprofundando e a sustentabilidade enfrenta desafios graves.
No mesmo trecho, He citou um relatório das Nações Unidas segundo o qual dois terços dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) não deverão ser cumpridos até 2030, defendendo que a busca por desenvolvimento deve ser coletiva e equilibrada.
“Fazer o bolo crescer” e rejeitar a lógica de soma zero
Em um dos trechos centrais do discurso, He Lifeng criticou a ideia de que o comércio internacional se organiza em torno de vencedores e perdedores. Para o vice-premiê, a prioridade deve ser ampliar o desenvolvimento e resolver problemas em conjunto, em vez de transformar disputas econômicas em antagonismos permanentes.
Ele declarou: “A busca pelo desenvolvimento não deve ser um jogo de soma zero, de ‘você perde, eu ganho’”. E acrescentou: “Fazer o bolo crescer juntos é mais importante do que brigar pelo bolo, e resolver problemas juntos é mais eficaz do que ficar culpando uns aos outros”.
“Não buscamos superávit” e China como grande mercado global
He Lifeng afirmou que a China está comprometida em promover “prosperidade comum” com parceiros comerciais a partir do próprio desenvolvimento, insistindo que Pequim não tem como objetivo a concentração de ganhos externos.
Ele afirmou: “Nós nunca buscamos superávit comercial. Além de ser a ‘fábrica do mundo’, esperamos ser o ‘mercado do mundo’ também”. Em seguida, reconheceu que, muitas vezes, há barreiras quando o país busca ampliar importações: “Em muitos casos, quando a China quer comprar, outros não querem vender”.
Segundo o vice-premiê, disputas comerciais acabam frequentemente convertidas em questões de segurança nacional e restrições políticas. He observou ainda que os serviços respondem por cerca de dois terços do PIB global e que a China registra déficit de longo prazo nesse segmento, sem que isso implique uma postura de vitimização ou acusação de “exploração”.
O dirigente prometeu usar o peso do mercado chinês para ampliar importações e fortalecer a cooperação industrial, de modo que outros países possam “compartilhar as oportunidades” criadas pela economia chinesa.
Relação com os EUA: consulta “em pé de igualdade” e evitar confronto
Outro ponto destacado por He Lifeng foi a relação econômica e comercial entre China e Estados Unidos, que ele descreveu como marcada por oscilações no último ano. De acordo com ele, houve várias rodadas de conversas e consultas bilaterais voltadas a evitar instabilidade.
He afirmou que, sob princípios como respeito mútuo, coexistência pacífica e cooperação, os dois lados conseguiram lidar com questões pendentes e manter o relacionamento “em geral estável”. Ele resumiu a posição chinesa com uma frase enfática: “Os fatos demonstraram mais uma vez que China e Estados Unidos ganham com a cooperação e perdem com o confronto”.
Para o vice-premiê, divergências e fricções são normais entre países com sistemas sociais, histórias e estágios de desenvolvimento diferentes, mas muitas delas podem ser resultado de mal-entendidos. Ele defendeu que disputas devem ser resolvidas com diálogo e consulta, e não por antagonismo.
Crescimento, reforma e economia de 140 trilhões de yuans
Ao apresentar números da economia chinesa, He Lifeng afirmou que, nos últimos cinco anos, o país avançou em reformas e abertura, ampliou o mercado consumidor, desenvolveu “novas forças produtivas de qualidade” e acelerou a transição verde e de baixo carbono, com crescimento médio anual “em torno de 5,4%”.
Ele afirmou que a economia chinesa chegou a 140 trilhões de yuans, contribuindo com cerca de 30% do crescimento global. He acrescentou que seus investimentos externos ajudaram a gerar arrecadação tributária, empregos e expansão econômica em outros países.
O vice-premiê reconheceu que o país enfrenta desafios antigos e novos, mas descreveu esses problemas como “dores do crescimento” decorrentes da transformação e da transição econômica, reiterando confiança na capacidade de enfrentá-los.
Plano quinquenal, consumo e expansão da demanda doméstica
He Lifeng afirmou que a China estabeleceu um novo planejamento estratégico para os próximos anos, com a adoção das recomendações do 15º plano quinquenal. Segundo ele, a economia chinesa seguirá a filosofia de desenvolvimento “inovadora, coordenada, verde, aberta e compartilhada”, e buscará aprofundar um novo paradigma com o mercado interno como base principal.
O vice-premiê ressaltou que a China já é o segundo maior mercado consumidor do mundo e, em setores como automóveis, celulares e eletrodomésticos, lidera globalmente. Ainda assim, o gasto per capita permanece abaixo dos padrões das economias desenvolvidas, o que indicaria espaço para crescimento.
Ele afirmou que, com o avanço do grupo de renda média e o aumento das demandas por qualidade de vida, existe enorme potencial para expansão do consumo. Disse ainda que o país colocou o estímulo à demanda doméstica no centro da agenda econômica e trabalha para impulsionar a renda urbana e rural.
Inovação, inteligência artificial e cooperação tecnológica
He Lifeng também afirmou que a revolução tecnológica e a transformação industrial estão se acelerando e que a inovação será um eixo central da modernização chinesa. Ele declarou que a China possui o maior número de pesquisadores e pedidos internacionais de patentes, além de um ambiente fértil para aplicações em diferentes setores.
No discurso, ele mencionou ainda que a inteligência artificial já vem impulsionando segmentos diversos e afirmou que o progresso tecnológico depende de cooperação internacional, inclusive para enfrentar desafios como a governança global da IA.
Transição verde e metas climáticas
Ao tratar do clima, He Lifeng citou o anúncio feito pelo presidente Xi Jinping sobre os compromissos da China para 2035 e afirmou que esta foi a primeira vez que o país apresentou uma meta absoluta de redução de emissões. Ele defendeu que a China tem demonstrado esforço máximo ao construir um sistema robusto de energia renovável e uma cadeia industrial completa de nova energia.
O vice-premiê reafirmou a meta de atingir o pico de emissões antes de 2030 e a neutralidade de carbono antes de 2060, defendendo o fortalecimento do processo multilateral e da cooperação internacional para acelerar o desenvolvimento global de baixo carbono.
“A sabedoria de Davos está no diálogo”
Ao final da fala, He Lifeng concluiu com um apelo ao entendimento entre países e ao fortalecimento da cooperação econômica, destacando que o futuro da economia mundial depende de solidariedade.
Ele defendeu que a “sabedoria de Davos” reside no diálogo e concluiu pedindo que os participantes sustentem a abertura e a cooperação para conduzir a economia global a um caminho mais estável e inclusivo.


