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Líder canadense alerta em Davos sobre ruptura global e convoca potências intermediárias a liderar nova ordem internacional

Mark Carney critica o “faz de conta” da ordem baseada em regras, denuncia a coerção econômica de Trump e destaca parceria com o Mercosul

Mark Carney em Davos (Foto: Reprodução Youtube)

247 – O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, fez um discurso de forte impacto político no Fórum Econômico Mundial (WEF) 2026, em Davos, ao afirmar que o mundo vive uma “ruptura” — e não uma simples fase de transição — marcada pela intensificação da rivalidade entre grandes potências, pela erosão da chamada “ordem baseada em regras” e pela transformação da economia global em instrumento de coerção. Ao longo de sua fala, Carney defendeu que países intermediários, como o Canadá, não podem mais aceitar a acomodação silenciosa e precisam construir, em conjunto, uma alternativa realista, soberana e baseada em valores.

A íntegra do pronunciamento foi divulgada pelo canal DRM News, que acompanha o encontro na Suíça com cobertura ao vivo, apresentando o discurso como um chamado para que as potências intermediárias “se levantem”, reforcem sua capacidade interna e passem a atuar de forma coordenada diante de um cenário internacional cada vez mais imprevisível.

Uma ruptura que muda o mundo

Carney abriu sua intervenção destacando que o ambiente global deixou de ser regido por compromissos estáveis e previsíveis. Em sua avaliação, o mundo entrou numa fase de choque estrutural, em que acordos, instituições multilaterais e regras internacionais já não oferecem proteção confiável às nações que não ocupam o topo da hierarquia do poder.

"Vou ser direto: estamos no meio de uma ruptura, não de uma transição."

O primeiro-ministro afirmou que, nas últimas duas décadas, sucessivas crises — financeiras, sanitárias, energéticas e geopolíticas — expuseram o grau de vulnerabilidade de um sistema altamente integrado. Mais recentemente, segundo ele, a própria globalização passou a ser usada como arma.

"As grandes potências começaram a usar a integração econômica como arma: tarifas como alavanca, infraestrutura financeira como coerção, cadeias de suprimentos como vulnerabilidades a serem exploradas."

Para Carney, essa mudança impõe um dilema aos países intermediários: ou seguem se ajustando de forma passiva ao novo ambiente de coerção, ou constroem capacidade interna e alianças eficazes para não se tornarem reféns.

O “faz de conta” da ordem baseada em regras

Um dos trechos centrais do discurso foi a crítica ao discurso tradicional da “ordem internacional baseada em regras”, apresentada por décadas como um sistema de previsibilidade e justiça. Carney reconheceu que esse arranjo permitiu prosperidade a países como o Canadá, mas enfatizou que havia ali uma ficção conveniente: as regras nunca valeram da mesma forma para todos.

"Nós sabíamos que a história da ordem internacional baseada em regras era parcialmente falsa."

Ele admitiu que a hegemonia norte-americana, em especial, ajudou a oferecer “bens públicos” relevantes, como rotas marítimas abertas, estabilidade financeira e mecanismos de segurança coletiva. Ainda assim, reforçou que os desequilíbrios sempre existiram, com aplicação assimétrica de regras comerciais e seletividade no cumprimento do direito internacional.

"Sabíamos que as regras comerciais eram aplicadas de forma assimétrica. E sabíamos que o direito internacional era aplicado com rigor variável, dependendo de quem era o acusado ou a vítima."

A mensagem do premiê foi que esse “acordo tácito” já não serve. E, na prática, insistir no mesmo ritual virou um erro perigoso.

"Esse pacto não funciona mais."

A metáfora de Havel e o “cartaz na vitrine”

Para ilustrar o que chamou de participação involuntária numa farsa global, Carney recorreu ao ensaio “O poder dos sem poder”, do dissidente tcheco Václav Havel, no qual um comerciante coloca um cartaz ideológico na vitrine apenas para evitar problemas, mesmo sem acreditar no conteúdo.

"Ele não acredita. Ninguém acredita. Mas ele coloca o cartaz mesmo assim, para evitar problemas, para sinalizar conformidade, para seguir em frente."

Carney comparou essa atitude ao comportamento internacional das potências intermediárias: países que “seguem o script” da ordem baseada em regras, mesmo quando sabem que a realidade é outra. E então fez o apelo mais simbólico do discurso:

"Amigos, é hora de empresas e países tirarem seus cartazes da vitrine."

A frase marcou o momento em que o primeiro-ministro passou a defender uma postura mais direta, menos conformista e mais estratégica frente ao novo cenário internacional.

O risco de um mundo de fortalezas

Carney reconheceu que, quando as regras deixam de proteger, cresce a tentação de cada país construir sua própria “fortaleza”, buscando autonomia total em energia, alimentos, minerais críticos, finanças e cadeias produtivas. Mas alertou que isso pode levar o planeta a um ambiente ainda mais instável e desigual.

"Um mundo de fortalezas será mais pobre, mais frágil e menos sustentável."

Ao mesmo tempo, ele insistiu que a busca por autonomia é compreensível, porque uma nação que não consegue se alimentar, se abastecer e se defender tem poucas opções. O problema, disse ele, é tentar fazer isso sozinho, sem coordenação internacional.

Por isso, propôs uma lógica alternativa: soberania com resiliência compartilhada, por meio de padrões comuns, investimentos coletivos e alianças funcionais, capazes de reduzir o custo da proteção e aumentar a estabilidade.

"Investimentos coletivos em resiliência são mais baratos do que cada um construir sua própria fortaleza."

“Realismo baseado em valores”: pragmatismo sem submissão

Carney descreveu a nova postura canadense como uma combinação entre princípios e pragmatismo, o que chamou de “realismo baseado em valores”. A ideia, segundo ele, é manter compromissos com direitos humanos, soberania e integridade territorial, sem ignorar que o mundo real é marcado por interesses divergentes e acordos imperfeitos.

"Queremos ser, ao mesmo tempo, principistas e pragmáticos."

Ele afirmou que o Canadá seguirá comprometido com valores fundamentais, incluindo a proibição do uso da força fora do que prevê a Carta da ONU, além do respeito aos direitos humanos e à soberania nacional.

"Principistas no compromisso com valores fundamentais: soberania, integridade territorial, a proibição do uso da força — exceto quando consistente com a Carta da ONU — e respeito aos direitos humanos."

Mas também defendeu uma diplomacia “com os olhos abertos”, sem ingenuidade, reconhecendo que nem todo parceiro vai compartilhar plenamente esses valores.

"Estamos nos engajando amplamente, de forma estratégica, com os olhos abertos. Lidamos com o mundo como ele é, e não esperamos por um mundo como gostaríamos que fosse."

A agenda interna: bilhões, energia, inteligência artificial e indústria

Um eixo essencial do discurso foi a defesa do fortalecimento interno como base concreta da soberania. Carney disse que o Canadá está reforçando seu poder econômico e industrial para reduzir vulnerabilidades externas e ganhar margem de decisão.

"Não estamos mais confiando apenas na força de nossos valores, mas também no valor da nossa força. Estamos construindo essa força em casa."

Ele afirmou que seu governo reduziu impostos, removeu barreiras federais ao comércio entre províncias e acelerou um plano de investimentos gigantesco em setores estratégicos.

"Estamos acelerando um trilhão de dólares em investimentos em energia, inteligência artificial, minerais críticos, novos corredores comerciais e muito mais."

Na área militar, anunciou um salto expressivo.

"Vamos dobrar nossos gastos em defesa até o fim desta década."

E acrescentou que esse aumento será feito de modo a estimular a indústria nacional.

"Vamos fazer isso de formas que fortaleçam nossas indústrias domésticas."

A diversificação internacional e as negociações com o Mercosul

Carney também apresentou uma ofensiva diplomática e econômica para diversificar alianças e reduzir dependências. Ele afirmou que o Canadá firmou uma parceria estratégica ampla com a União Europeia e citou, inclusive, a adesão a mecanismos europeus de compras na área de defesa.

"Firmamos uma parceria estratégica abrangente com a União Europeia, incluindo nossa adesão ao SAFE, os arranjos europeus de compras de defesa."

Segundo ele, o governo canadense fechou acordos comerciais e de segurança em diversos continentes em apenas seis meses, além de iniciar negociações com diferentes blocos econômicos.

Nesse ponto, Carney mencionou diretamente o Mercosul como parte das tratativas em curso.

"Estamos negociando pactos de livre comércio com Índia, ASEAN, Tailândia, Filipinas e Mercosul."

A fala é especialmente relevante porque sinaliza uma tentativa do Canadá de ampliar presença na América do Sul em meio à reorganização global das cadeias produtivas e das parcerias estratégicas.

Groenlândia, Ártico e a disputa pela soberania

Outro trecho de grande repercussão ocorreu quando Carney abordou a soberania no Ártico e declarou apoio explícito à Groenlândia e à Dinamarca, afirmando que os groenlandeses têm o direito de decidir seu futuro.

"Na soberania do Ártico, estamos firmemente com a Groenlândia e a Dinamarca e apoiamos plenamente o direito único deles de determinar o futuro da Groenlândia."

Ele também criticou o uso de tarifas e disputas econômicas envolvendo a região e pediu negociações objetivas para garantir segurança e prosperidade no Ártico.

"O Canadá se opõe fortemente a tarifas sobre a Groenlândia e pede negociações focadas para alcançarmos nossos objetivos comuns de segurança e prosperidade no Ártico."

A menção ocorre num contexto em que o comércio global volta a ser pressionado por ameaças tarifárias e por disputas geopolíticas em regiões estratégicas — cenário intensificado pela retomada de políticas protecionistas associadas à atual conjuntura dos Estados Unidos, sob o governo de Donald Trump, atual presidente do país.

Coalizões flexíveis: “se não estamos à mesa, estamos no cardápio”

Carney defendeu que, para enfrentar a pressão das grandes potências, países intermediários devem atuar em coalizões variáveis, construídas tema a tema conforme interesses e valores compartilhados. Ele chamou essa lógica de “geometria variável”: diferentes alianças para diferentes desafios.

Dentro dessa estratégia, disse que o Canadá busca formar redes densas de comércio, investimentos, cultura e cooperação, capazes de oferecer alternativas reais quando a coerção econômica se impõe.

O premiê também criticou a tendência de países intermediários negociarem isoladamente com potências hegemônicas, o que, segundo ele, resulta em fragilidade e submissão.

"Quando negociamos apenas bilateralmente com um hegemon, negociamos a partir da fraqueza."

E então resumiu o dilema de forma direta:

"Se não estamos à mesa, estamos no cardápio."

“Viver a verdade” e abandonar a nostalgia

Na parte final, Carney retomou a metáfora de Havel para propor o que chamou de “viver a verdade” na política internacional: reconhecer a realidade como ela é, parar de repetir fórmulas vazias e agir com coerência, inclusive diante de aliados.

"Parem de invocar a ordem baseada em regras como se ela ainda funcionasse como é anunciada."

Ele também criticou a seletividade moral e política quando países condenam pressões econômicas vindas de um lado, mas silenciam quando a coerção vem de outro.

"Isso significa agir com consistência, aplicando os mesmos padrões a aliados e rivais."

Carney afirmou que fortalecer a economia interna e diversificar relações externas são pré-condições para uma política externa honesta, porque reduzem o risco de retaliação e ampliam a capacidade de sustentar posições principistas.

"A diversificação internacional não é apenas prudência econômica. É uma base material para uma política externa honesta."

Ao final, o primeiro-ministro afirmou que o mundo não deve ficar preso à nostalgia de um sistema que não voltará, e que a tarefa das potências intermediárias é construir algo novo a partir da fratura atual.

"A nostalgia não é uma estratégia."

E concluiu seu chamado como um convite aberto a outras nações que queiram seguir o mesmo caminho.

"Temos a capacidade de parar de fingir, nomear a realidade, construir nossa força em casa e agir juntos."

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