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Pânico americano revela que a violência do Império sempre esteve no centro do sistema, afirma Shahid Bolsen

Comentarista diz que o choque interno com o governo Trump expõe a mesma máquina de coerção que Washington exporta há décadas ao mundo

Shahid Bolsen (Foto: Reprodução Youtube)

247 – Um vídeo publicado no YouTube pelo comentarista e analista geopolítico Shahid Bolsen, do canal Middle Nation, vem repercutindo nas redes ao sustentar que a sensação de colapso vivida por parte dos norte-americanos no primeiro ano do governo de Donald Trump não se deve a um “desvio” do sistema, mas ao funcionamento normal de um modelo historicamente baseado em violência, coerção e concentração de riqueza. Segundo ele, o que muda agora é que as práticas que os Estados Unidos sempre impuseram ao exterior tornam-se mais visíveis dentro do próprio país.

A análise, intitulada “American Panic”, parte do que Bolsen descreve como um estado crescente de medo, indignação e ansiedade entre cidadãos que buscam “direção” e “solução” diante de deportações, campos de detenção e ações do ICE (Serviço de Imigração e Controle de Alfândega). Para o comentarista, no entanto, esse desespero é frequentemente marcado por uma cegueira histórica: muitos se comportam como se a crise tivesse começado apenas com Trump, ignorando que a máquina política e repressiva norte-americana opera assim há gerações.

Logo na abertura, Bolsen ironiza o senso de urgência de quem, após apenas um ano de endurecimento político, já afirma ter chegado ao limite. “Há muitos americanos na internet agora, compreensivelmente com raiva, ansiosos, aterrorizados… pedindo ajuda, pedindo direção”, afirma. E em seguida lança a pergunta que estrutura o argumento: “Como você acha que isso soa para todas as vítimas globais dos Estados Unidos?”. O comentarista cita palestinos, afegãos, iraquianos, líbios, mexicanos, nicaraguenses, salvadorenhos e vietnamitas como exemplos de povos submetidos, por décadas, a intervenções e violências que agora retornam para o centro do império.

Contexto: Trump e a falsa sensação de ruptura

Bolsen reconhece que o governo Trump intensificou a exposição pública da brutalidade estatal, mas rejeita a ideia de que o fenômeno seja novo ou excepcional. A seu ver, atribuir tudo à figura do atual presidente norte-americano funciona como forma de negação, porque preserva a fantasia de que existiria uma “democracia saudável” que foi subitamente “sequestrada”.

“Você não está sofrendo com um sistema quebrado”, diz ele. “Você está vivendo o seu sistema operando perfeitamente normal, completamente normal.” Para Bolsen, o que se apresenta como ruptura seria, na realidade, continuidade: um Estado desenhado para concentrar riqueza, projetar violência para fora e controlar a sociedade internamente por meio de conforto material seletivo e repressão espetacular contra quem resiste.

Nesse ponto, a crítica vai além da polarização partidária. Bolsen sustenta que o núcleo do poder permanece intacto, independentemente de quem ocupa a Casa Branca, e que as divergências entre democratas e republicanos são muitas vezes “estéticas”, ligadas à gestão da imagem pública.

Ele cita políticas migratórias como exemplo. “Obama deportou mais gente do que qualquer presidente antes dele”, afirma. “Biden continuou construindo o muro de Trump. As diferenças são apenas estéticas. Não há diferença de substância entre um partido e outro.” A conclusão é direta: “Trump não está sequestrando seu país. Ele está apenas fazendo o que presidentes americanos sempre fizeram. Você só não via.”

ICE, deportações e o império voltado para dentro

Um dos trechos mais contundentes da fala de Bolsen é a recusa em tratar o ICE, as deportações em massa e os centros de detenção como “anomalias” institucionais. Ao contrário, ele diz que esses mecanismos são parte orgânica do sistema.

“O ICE não é uma aberração. As deportações não são um desvio. Os campos não são uma falha do sistema”, afirma. “Isso é o sistema. Isso é o que os Estados Unidos fazem.”

O comentarista argumenta que, durante décadas, as formas mais brutais de coerção foram direcionadas para fora, em guerras, ocupações e sanções econômicas, enquanto parte da população dentro do país seguia protegida por uma combinação de consumo, propaganda e relativo conforto. Agora, diz ele, essa violência volta-se de maneira mais explícita para dentro, atingindo inclusive setores que antes acreditavam estar imunes.

“O que você está experimentando não é um desvio da chamada democracia americana”, afirma. “É o que a democracia americana realmente é e sempre foi.” Ele prossegue: “A diferença agora é que a violência, a coerção e a crueldade que os Estados Unidos sempre exportaram estão se tornando um pouco mais visíveis domesticamente.”

Bolsen também confronta o que chama de “mitologia moral” do país: a ideia de que os EUA seriam essencialmente bons e apenas ocasionalmente cometeriam erros. Para ele, essa narrativa é uma construção ideológica necessária para manter a população integrada ao sistema e incapaz de reconhecer sua natureza estrutural.

“Você acredita que os EUA são fundamentalmente bons e só às vezes erram. Isso é falsidade evidente”, diz. “É sistemático.”

Crise de consciência e pedido de socorro ao mundo

Ao longo do vídeo, Bolsen reforça um ponto central: a comoção moral que agora toma conta de parte da sociedade norte-americana surge tarde e de modo incompleto, frequentemente sem romper com a lógica imperial que sustentou privilégios internos por décadas.

Ele critica, por exemplo, o impulso de pedir “ajuda do mundo” como primeira reação a momentos difíceis, justamente de um país que, segundo ele, não demonstrou solidariedade com os povos que vitimou. “A primeira coisa que vocês fazem quando as coisas ficam um pouco difíceis é ir para a internet e pedir ao mundo para vir ajudar”, afirma, em tom duro. Para ele, isso revela ausência de enraizamento moral e dependência estrutural de tutelas externas.

Bolsen descreve esse comportamento como sintoma de uma sociedade que, em vez de cidadãos, teria sido convertida em consumidores domesticados, incapazes de sustentar resistência real diante de custos materiais e políticos. Sem uma base ética consistente, diz ele, qualquer mobilização tende a colapsar assim que se torna desconfortável.

“O que você precisa não é de um líder”, afirma. “Você precisa de uma completa reorientação ideológica.”

Análise e impactos: limites das saídas institucionais e a proposta de “alternativas”

Na parte mais programática do vídeo, Bolsen afirma que as respostas tradicionais oferecidas pelo liberalismo político norte-americano — eleições, protestos ritualizados e apelos a “valores constitucionais” — não alteram as engrenagens reais do poder. Segundo ele, esses mecanismos existem justamente porque não ameaçam o sistema, funcionando como válvulas de escape para dissipar resistência.

“Você não pode votar para sair disso”, diz. “Seu governo não representa você. Ele representa o capital e sempre representou.”

Ele também relativiza protestos de massa como instrumento efetivo, citando mobilizações históricas que não impediram guerras e políticas estruturais. A crítica se amplia ao funcionamento do Estado, descrito como blindado contra qualquer transformação popular real.

Diante disso, ele apresenta o que considera o único caminho possível: recusar-se a ser instrumento do sistema e construir estruturas paralelas, locais e comunitárias. Bolsen menciona redes de apoio mútuo, formas alternativas de educação, agricultura comunitária, cooperativas e mídia independente como elementos de autonomia social. A proposta é preparar comunidades para um cenário de aprofundamento da crise, no qual o Estado tende a se tornar ainda mais predatório e menos capaz de oferecer garantias mínimas.

“A verdade é que você não vai reformar esse sistema por dentro”, afirma. “Pare de achar que você pode mudar o sistema e comece a construir o seu.”

Em sua leitura, os Estados Unidos vivem a retração de um império em declínio, e a questão central não é se esse declínio ocorrerá, mas quão violento ele será e quem pagará o preço. Bolsen afirma que elites econômicas e políticas já se movimentam para proteger fortunas e consolidar mecanismos de controle social, enquanto a população é mantida sob uma combinação de medo e desorientação.

No encerramento, ele volta ao tema da lucidez como condição para qualquer resistência real. Para Bolsen, a esperança baseada em fantasia é uma forma de crueldade, porque impede o enfrentamento concreto do problema. O que resta, sustenta, é reconhecer o funcionamento histórico da máquina imperial e começar a construir alternativas fora dela — não como utopia, mas como necessidade de sobrevivência social e moral.

O vídeo termina com uma frase que resume a mensagem central: o que muitos chamam de “fim do mundo” dentro dos Estados Unidos seria, para o restante do planeta, o fim de uma ordem baseada em violência global — e a chance de reconstrução a partir dos escombros de um modelo que, segundo ele, nunca foi democrático nem virtuoso, apenas eficaz em ocultar sua própria brutalidade por tempo suficiente.

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