Ataques dos EUA à Venezuela expõem falhas graves da governança global, diz editorial do Global Times
A operação militar dos EUA é um episódio extremo de violação da soberania de um Estado Nacional, diz o jornal
247 - Uma série de ataques militares dos Estados Unidos contra a Venezuela, culminando em explosões em Caracas e em um incêndio no complexo militar de Fuerte Tiuna, acendeu um alerta global sobre os rumos da governança internacional. A ofensiva resultou no sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro e de sua esposa, provocando choque imediato na comunidade internacional.
A análise foi publicada pelo jornal chinês Global Times, em editorial que classifica a operação como um episódio extremo de violação da soberania de um Estado. O texto destaca que lançar uma ação militar contra um país soberano sob o argumento de “aplicação da lei” e deter à força um chefe de Estado ultrapassa limites históricos e jurídicos, estabelecendo um precedente alarmante para o sistema internacional.
O editorial destaca que a reação internacional foi imediata. O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, manifestou profunda preocupação e advertiu que a ação cria “um precedente perigoso”. No mesmo sentido, o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, afirmou que esse tipo de iniciativa representa “o primeiro passo rumo a um mundo de violência, caos e instabilidade”. Em poucas horas, diversos países condenaram o que foi descrito como comportamento hegemônico de Washington, enquanto até aliados tradicionais dos EUA evitaram apoiar a operação, reforçando a necessidade de respeito ao direito internacional.
Segundo o editorial, embora autoridades norte-americanas tenham demonstrado satisfação com o desenrolar da ofensiva, o impacto observado pelo restante do mundo é de destruição significativa e danos profundos à ordem internacional. O texto sustenta que os EUA colocaram acusações federais internas acima das normas do direito internacional, substituindo canais diplomáticos pelo uso direto da força militar, o que equivale a priorizar a lógica de que “a força faz o direito” em detrimento da Carta da ONU.
O Global Times lembra que, diante do agravamento das tensões, o Conselho de Segurança da ONU chegou a convocar reuniões de emergência para discutir a situação no Caribe. Ainda assim, os apelos de diversos países para que os EUA respeitassem o direito internacional foram ignorados, evidenciando a sobreposição da hegemonia norte-americana ao multilateralismo.
Outro ponto central do editorial é o impacto regional. A América Latina e o Caribe, historicamente distantes dos principais conflitos armados globais, são descritos como uma das regiões mais pacíficas do planeta. Em 2014, os 33 países da região, reunidos na Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC), declararam o território como “zona de paz”. A escalada militar dos EUA, porém, é apontada como um fator que ameaça romper esse consenso histórico.
O presidente do Chile, Gabriel Boric, sintetizou esse temor ao afirmar: “Amanhã, pode ser qualquer um”. Para o editorial, se uma grande potência pode ignorar procedimentos internacionais e recorrer à força militar contra outro país sob o pretexto de “combater o crime”, nenhum Estado pode se considerar plenamente seguro.
Nesse contexto, o jornal sustenta que os ataques à Venezuela vão além de uma crise regional e evidenciam deficiências estruturais na governança global. O texto associa o episódio a um desequilíbrio persistente no sistema internacional, no qual países em desenvolvimento possuem representação limitada e pouca capacidade de defesa institucional, enquanto potências hegemônicas conseguem contornar regras sem enfrentar custos efetivos.
O sequestro de Nicolás Maduro, segundo essa análise, só seria possível porque os mecanismos atuais de governança global carecem de instrumentos capazes de impor restrições reais a comportamentos hegemônicos. O editorial recorda que a história demonstra que conquistas militares e pilhagem de recursos não geram estabilidade, mas sim novos ciclos de conflito. Nesse sentido, cita um professor ouvido pelo jornal britânico The Guardian, para quem é “muito raro” que intervenções dos EUA na região resultem em “paz, tranquilidade, estabilidade e democracia”.
O texto também critica o papel dos Estados Unidos no sistema internacional. Como membro fundador da ONU, integrante permanente do Conselho de Segurança e país-sede da organização, Washington deveria, segundo o editorial, defender a ordem internacional. No entanto, o jornal afirma que o país tem liderado sua subversão, violando normas das relações internacionais e enfraquecendo os pilares da governança global.
O Global Times observa que a reação internacional demonstra um movimento contrário à imposição unilateral de poder. A tentativa dos EUA de reafirmar sua autoridade no Hemisfério Ocidental por meio de ações contra a Venezuela foi rejeitada pela maioria dos países, sinalizando uma tendência irreversível em direção ao multilateralismo e a um consenso mais amplo em favor da equidade e da justiça.
O editorial encerra destacando a Iniciativa de Governança Global proposta pela China no ano passador, baseada em cinco princípios: igualdade soberana, Estado de Direito internacional, multilateralismo, abordagem centrada nas pessoas e resultados concretos. Para o jornal, a crise venezuelana evidencia a urgência desses princípios e reforça a ideia de que a humanidade compartilha um futuro comum, no qual o hegemonismo se apresenta como um desafio coletivo a ser enfrentado por meio da cooperação internacional e do fortalecimento do direito internacional.




