Após agressão militar à Venezuela, EUA ampliam discurso de força e tensionam relações globais
Declarações de Donald Trump reforçam estratégia americana de considerar o uso militar como opção legítima na política externa
247 - O ataque militar à Venezuela e o sequestro do presidente Nicolás Maduro pelos Estados Unidos, desencadearam uma sequência de reações diplomáticas e declarações que ampliaram a percepção de uma mudança profunda na política externa de Washington. Em poucas horas, sinais vindos da Casa Branca indicaram que a ofensiva não se restringiria ao território venezuelano, alimentando tensões com países da América Latina e até com aliados históricos da Europa.
Segundo reportagem do jornal O Globo, um episódio envolvendo a Groenlândia gerou um incidente internacional. Katie Miller, esposa do vice-chefe de Gabinete da Casa Branca, Stephen Miller, divulgou em redes sociais a imagem de um mapa da ilha ártica coberto pela bandeira dos Estados Unidos, acompanhado da expressão “em breve”. A publicação provocou reações imediatas da Groenlândia e da Dinamarca, país ao qual o território autônomo está vinculado.
O primeiro-ministro da Groenlândia, Jens-Frederik Nielsen, classificou a imagem como “desrespeitosa” em uma manifestação no Facebook. Segundo ele, as relações entre os povos devem se basear “no respeito e no direito internacional”, e não em “símbolos que ignoram nossos status e direitos”. Já o embaixador da Dinamarca em Washington, Jesper Moller Sorensen, pediu respeito à integridade territorial e defendeu a manutenção de relações amistosas entre os dois países.
O episódio ocorreu poucas horas depois da ação militar contra Caracas e foi interpretado como mais um sinal de que a Venezuela não seria o único alvo de possíveis intervenções. Em declarações públicas entre sábado e domingo, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, mencionou de forma hostil países como Colômbia, Cuba e México, reforçando a mensagem de que o uso da força é considerado legítimo por seu governo.
Durante coletiva de imprensa em que detalhou o sequestro de Maduro, Trump comentou sobre Cuba ao responder a uma pergunta de um repórter que se identificou como cubano. Ele afirmou que o país caribenho deve entrar em breve na pauta de Washington e falou em “ajudar o povo de Cuba”. O secretário de Estado e conselheiro de Segurança Nacional, Marco Rubio, adotou um tom ainda mais direto ao comentar o assunto. “Quando o presidente [Trump] fala, é preciso levá-lo a sério. Se eu morasse em Havana e estivesse no governo, eu estaria pelo menos preocupado”, disse, ao criticar a cooperação entre os governos cubano e venezuelano.
Cuba foi um dos primeiros governos a condenar a operação militar contra a Venezuela. A Colômbia também reagiu rapidamente, tornando-se alvo de pressões após embates públicos entre Trump e o presidente colombiano, Gustavo Petro. O presidente americano acusou Petro de conivência com o tráfico internacional de drogas, um dos argumentos citados pelo Pentágono para justificar o cerco à Venezuela. “Ele está produzindo cocaína e enviando para os EUA, então sim, ele precisa ficar de olho no próprio traseiro”, afirmou Trump ao ser questionado sobre a reação colombiana à captura de Maduro.
O México também entrou no radar das declarações do presidente dos Estados Unidos. Antes mesmo de um pronunciamento oficial, Trump sugeriu que “algo poderia acontecer” com o país vizinho, que havia condenado a violação da soberania venezuelana. Em entrevista à Fox News, ele mencionou a presidente Claudia Sheinbaum e as dificuldades do governo mexicano no combate ao narcotráfico. “Ela tem muito medo dos cartéis”, afirmou. Trump acrescentou que já havia perguntado diversas vezes se o México gostaria que os Estados Unidos “se livrassem dos cartéis”. “Então nós temos que fazer alguma coisa”, completou. Posteriormente, o presidente disse considerar Sheinbaum uma “amiga” e afirmou não ter tido a intenção de ameaçar uma invasão.
Apesar do recuo retórico, o clima permanece marcado pela desconfiança. Em novembro, fontes americanas afirmaram que o Exército dos Estados Unidos havia iniciado treinamentos para uma eventual operação terrestre em território mexicano com foco no combate aos cartéis. A presidenta mexicana, por sua vez, rejeitou reiteradamente qualquer cooperação militar direta, descartando a presença de soldados estrangeiros no país.
As ameaças de intervenção não se limitaram à América Latina. Trump também mencionou países como Panamá e Nigéria, que acabaram cedendo a exigências americanas. O Panamá abandonou a iniciativa “Cinturão e Rota”, em um gesto de alinhamento à estratégia de contenção da influência chinesa, enquanto a Nigéria autorizou bombardeios contra o Estado Islâmico em seu território. Ainda assim, a ação contra Maduro foi vista como uma escalada decisiva no uso direto da força.
O secretário de Defesa, Pete Hegseth, reforçou essa leitura ao discursar em Mar-a-Lago. “Como disse o presidente, nossos adversários permanecem em alerta. Os EUA podem impor sua vontade em qualquer lugar, a qualquer momento”, afirmou. “Trata-se da segurança, da liberdade e da prosperidade do povo americano. Isso é ‘América primeiro’. Isto é a paz através da força.”
No caso específico da Groenlândia, não houve manifestações relacionadas à Venezuela. O interesse americano no território, rico em minerais e estrategicamente localizado entre a Europa e a Rússia, já havia sido mencionado por Trump antes mesmo do início de seu segundo mandato. Trump chegou a sugerir a possibilidade de anexação ou compra da ilha, propostas rejeitadas tanto pelas lideranças locais quanto por Copenhague. Em entrevista telefônica à revista The Atlantic, Trump declarou que a decisão caberia a outros. “Terão que avaliar eles mesmos. Realmente não sei”, disse. “Mas precisamos da Groenlândia, com certeza. Precisamos dela para defesa.”
Após essas declarações, a primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, reagiu de forma contundente. Em comunicado, pediu que os Estados Unidos “cessem suas ameaças contra um aliado histórico”. “Devo dizer muito claramente aos EUA: é totalmente absurdo dizer que os EUA deveriam assumir o controle da Groenlândia”, afirmou.



