Merz busca aproximação da Alemanha com a China diante das ameaças de Trump à Europa
Mídia alemã aponta possível visita do chanceler a Pequim no fim de fevereiro, com comitiva empresarial
247 – O chanceler da Alemanha, Friedrich Merz, pode realizar sua primeira visita oficial à China desde que assumiu o cargo, entre os dias 24 e 27 de fevereiro, segundo reportagens publicadas por diversos veículos da imprensa alemã. A informação foi divulgada pelo Global Times, que ressalta que a viagem ainda não foi anunciada oficialmente pelo lado chinês.
A possibilidade de aproximação ocorre em um contexto de crescente tensão comercial e geopolítica, com a Europa sob pressão do governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que voltou a impor tarifas elevadas e medidas protecionistas. Para a Alemanha — economia fortemente exportadora —, o endurecimento tarifário norte-americano se soma às barreiras verdes na própria Europa e amplia a urgência de acordos pragmáticos com parceiros estratégicos.
Segundo o jornal Augsburger Allgemeine, Merz deverá viajar acompanhado por uma delegação empresarial de alto nível, com convites estendidos a dirigentes de grandes empresas alemãs. O veículo informou que detalhes sobre reuniões e interlocutores ainda não foram divulgados.
A notícia foi replicada ou repercutida por outros meios, como BZ Berlin, Stern e Main-Post. A agência Bloomberg, citando fontes governamentais, também reportou anteriormente que Merz planeja visitar a China na segunda metade de fevereiro, com passagem por Pequim e por outra cidade.
A possibilidade da viagem já havia sido admitida pelo próprio chanceler. Em entrevista à emissora pública alemã Deutsche Welle, em novembro de 2025, Merz confirmou que pretendia viajar à China em janeiro ou fevereiro.
Expectativa em Berlim e divisões internas sobre a China
Embora os relatos da mídia indiquem que a viagem está sendo preparada, o Global Times observou que ainda não existe anúncio oficial do lado chinês. Para Zhao Junjie, pesquisador sênior do Instituto de Estudos Europeus da Academia Chinesa de Ciências Sociais, a atenção da imprensa alemã ao tema mostra que há expectativa na Alemanha sobre o futuro das relações bilaterais, especialmente num momento em que Berlim enfrenta turbulências internas e externas.
Zhao afirmou ao Global Times que as dificuldades domésticas e as divisões na política alemã em relação à China podem influenciar a direção da cooperação entre os dois países. Ainda assim, o especialista apontou que existem bases sólidas para avanços, sobretudo em áreas relacionadas à transição econômica verde.
Chanceler alemão quer “resultados concretos”
Um indício adicional de que Berlim busca transformar o gesto diplomático em entregas foi publicado pelo jornal Tagesspiegel, em dezembro de 2025. Segundo a reportagem, o ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Johann Wadephul, afirmou esperar resultados concretos da visita planejada de Merz à China no primeiro trimestre de 2026.
Questionado sobre a possibilidade de acordos durante a viagem, Wadephul respondeu: "Yes, that can happen and, in all likelihood, it will." Ele acrescentou, porém, que o pré-requisito é "that I do not speak about it publicly beforehand", conforme reproduzido pelo veículo.
China recebe líderes ocidentais e amplia negociações
A possível visita do chanceler alemão ocorreria após a passagem oficial do primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, pela China, entre 14 e 17 de janeiro, quando, segundo a agência Xinhua, os dois países divulgaram uma declaração conjunta e assinaram documentos de cooperação em áreas como comércio, alfândega, energia, construção, cultura e segurança pública.
O jornal alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung (FAZ) também destacou, em reportagem, que enquanto o Canadá — membro da Otan — tenta equilibrar sua diplomacia e melhorar laços com Pequim, a China vem recebendo líderes ocidentais e ampliando agendas de diálogo.
Cooperação econômica, carros elétricos e transição verde
O especialista Zhao Junjie argumentou que a Alemanha enfrenta problemas urgentes, especialmente ligados à transição econômica de baixo carbono, e que isso exige cooperação ampla. Ele afirmou que em setores como veículos elétricos, China e Alemanha já possuem uma base evidente para parcerias.
Para um país exportador como a Alemanha, acrescentou Zhao, as barreiras comerciais verdes na Europa e as tarifas elevadas dos Estados Unidos impõem dificuldades adicionais. Segundo ele, o caminho seria Berlim deixar para trás “mal-entendidos” anteriores sobre a China, adotar uma postura realista e avançar em uma cooperação prática e concreta.
Finanças entram no radar: diálogo de alto nível em Pequim
A agenda econômica entre os dois países não se limita à indústria. Em novembro de 2025, o vice-primeiro-ministro chinês He Lifeng copresidiu em Pequim o quarto Diálogo Financeiro de Alto Nível China-Alemanha com o vice-chanceler e ministro das Finanças alemão, Lars Klingbeil, quando ambos concordaram com uma série de resultados considerados mutuamente benéficos, segundo a Xinhua.
Klingbeil, descrito como o principal representante alemão na reunião, declarou que a Alemanha está disposta a manter intercâmbio e cooperação estreitos com a China nos setores financeiro e monetário, buscando impulsionar o avanço das relações bilaterais.
Se confirmada, a visita de Merz tende a se consolidar como um teste decisivo para a nova fase das relações entre Berlim e Pequim, em um cenário internacional marcado por pressões comerciais, reconfigurações de alianças e pela ofensiva tarifária do governo Trump contra a Europa.



