Nova bateria de lítio chinesa resiste a -34°C e amplia autonomia de drones e robôs em frio extremo
Tecnologia com gestão de energia por IA mantém mais de 85% da capacidade após 8 horas no gelo e pode atender operações em regiões congelantes
247 – Pesquisadores chineses desenvolveram uma bateria de lítio de ultrabaixa temperatura capaz de operar em frio intenso, com uso “plug-and-play”, e de sustentar o funcionamento de drones e robôs em condições de alta altitude e ambientes congelantes. Segundo reportagem do Global Times, com base em informações do Science and Technology Daily, o avanço foi validado em testes de campo realizados em Mohe, no extremo norte da Província de Heilongjiang, no Nordeste da China, área conhecida por registrar temperaturas severas no inverno.
O experimento foi conduzido por uma equipe liderada pelo acadêmico Chen Zhongwei, do Instituto de Física Química de Dalian, vinculado à Academia Chinesa de Ciências (CAS). O objetivo foi enfrentar um gargalo histórico: a perda abrupta de desempenho de baterias de lítio convencionais quando expostas ao frio, problema que limita missões de longa duração e compromete equipamentos usados em serviços críticos em regiões geladas.
Teste real no gelo e desempenho acima do padrão
A equipe submeteu a bateria a um ambiente de -34°C sem recorrer a medidas externas de aquecimento ou isolamento térmico. Mesmo assim, após permanecer por mais de oito horas nessas condições, o sistema manteve mais de 85% da capacidade efetiva. Na sequência, a bateria alimentou um drone industrial em voos de longa duração e em simulações de múltiplas missões, demonstrando estabilidade energética em um cenário em que modelos convencionais costumam sofrer queda acentuada de autonomia — ou até falhar completamente.
O teste em Mohe é relevante porque desloca a inovação do laboratório para o mundo real, onde vento, umidade, variações térmicas e tempo de exposição prolongado costumam amplificar problemas. Ao manter desempenho elevado após horas “parada” no frio extremo, a bateria aponta para uma aplicação prática imediata: reduzir o risco de interrupções em operações contínuas, especialmente em locais remotos.
O que muda: bateria e sistema de gestão por inteligência artificial
De acordo com Zhang Meng, pesquisador associado e líder técnico do programa de baterias de baixa temperatura, o salto tecnológico não se limita ao material eletroquímico. A equipe combinou a bateria com um sistema de gestão de energia baseado em inteligência artificial, desenhado para lidar com o que ele descreveu como um ponto sensível da indústria: a queda de atividade em baixa temperatura, a redução severa de alcance e o colapso operacional de baterias tradicionais.
Na descrição do projeto, a integração entre a bateria de ultrabaixa temperatura e a gestão por IA funciona como um “cérebro” de eficiência energética, ajustando o uso da carga para preservar autonomia e estabilidade. A promessa é tornar a operação mais previsível e segura em locais onde a energia não é apenas um detalhe técnico, mas um fator de sobrevivência de missões.
Zhang sintetizou o impacto esperado ao afirmar que o resultado pode resolver o problema de baterias "vulnerable to freezing" em áreas de frio extremo e fornecer "reliable energy" para atividades sensíveis em condições adversas.
Onde a tecnologia pode ser usada: de incêndios florestais a comunicações de emergência
A aplicação mais imediata citada envolve atividades de interesse público e infraestrutura. A equipe aponta que a bateria pode sustentar operações como prevenção de incêndios florestais, inspeção de linhas de transmissão e comunicações emergenciais em ambientes de alta altitude e frio intenso — na China e em outros países que enfrentam desafios semelhantes.
Em regiões montanhosas e áreas polares ou subpolares, drones e robôs são cada vez mais usados para reduzir riscos humanos e acelerar respostas. O problema é que o frio corta autonomia, encurta o tempo de voo e limita o alcance dos sensores e dos sistemas de navegação alimentados pela bateria. Uma tecnologia que mantenha desempenho elevado em temperaturas negativas profundas pode mudar o patamar de confiabilidade dessas missões.
Além disso, operações logísticas em “última milha” com drones — ainda que dependentes de regulação e infraestrutura — tendem a exigir previsibilidade energética. Se a bateria sustenta longas jornadas em frio extremo sem isolamento térmico, abre-se espaço para novas rotas, novas janelas de operação e menor taxa de falhas em épocas do ano antes consideradas impeditivas.
Implicações estratégicas e disputa tecnológica
O Global Times também ressalta uma dimensão estratégica: a difusão da tecnologia poderia fortalecer a “independência energética” chinesa e elevar a confiabilidade de equipamentos científicos e tecnológicos em ambientes extremos. Em outras palavras, a inovação não é apenas um componente; é uma peça de infraestrutura tecnológica que amplia a capacidade operacional em territórios onde energia, mobilidade e conectividade são limitadas.
Há um aspecto geopolítico e industrial embutido nessa corrida. Baterias são hoje um setor decisivo para a competitividade em veículos elétricos, armazenamento de energia e robótica. Ao apresentar uma solução “de campo” para o frio extremo, a China tenta ocupar um nicho de alta complexidade, com potenciais efeitos em cadeias industriais, exportações e padronização tecnológica.
O texto aponta ainda que a tecnologia pode oferecer “soluções chinesas” a regiões do mundo com problemas semelhantes — uma formulação que, na prática, sugere a ambição de transformar um avanço específico em plataforma exportável, com aplicações civis e industriais.
Próximos passos: eletrônicos 3C, robótica e operações ao ar livre no inverno
Para além de drones industriais, os pesquisadores projetam um uso amplo em produtos eletrônicos de consumo (o segmento “3C”, que inclui computadores, comunicação e eletrônicos de consumo), além de ampliar a capacidade de robôs especiais, drones de inspeção e equipamentos externos que atuam em campo.
A promessa central é permitir que máquinas operem “sem restrições” em temporadas frias e em regiões geladas, reduzindo dependência de isolamento térmico e de estratégias improvisadas de aquecimento. Se a performance relatada em Mohe se mantiver em escala industrial, a tecnologia pode alterar padrões de projeto para equipamentos que hoje precisam “compensar” o frio com peso extra, sistemas térmicos adicionais e maior custo operacional.
Zhang defendeu que a inovação pode elevar a confiabilidade de operações em ambientes extremos e reforçar a segurança energética de equipamentos de ponta, com impactos tanto em atividades econômicas quanto em ações de proteção civil. Ao atacar diretamente o ponto fraco do lítio em baixas temperaturas, a bateria de ultrabaixa temperatura entra no radar como uma das respostas mais pragmáticas ao desafio de manter máquinas ativas onde o frio costuma vencer a tecnologia.



