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O mundo não precisa de novo Acordo de Plaza, diz Global Times

Editorial chinês critica pressão europeia sobre o yuan, rejeita protecionismo e defende cooperação entre China e União Europeia

China e União Europeia (Foto: Brasil 247 / Dall-E)
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247 – O jornal chinês Global Times criticou, em editorial, a tentativa de setores políticos europeus de ressuscitar a lógica do chamado Acordo de Plaza para pressionar a China em torno da taxa de câmbio do renminbi, também conhecido como yuan. Segundo o texto, a proposta não representa uma solução econômica real, mas uma forma de pressão política sobre Pequim em meio ao avanço da competitividade industrial chinesa.

A reação do Global Times ocorre após declarações do chanceler alemão Friedrich Merz, feitas depois de uma recente cúpula da União Europeia. Merz afirmou que o renminbi estaria desvalorizado em até 30% e citou o Acordo de Plaza de 1985 — que levou a uma forte valorização do iene e é associado às chamadas “décadas perdidas” do Japão — como referência para lidar com o atual desequilíbrio comercial.

O editorial sustenta que a tentativa de responsabilizar a China pelos problemas da indústria europeia ignora fatores estruturais internos do próprio bloco. Entre eles estão os altos preços da energia, a insuficiência de investimentos em inovação, a lentidão das políticas industriais, os efeitos da crise na Ucrânia e o impacto dos subsídios industriais dos Estados Unidos, que atraem investimentos e enfraquecem a base manufatureira europeia.

Pressão cambial não resolve crise industrial

Para o Global Times, atribuir a competitividade chinesa a uma suposta manipulação cambial é uma leitura equivocada. O jornal afirma que o avanço das empresas chinesas decorre de um sistema industrial abrangente, investimentos contínuos em tecnologia, um mercado interno de grande escala e intensa competição empresarial.

Segundo o editorial, mirar o renminbi não resolverá os desafios enfrentados pela indústria alemã nem corrigirá as fragilidades da cadeia de inovação europeia. A pressão sobre a moeda chinesa, argumenta o texto, apenas desloca o foco dos problemas reais: a necessidade de modernização produtiva, abertura de mercados e reformas institucionais no continente europeu.

A publicação afirma que repetir a lógica do Acordo de Plaza seria, na essência, uma tentativa de transferir para a China a responsabilidade por desequilíbrios que têm raízes domésticas e estruturais. “O chamado para repetir o ‘Acordo de Plaza’ é, em essência, não uma solução econômica, mas uma forma de pressão política”, diz o editorial.

A lição do Japão e o fracasso do Acordo de Plaza

O Acordo de Plaza foi firmado em 1985 entre os Estados Unidos e grandes parceiros comerciais, com o objetivo de desvalorizar o dólar frente a outras moedas, especialmente o iene japonês. O resultado foi uma valorização expressiva da moeda japonesa, seguida de turbulências econômicas profundas no Japão.

O Global Times lembra que, apesar da forte valorização do iene, o acordo não resolveu o déficit comercial dos Estados Unidos. De acordo com o editorial, o déficit comercial norte-americano em bens com o Japão era de cerca de US$ 46 bilhões em 1985 e, em vez de cair, aumentou para mais de US$ 55 bilhões tanto em 1986 quanto em 1987.

Para o jornal, o problema central dos desequilíbrios comerciais dos Estados Unidos estava em fatores internos, como “alto consumo e baixa poupança”. Além disso, por ser o dólar uma moeda internacional, os Estados Unidos precisam importar bens e expandir investimentos externos para exportar dólares ao mundo, fenômeno conhecido como “Dilema de Triffin”. Esse tipo de desequilíbrio, argumenta o editorial, não pode ser resolvido apenas por política cambial.

Relações comerciais entre China e Europa são de benefício mútuo

O editorial também rejeita a visão de que as relações econômicas entre China e União Europeia devam ser tratadas como ameaça sistêmica. Para o Global Times, o comércio bilateral não deve ser refém de números de déficit comercial nem subordinado a uma lógica protecionista.

Segundo o jornal, a essência das relações econômicas entre China e Europa é de benefício mútuo. Em 2025, o comércio entre China e Alemanha superou 250 bilhões de euros, o equivalente a US$ 287 bilhões. Cerca de 5,2 mil empresas alemãs atuam na China, que segue como mercado essencial para setores como automóveis, engenharia mecânica e indústria elétrica.

O texto cita ainda uma pesquisa recente da Câmara de Comércio Alemã na China, segundo a qual aproximadamente 61% das empresas alemãs consultadas pretendem ampliar seus investimentos no país nos próximos dois anos. Para o editorial, esses dados mostram que a economia chinesa continua sendo central para a estratégia global da indústria alemã.

Protecionismo pode prejudicar empresas e consumidores europeus

O Global Times afirma que a Europa importa da China um grande volume de produtos de qualidade e baixo custo, o que reduz preços para consumidores, estabiliza cadeias de suprimento corporativas e apoia a transição verde e digital do continente.

O editorial argumenta que uma avaliação baseada apenas no déficit comercial ignora elementos fundamentais, como os lucros das empresas europeias na China, o comércio de bens intermediários, os serviços, os retornos sobre investimentos e a divisão de trabalho nas cadeias globais de valor.

Segundo o texto, transformar a ideia de “redução de riscos” em “redução de dependência” e, em seguida, em construção de barreiras comerciais acabará prejudicando a eficiência das empresas europeias, o bem-estar dos consumidores e a estabilidade das cadeias industriais e de suprimentos.

China rejeita uso do câmbio como pretexto para pressão

O editorial afirma que a China não aceitará o uso da taxa de câmbio como pretexto para pressão externa. Também sustenta que o país não retornará a uma era em que grandes potências coordenavam o destino de outras economias a partir de acordos fechados entre poucos atores.

“China will not accept using exchange rates as a pretext for oppression”, afirma o texto original, em uma das passagens centrais do editorial. Em português: “A China não aceitará o uso das taxas de câmbio como pretexto para opressão”.

O Global Times argumenta que a China de hoje não é o Japão dos anos 1980. A escala da economia chinesa, a profundidade de seu mercado, a integridade de seu sistema industrial e sua autonomia de política econômica são, segundo o jornal, de outra dimensão.

Além de contar com um mercado interno de mais de 1,4 bilhão de pessoas, a China tornou-se grande parceira comercial de mais de 160 países e regiões. O editorial afirma ainda que o mecanismo de formação da taxa de câmbio do renminbi segue uma lógica própria e que Pequim nunca buscou desenvolver suas relações com a Europa por meio da geração artificial de superávits.

Competição chinesa desafia antiga posição europeia

O texto também aborda a mudança na posição relativa da Europa dentro da economia mundial. Segundo o Global Times, o continente ocupou durante muito tempo uma posição de alto valor agregado nas cadeias globais, acostumado a tratar tecnologia, marcas e regras como vantagens naturais.

Agora, afirma o editorial, a China acelera seu processo de recuperação e já lidera parcialmente áreas como veículos elétricos, baterias, maquinário e produtos verdes. Para o jornal, interpretar essa transformação como ameaça é uma forma de evitar o debate sobre as reformas necessárias na própria Europa.

“Rather than asking China to slow down, it is better to accelerate one's own reforms”, afirma o editorial. Em português: “Em vez de pedir que a China desacelere, é melhor acelerar as próprias reformas”.

Novo consenso deve substituir lógica de confronto

Na conclusão, o Global Times defende que o mundo não precisa de um novo Acordo de Plaza, mas de um novo consenso baseado em respeito mútuo, reformas internas e desenvolvimento conjunto.

O editorial afirma que China e Europa não são “rivais sistêmicos” nem adversários em um jogo de soma zero. Para o jornal, ainda há amplo espaço de cooperação nas relações sino-europeias, desde que o lado europeu mantenha uma postura racional e pragmática, observe o desenvolvimento chinês de forma igualitária e trate as diferenças competitivas por meios abertos.

A mensagem central do texto é que a tentativa de converter disputas comerciais em confronto institucional tende a reduzir o espaço de cooperação e ampliar equívocos estratégicos. Para o Global Times, a resposta europeia ao avanço chinês não deve ser a construção de barreiras, mas a busca de maior resiliência por meio da cooperação aberta e da modernização interna.

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