Hipólito José da Costa e o nascimento da imprensa brasileira: há 218 anos surgia o Correio Braziliense
Publicado em Londres para escapar da censura portuguesa, jornal fundado em 1808 é considerado o marco inicial da imprensa no Brasil
247 – Em 1º de junho de 1808, enquanto a corte portuguesa recém-instalada no Rio de Janeiro reorganizava o poder colonial após fugir das invasões napoleônicas na Europa, um acontecimento decisivo para a história brasileira ocorria do outro lado do Atlântico. Na capital britânica, Londres, começava a circular o Correio Braziliense ou Armazém Literário, publicação editada por Hipólito José da Costa e considerada o marco fundador da imprensa brasileira.
A data passou a ser celebrada como o Dia da Imprensa no Brasil por representar o nascimento do jornalismo voltado ao público brasileiro. O fato de o periódico ter sido publicado fora do território nacional revela uma das principais contradições da época: enquanto a família real portuguesa se instalava no Brasil e promovia algumas reformas administrativas, mantinha rígidos mecanismos de censura que impediam a livre circulação de ideias.
Uma imprensa nascida no exílio
Hipólito José da Costa, nascido na Colônia do Sacramento, atual Uruguai, então território português, era um intelectual influenciado pelos ideais iluministas e pelas transformações políticas que sacudiam a Europa e as Américas. Após sofrer perseguições da Inquisição portuguesa, estabeleceu-se na Inglaterra, onde encontrou um ambiente mais favorável à liberdade de expressão.
Foi dali que passou a publicar mensalmente o Correio Braziliense, dirigido principalmente às elites políticas e intelectuais da colônia portuguesa na América. Embora editado em Londres, o jornal era amplamente lido no Brasil e circulava clandestinamente entre comerciantes, funcionários públicos, militares e membros da aristocracia.
A publicação abordava temas políticos, econômicos e culturais, analisando os acontecimentos internacionais e seus reflexos sobre Portugal e o Brasil. Seu conteúdo frequentemente criticava decisões da monarquia portuguesa, defendia reformas administrativas e estimulava debates sobre o futuro político da colônia.
A disputa com a Gazeta do Rio de Janeiro
Curiosamente, o mesmo ano de 1808 testemunhou o surgimento de outro jornal: a Gazeta do Rio de Janeiro, criada pela Imprensa Régia, instalada após a chegada da corte portuguesa ao Brasil.
Enquanto o Correio Braziliense mantinha uma linha editorial crítica e analítica, a Gazeta atuava essencialmente como veículo oficial do governo, publicando decretos, atos administrativos e notícias favoráveis à monarquia.
A diferença entre os dois periódicos tornou-se emblemática para a história da comunicação brasileira. Muitos historiadores consideram que a Gazeta foi o primeiro jornal impresso em solo brasileiro, mas reconhecem no Correio Braziliense o verdadeiro precursor do jornalismo nacional devido à sua independência editorial e à função crítica desempenhada perante o poder.
O combate à censura
O surgimento do Correio Braziliense simbolizou uma luta que atravessaria toda a história brasileira: a defesa da liberdade de imprensa diante dos mecanismos de censura estatal.
Durante grande parte do período colonial, Portugal proibiu a instalação de tipografias na América portuguesa. A circulação de livros e jornais era rigidamente controlada, e qualquer publicação considerada inconveniente pelas autoridades podia ser apreendida.
Nesse contexto, o jornal de Hipólito José da Costa tornou-se uma importante ferramenta de circulação de ideias políticas e econômicas modernas. Seus textos ajudaram a formar uma consciência crítica entre setores da elite brasileira e contribuíram para debates que, anos depois, desembocariam no processo de Independência.
Um legado que atravessa séculos
Mais de dois séculos após sua fundação, o Correio Braziliense continua sendo referência histórica para a imprensa brasileira. Seu legado está associado à defesa do pensamento crítico, da circulação de informações e da fiscalização dos poderes constituídos.
O Dia da Imprensa, celebrado em 1º de junho, recorda justamente esse papel desempenhado pelo jornalismo na construção da democracia, na formação da opinião pública e na ampliação dos espaços de debate político.
Num momento em que a circulação de informações ocorre em escala global e em velocidade instantânea, a experiência pioneira de Hipólito José da Costa permanece atual ao lembrar que o compromisso fundamental do jornalismo continua sendo a busca da verdade, a defesa da liberdade de expressão e o direito da sociedade à informação.



