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Expansão militar dos EUA na América Latina

O reforço da presença militar dos EUA marca uma nova fase de ingerência política encoberta na luta transnacional contra o crime organizado

Militares dos EUA na América Latina (Foto: Reuters)
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Por Giorgio Trucchi - Segundo o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (SIPRI), os gastos militares globais no ano passado atingiram uma cifra recorde de 2,88 trilhões de dólares, com um aumento de 2,9% e um impacto de 2,5% no PIB mundial. Os Estados Unidos continuam sendo o país com o maior orçamento militar (954 bilhões de dólares), seguidos pela China e Rússia. Juntos, eles representam 51% dos gastos militares mundiais, que cresceram 9%, em 2024. Enquanto isso, o Índice S&P Aerospace & Defense Select Industry cresceu 43% no último ano. Cinco das seis primeiras posições entre as 100 maiores empresas de armamento do mundo são ocupadas por capital estadunidense, e as 40 empresas estadunidenses que fazem parte desse ranking representam 49% das vendas globais, gerando receitas no valor de 334 bilhões de dólares.

Em um contexto de grande expansão dos gastos e lucros militares ligados à produção e venda de armas, os Estados Unidos intensificaram seus esforços para retomar o controle do que continuam a considerar seu "quintal", com uma reedição trumpiana 2.0 da Doutrina Monroe, já renomeada Donroe. Iniciativas como o Escudo das Américas, a militarização do Caribe, o endurecimento do bloqueio e as ameaças de invasão contra Cuba, a incursão na Venezuela e o sequestro do presidente Nicolás Maduro e da primeira combatente Cilia Flores, assim como as ameaças e represálias contra aqueles governos que reivindicam o direito dos povos à autodeterminação e à defesa da soberania, eles são um exemplo da estratégia implementada por Washington, com o apoio de Israel e do ultraconservadorismo estadunidense e latino-americano. As manobras para posicionar Honduras e seu ex-presidente Juan Orlando Hernández como cabeças de ponte do projeto hegemônico dos EUA também são parte integrante dessa mesma estratégia.

Deter a expansão da China (terras raras, minerais críticos, infraestruturas, tecnologias, extrativismo), garantir os interesses do capital multinacional dos EUA e de Israel, bem como o controle dos recursos estratégicos e dos corredores logísticos, enquanto desacelera os processos de integração e independência da América Latina e o surgimento de novos projetos progressistas e de resistência ao modelo neoliberal extrativista, são os principais alvos da ofensiva dos EUA. Para isso, o apoio político e a submissão de governos vassalos e oligarquias nacionais complacentes e cúmplices não são suficientes. A remilitarização do continente é necessária, sendo astutamente disfarçada como a luta contra o tráfico de drogas, o crime organizado e o terrorismo. Um projeto que sofreu uma aceleração violenta durante o segundo mandato de Donald Trump e que foi incorporado na nova Estratégia de Segurança Nacional aprovada pelos Estados Unidos no ano passado.

De acordo com o Centro Mexicano de Relações Internacionais (Cemeri), atualmente (2023) os Estados Unidos mantêm cerca de 76 bases de operações ou bases principais na América Latina e no Caribe (com instalações permanentes em extensões territoriais superiores a 4 hectares e com pelo menos 200 militares), quase-bases ou bases flutuantes (lily-pad bases - menores, de baixo perfil para operações específicas e reação rápida) e instalações de segurança ou bases financiadas (de propriedade de dos países anfitriões e que servem como centros para operações periódicas, armazenamento de equipamentos militares e treinamento). Todas sob o controle operacional e vigilância do Comando Sul (Southcom). A estas somam-se as chamadas bases operacionais não confirmadas, ou seja, instalações que nunca foram oficialmente declaradas e nem sequer aparecem nos registros oficiais do Departamento de Defesa, com a presença de militares dos EUA e para as quais nenhum acordo ou convenção foi assinado entre os Estados. Não é coincidência que sejam as mais frequentes e que escapem das contagens oficiais ao tentar traçar um mapa da presença militar dos EUA na América Latina.Honduras, Guatemala, Belize e Panamá são os países com o maior número de bases, principalmente instalações de segurança. As duas principais bases na América Latina estão localizadas em Honduras (Palmerola/Soto Cano) e Cuba (Guantánamo), enquanto há postos estratégicos espalhados pela região, sendo de especial importância as que estão localizadas em El Salvador (Comalapa), em Aruba, em Curaçao, no Panamá e no Peru. A Colômbia é o país com o maior número de bases "não confirmadas".

É uma situação que deve evoluir nos próximos anos. De fato, acordos-chave foram assinados entre o Equador, do ultraconservador Daniel Noboa, e os Estados Unidos, que permitem a presença temporária de pessoal, aeronaves e barcos, bem como a condução de operações militares e de inteligência conjuntas. Apesar da derrota no referendo do ano passado sobre a possibilidade de abrir bases militares estrangeiras em território equatoriano – a última base estadunidense (Manta) foi fechada em 2009 pelo presidente Rafael Correa – Noboa intensificou a participação do Equador em operações militares coordenadas com forças especiais das Forças Armadas dos Estados Unidos, com a DEA (Administração de Repressão às Drogas) e com o FBI (Departamento Federal de Investigação). A recente participação na operação "Extermínio Total", como parte da nova estratégia dos EUA para combater o tráfico de drogas e grupos terroristas, acentuou ainda mais as divergências com a vizinha Colômbia e com o presidente progressista Gustavo Petro. A crise entre os dois países começou meses antes, quando Noboa decidiu unilateralmente impor um aumento substancial de tarifas sobre os produtos colombianos, iniciando, assim, uma série de retaliações econômicas e comerciais recíprocas, em uma fase politicamente muito delicada e poucas semanas antes das eleições gerais na Colômbia.

A estreita colaboração entre Noboa e o Comando Sul também se intensificou no mar, com a participação do Equador na ofensiva naval contra embarcações pertencentes a supostos narcotraficantes, cuja identidade nunca foi confirmada. Ao longo de 2026, os Estados Unidos entregarão 12 lanchas rápidas. Desde setembro de 2025, ataques a embarcações acusadas de transportar drogas mataram pelo menos 186 pessoas. Até agora, os Estados Unidos não conseguiram provar o envolvimento dessas embarcações e de sua tripulação em atos criminosos. Os ataques fatais podem ser classificados como execuções sumárias.Enquanto isso, no Peru, a entrada de tropas e armas dos EUA foi autorizada ao longo de 2026, assim como milhões em financiamento para reformar a base militar de Callao. A Argentina do turbocapitalista Javier Milei também está tomando suas próprias medidas para garantir a presença militar de Washington. Após a permissão de entrada concedida no ano passado às tropas estadunidenses, sem consultar o Congresso, para participar do exercício militar conjunto "Operação Tridente", o presidente argentino respondeu este ano autorizando a entrada dos porta-aviões USS Nimitz e USS Gridley para realizar os exercícios "Daga Atlântica" e "Passex".

Enquanto isso, o Chile do ultrarreacionário pinochetista Juan Antonio Kast estabeleceu uma aliança estratégica estreita e ativa em segurança e defesa, focada na troca de informações e no treinamento de tropas. A Bolívia fez o mesmo após a virada de Rodrigo Paz para a direita, assinando um protocolo de cooperação militar com os Estados Unidos que inclui programas de treinamento e a troca de informações estratégicas e de inteligência. Por outro lado, no Paraguai, a assinatura do Acordo sobre o Estatuto das Forças (SOFA), que permite, seguindo o modelo equatoriano, a entrada de tropas, equipamentos militares e aeronaves, concedendo ao pessoal as mesmas garantias de imunidade e isenção fiscal concedidas ao pessoal diplomático, gerou forte controvérsia. Embora tenha sido poupada graças a uma decisão do Tribunal de Justiça que recusou a construção de sete bases militares dos EUA, a Colômbia mantém ainda assim uma relação próxima de cooperação militar com a presença de pessoal estadunidense nas instalações das Forças Armadas Colombianas.

Ainda mais marcante é a escalada militar na América Central e no Caribe. A assinatura, em abril passado, de um protocolo de entendimento entre os Estados Unidos e o Panamá, que permite a presença de militares e contratados dos EUA por três anos no território nacional panamenho, especialmente nas áreas limítrofes ao Canal, gerou controvérsias internas. De fato, o acordo assinado pelo Ministro da Segurança Pública do Panamá, Frank Ábrego, e pelo Secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, prevê a presença de tropas em vários locais, incluindo a base aérea "Octavio Rodríguez Garrido" (antiga base Howard), as bases navais "Vasco Núñez de Balboa" (antiga base Rodman) e "Noel Rodríguez" e a base aérea naval "Cristóbal Colón" (anteriormente Forte Sherman). Operações de treinamento de tropas estão sendo realizadas dentro das inacessíveis selvas panamenhas, recriando o ambiente e as condições de um conflito irregular e não convencional. Isso levaria à suposição de que se trata de treinamento com vista para futuros confrontos armados na região. O protocolo também menciona possíveis exercícios conjuntos e uma "cooperação" não especificada com clareza.Embora não seja uma presença permanente, a chegada de tropas às antigas bases estadunidenses abandonadas após a devolução do Canal no início do século (Acordo Torrijos-Carter), juntamente com a militarização do Caribe, as ameaças de Trump contra o presidente Gustavo Petro e as declarações do magnata e de Hegseth sobre a necessidade dos Estados Unidos de "recuperar o Canal", retirá-lo da "influência maligna chinesa" e de "ocupar com nossas tropas as áreas que já não controlávamos" despertou fortes temores na população panamenha. Na verdade, a memória da sangrenta invasão de 1989 e das mortes de milhares de pessoas (fonte CODEHUCA). [Nota da Revisão: CODEHUCA - Comissão para a Defesa dos Direitos Humanos na América Central. Atuava regionalmente a partir de sua sede em San José, Costa Rica, publicava relatórios históricos críticos e testemunhos sobre a situação dos direitos humanos e sobre as vítimas civis da invasão americana do Panamá em 1989], em sua maioria civis, é passada de geração em geração e alimenta um sentimento natural de desconfiança e hostilidade em relação aos governos dos EUA.

Em troca dos "serviços prestados", os Estados Unidos também receberão tratamento preferencial no pagamento de pedágios para seus navios de guerra que passarem pelo Canal.

Segundo vários juristas, essa decisão violaria flagrantemente o Tratado de Neutralidade assinado entre as duas nações. Para o jurista Julio Linares, o memorando de entendimento apresenta pelo menos dois aspectos da inconstitucionalidade. "Trata-se de dois ‘vícios’ de nulidade, que são a fraude por meio do engano e a coerção por meio das ameaças (de Trump). Convido os cidadãos a apresentarem os recursos correspondentes para que este acordo seja declarado nulo e sem efeito". A ativista ambiental Camila Aybar lembra que o Panamá recuperou sua soberania há pouco mais de 25 anos e que o que os Estados Unidos estão fazendo é muito perigoso. "É óbvio que queremos manter um bom relacionamento com eles, mas isso não pode ser às custas da nossa soberania e da segurança democrática, e nem da nossa liberdade".Em El Salvador e na Guatemala, a presença militar dos EUA também cresceu nos últimos anos. A estratégia não é mais criar bases permanentes, mas usar as instalações já existentes para fins militares. O presidente Nayib Bukele, aliado firme de Trump, assinou acordos que permitem o uso do aeroporto de Comalapa por 10 anos.

Durante sua administração, o envio de armas para o exército e para as forças especiais se intensificou, e a presença e a decolagem de aeronaves de ataque e reconhecimento dos EUA se multiplicaram. Em abril passado, o território salvadorenho foi palco das manobras militares multinacionais do CENTAM Guardian, com a presença de pelo menos mil militares de sete países da América Central e do Caribe. A mesma lógica de usar instalações de propriedade nacional, treinamento, envio de armamento, manobras conjuntas e missões de "apoio tático" pode ser encontrada na Guatemala e em Belize.

Por outro lado, o caso de Honduras é particular, onde a recente publicação e disseminação de 37 áudios envolvendo políticos e funcionários públicos revelou um plano estratégico do presidente Trump, em aliança com os lobbies israelenses, os governos de Netanyahu e Milei e com o ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández como cabeça de ponte para retomar o controle da região. Um dos instrumentos será precisamente a construção de uma nova base militar dos EUA na ilha caribenha de Roatán, que se somaria à base de Palmerola/Soto Cano e a uma série de instalações de reação rápida espalhadas por todo o território hondurenho.

Entre 2025 e 2026, no contexto da escalada militar dos EUA no Caribe e do cerco à Venezuela e à Cuba, Porto Rico e a República Dominicana também passaram por um processo de forte remilitarização. As antigas bases militares porto-riquenhas foram reativadas, o uso temporário de bases aéreas e do aeroporto nacional de Santo Domingo foi concedido para a operação "Lança do Sul" e nada menos que dez mil soldados estadunidenses foram destacados para em várias zonas. Na Costa Rica, por sua vez, o governo ultraconservador de Rodrigo Chaves e sua sucessora, Laura Fernández, apresentou a proposta de construir três bases militares dos EUA. Por enquanto, eles não conseguiram reunir os votos necessários no Parlamento. Enquanto isso, exercícios e operações conjuntas de patrulha continuam.

"É uma estratégia de um império em declínio, que conta com o apoio da direita continental subordinada aos seus interesses e que enfrenta a resistência e a luta dos povos, cada um com características diferentes dependendo do país", explica a Pagine Esteri Giovani Del Prete, coordenador operacional da secretaria continental de ALBA Movimentos. "A militarização implica repressão e violência contra a população organizada, contra os setores mais fracos e marginalizados. E é uma violência exercida por esses corpos repressivos do Estado, muitas vezes equipados, treinados e doutrinados precisamente por pessoal estadunidense e israelense", explica o ativista.

Segundo Del Prete, por trás do envio de forças e das políticas que violam o direito internacional e qualquer lógica de coexistência e respeito à soberania nacional, existem razões ocultas intimamente ligadas às enormes dificuldades que os Estados Unidos estão enfrentando. "Eles devem conter sua decadência econômica e política ligada à antiga agenda ultraneoliberal e, portanto, recorrem à militarização, à interferência, às ameaças e represálias para garantir recursos estratégicos para seu desenvolvimento industrial, militar e tecnológico". Nesse sentido, continua, as terras raras do Brasil, o petróleo da Venezuela, o lítio da Bolívia, a posição geoestratégica das nações da América Central e do Sul, mas também o ataque visceral a todos aqueles governos e movimentos que não se curvam aos seus interesses, são essenciais para manter a hegemonia.

"O imperialismo, a militarização e a agenda neoliberal são lados da mesma moeda e, hoje mais do que nunca, a resistência e a luta dos povos contra esse monstro são necessárias. O Hondurasgate mostrou que essas não são teorias da conspiração, mas algo real contra o qual devemos lidar e lutar", conclui Del Prete.

[Fonte: Pagine Esteri. Publicado em Nueva Lista Informativa Nicaragua y Más: La expansión militar estadounidense en América Latina. Revisão da versão em português e Nota da Revisão: Rose Lima]