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Wilson Gomes alerta: política de indignação moral não elegerá Lula

Professor da UFBA afirma que o presidente precisa de uma coalizão popular mais ampla do que a mobilizada por pautas morais e simbólicas

Erika Hilton e Lula (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

247 – Em artigo publicado na Folha de S.Paulo, o professor titular da Universidade Federal da Bahia (UFBA) Wilson Gomes avalia que a política de “indignação moral” não será suficiente para garantir a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Doutor em filosofia, ele é autor de livros como Transformações da Política na Era Digital, A Democracia no Mundo Digital e A Tirania da Virtude.

Na coluna, Wilson Gomes sustenta que Lula e a deputada Erika Hilton “não têm o mesmo eleitorado” e que essa distinção, embora pareça evidente, não estaria sendo levada em conta com a clareza necessária pela comunicação política do governo. A partir dessa premissa, o articulista defende que o presidente, por sua trajetória e base histórica, não pode apostar na mesma gramática política que impulsiona setores mais identificados com a agenda moral progressista.

Confira o elogio feito pelo prefeito de Maricá, Washington Quaquá, de Maricá, ao artigo:

Segundo Gomes, Lula “jamais seria eleito se fosse o candidato presidencial do PSOL”, partido que, em sua avaliação, hoje simboliza com mais nitidez esse tipo de agenda. Para o articulista, o presidente vem de “outra cepa de esquerda” e deveria ser o primeiro a reconhecer que há diferenças profundas entre uma política voltada à formação de maiorias nacionais e outra ancorada sobretudo em disputas de reconhecimento moral.

Mudança de eixo

O autor afirma que parte expressiva da esquerda passou, ao longo das últimas décadas, da ênfase na “opção preferencial pelos pobres” para a centralidade da denúncia das opressões morais e das políticas de reparação. Na leitura dele, Lula teria aceitado essa mudança de eixo, ainda que não se mova com desenvoltura nesse registro.

Wilson Gomes argumenta que o Brasil continua mergulhado em problemas estruturais graves, como saneamento precário, baixo desempenho educacional, serviços públicos insuficientes e desigualdade persistente. Ainda assim, afirma ele, a esquerda tem concentrado energia política em pautas simbólicas e morais, apostando que esse repertório será capaz de responder às inquietações do eleitorado. O articulista sugere que os sinais vindos da sociedade apontam em outra direção.

Ao examinar episódios recentes, Gomes menciona o caso do banco Master como exemplo de uma questão que, na visão dele, não deveria atingir diretamente o governo, mas que acabou sendo absorvida politicamente porque setores petistas teriam transformado as denúncias jornalísticas em uma disputa moral, lida como um ataque “neolavajatista” ao Supremo Tribunal Federal.

Na avaliação do professor da UFBA, esse enquadramento ajudou a empurrar o governo para o centro de um desgaste desnecessário. Para ele, quando a esquerda decide travar a disputa nesse terreno moralizado, corre o risco de fortalecer mais os adversários do que a si própria.

Iniciativas controversas

O artigo também critica a adesão do governo a iniciativas legislativas em torno da misoginia. Gomes sustenta que o Planalto abraçou diagnósticos que ele considera controversos e reforçou a ideia de que conflitos sociais e morais devem ser enfrentados por meio de tipificações penais e agravamento de punições. Com isso, afirma, consolida-se a percepção de um governo mais preocupado em regular discursos do que em enfrentar problemas concretos da população.

É nesse contexto que a comparação com Erika Hilton ganha força no argumento do articulista. Segundo ele, a deputada fala para um público muito específico, composto por segmentos altamente escolarizados, em geral concentrados nas grandes metrópoles e inseridos em circuitos culturais e profissionais nos quais a agenda de reconhecimento moral ocupa posição central.

Wilson Gomes observa que esse eleitorado é pequeno em termos absolutos, embora tenha grande capacidade de influência simbólica, especialmente nas redes sociais, na imprensa e em espaços institucionais da vida cultural. Para uma candidatura legislativa, esse público pode ser suficiente. Para uma eleição presidencial, no entanto, a equação é outra.

Conservadorismo no campo moral

Na avaliação exposta na coluna, Lula precisa de uma coalizão social muito mais ampla, capaz de reunir também setores populares que hoje mantêm visões conservadoras no campo moral. O ponto central do texto é que não se trata apenas de uma diferença de estilo ou de linguagem, mas de escala eleitoral.

O articulista afirma ainda que a política transformada em performance moral — baseada na exibição de virtudes e na denúncia pública de opressões — pode até mobilizar segmentos fiéis, mas opera de forma desigual. Em sua leitura, esse tipo de dinâmica favorece mais a direita do que a esquerda, porque o voto moralmente conservador seria numericamente muito maior do que o voto moralista progressista.

Por isso, diz Gomes, a direita consegue converter indignação moral em bancadas numerosas e influência institucional mais robusta, enquanto a esquerda tende a produzir mais repercussão do que musculatura eleitoral efetiva nesse terreno. A consequência, segundo ele, é que a pauta pode terminar favorecendo mais uma candidatura presidencial de direita do que uma candidatura de esquerda.

Ao final, o argumento do professor é que o bolsonarismo soube articular uma base conservadora ampla com setores de elite hiperliberal, formando uma combinação eleitoral competitiva. Já a esquerda, segundo ele, não conseguiu unir sua elite progressista a uma base popular de dimensão equivalente. Nesse cenário, conclui Wilson Gomes, a política de indignação moral pode até eleger nomes identificados com nichos específicos, mas não seria capaz, por si só, de eleger Lula.

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