HOME > Meio Ambiente

Marina Silva defende multilateralismo na COP15 e pede união entre países além das fronteiras

Ministra afirma que cooperação internacional é essencial para proteger espécies migratórias, enfrentar a crise climática e conter a perda de biodiversidade

Marina Silva (Foto: Ueslei Marcelino/MMA)

247 – A ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, defendeu neste domingo (22) a união entre os países e a reafirmação do multilateralismo durante a abertura da sessão de alto nível que antecede a 15ª Conferência das Nações Unidas sobre Espécies Migratórias de Animais Silvestres, a COP15, em Campo Grande (MS). Segundo a Agência Brasil, a ministra sustentou que o encontro ocorre em um momento decisivo para a cooperação internacional, em meio a um cenário global tensionado por guerras bélicas e também por disputas tarifárias.

Ao destacar o significado político e ambiental da conferência, Marina afirmou que a COP15 pode representar uma resposta coletiva a um contexto internacional marcado por incertezas e medidas unilaterais. “Esses animais silvestres nos ensinam que, tal como a natureza não reconhece fronteiras, a cooperação e a solidariedade também têm o poder de flexibilizá-las em prol do bem comum”, declarou a ministra no discurso de abertura.

A COP15 reunirá representantes de 132 países e da União Europeia, signatários da Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres, conhecida pela sigla CMS, em inglês. O objetivo central é ampliar a cooperação internacional para enfrentar desafios relacionados à conservação da biodiversidade, especialmente das espécies que atravessam territórios nacionais em seus ciclos naturais de deslocamento.

Defesa do multilateralismo em meio à crise global

Na avaliação de Marina Silva, o encontro em Mato Grosso do Sul transcende a dimensão técnica e ambiental. Para a ministra, a conferência também deve ser compreendida como uma oportunidade política para reafirmar a importância da ação coletiva diante de desafios comuns que nenhum país conseguirá resolver isoladamente.

“Diante de tantas incertezas, a cada dia, agravadas em função de medidas unilaterais, façamos desta COP15 um verdadeiro momento de contundente defesa do multilateralismo, a única forma de resolvermos os nossos problemas”, afirmou.

A declaração insere a COP15 em um debate mais amplo sobre a governança global. Ao associar a proteção das espécies migratórias ao fortalecimento da cooperação entre nações, Marina procurou destacar que a preservação ambiental exige coordenação internacional contínua, uma vez que os ecossistemas e os ciclos biológicos não se limitam às fronteiras políticas dos Estados.

Essa leitura ganha peso num momento em que organismos multilaterais enfrentam pressões crescentes e em que o sistema internacional convive com disputas comerciais, confrontos armados e retrocessos em compromissos globais. Nesse cenário, a fala da ministra brasileira aponta para uma defesa explícita do diálogo e da solidariedade como instrumentos centrais de resposta à crise ambiental.

Biodiversidade e clima no centro da agenda

Marina Silva também ressaltou que a crise climática e a perda de biodiversidade já produzem impactos concretos sobre múltiplas formas de vida, atingindo não apenas os ecossistemas, mas também milhões de pessoas em diversas regiões do mundo. Em sua fala, ela associou diretamente o agravamento desses fenômenos à ampliação da vulnerabilidade social.

“Mais que um contexto multilateral desafiador, a crise climática e a perda de biodiversidade já impactam a vida de inúmeras formas de existência, inclusive milhões de seres humanos, especialmente os mais vulneráveis”, afirmou a ministra.

A declaração reforça uma visão cada vez mais presente nos fóruns internacionais: a de que a agenda ambiental não pode ser dissociada da agenda social. Eventos extremos, degradação de habitats, escassez de recursos naturais e alteração dos ciclos ecológicos atingem com maior intensidade populações mais pobres, que dispõem de menos instrumentos de proteção e adaptação.

Ao falar da vulnerabilidade humana diante da emergência climática e ecológica, Marina enfatiza que a preservação das espécies migratórias não é um tema periférico. Ao contrário, trata-se de uma parte relevante do esforço global para manter o equilíbrio dos ecossistemas e, por consequência, garantir condições mínimas de vida para as populações humanas.

Comparação com a COP-11 expõe agravamento da pobreza

Em um dos trechos mais contundentes de seu discurso, Marina Silva citou dados da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe, a Cepal, para mostrar como o contexto social da região se deteriorou no intervalo entre as duas únicas edições da COP da CMS realizadas na América Latina.

“O panorama social divulgado pela Cepal no final do ano passado, aponta que 9,8% da população latino-americana vive em pobreza extrema, o que significa 2,1 pontos percentuais acima do registrado em 2014, quando o Equador sediou a COP-11 da Convenção”, afirmou.

A comparação feita pela ministra confere densidade política à conferência de Campo Grande. Ao recuperar os dados de 2014, quando a COP-11 ocorreu no Equador, Marina sinaliza que, ao longo da última década, a América Latina não apenas continuou enfrentando desafios estruturais, como viu crescer a pobreza extrema. Nesse sentido, a defesa da biodiversidade aparece articulada a uma preocupação concreta com a desigualdade social.

O argumento é relevante porque amplia o debate sobre conservação. Em vez de restringir a discussão à proteção de espécies e habitats, a ministra insere a questão ambiental em uma agenda mais abrangente, que envolve desenvolvimento, justiça social e enfrentamento da pobreza. Essa conexão tende a ganhar espaço ao longo da conferência, especialmente em países do Sul Global, onde os impactos ambientais frequentemente se somam a fragilidades econômicas e sociais históricas.

Campo Grande recebe conferência estratégica para a biodiversidade

A programação oficial da COP15 da CMS começa nesta segunda-feira (23) e segue até o próximo domingo (29), em Campo Grande. Ao longo da semana, estão previstas plenárias para tomada de decisões, apresentação de estudos científicos e reuniões técnicas na chamada Zona Azul, espaço voltado às negociações oficiais entre governos e delegações.

Além das atividades institucionais, a conferência contará com uma agenda aberta ao público, incluindo palestras, experiências imersivas e outras ações voltadas ao debate sobre biodiversidade e mudanças climáticas. A proposta é aproximar a sociedade do tema e ampliar a compreensão sobre a importância das espécies migratórias para o equilíbrio ecológico.

A realização da COP15 no Brasil também projeta o país como um ator relevante nas discussões ambientais multilaterais. Ao sediar a conferência, o Brasil se coloca no centro de um debate que envolve conservação, cooperação internacional e formulação de políticas públicas capazes de responder à emergência climática e à degradação da biodiversidade.

Espécies migratórias e cooperação sem fronteiras

A mensagem central do discurso de Marina Silva foi a de que a natureza impõe uma lógica de interdependência que desafia nacionalismos estreitos e soluções isoladas. As espécies migratórias atravessam continentes, oceanos e diferentes territórios nacionais, exigindo mecanismos permanentes de articulação entre países para sua proteção.

Nesse sentido, a COP15 se apresenta como um espaço decisivo para fortalecer acordos, compartilhar evidências científicas e construir respostas comuns. Ao afirmar que a natureza “não reconhece fronteiras”, a ministra sintetizou uma visão segundo a qual os problemas ambientais exigem também uma nova postura política internacional, baseada em cooperação, responsabilidade compartilhada e compromisso efetivo com o bem comum.

Artigos Relacionados