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Acordo entre EUA e Irã expõe tensão entre Trump e Netanyahu

Acordo entre EUA e Irã estabelece cessar-fogo e pode limitar ações israelenses no Líbano

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, participam de coletiva de imprensa na Casa Branca - Washington, D.C., EUA - 29/09/2025 (Foto: REUTERS/Kevin Lamarque)
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247 - O acordo entre EUA e Irã abriu uma nova frente de tensão entre Washington e Tel Aviv, ao prever um cessar-fogo de 60 dias, deixar para uma nova rodada de negociações o futuro do programa nuclear iraniano e criar possíveis restrições às operações israelenses no Líbano, segundo informações da Reuters.

O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, havia apostado que a ofensiva conjunta com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, poderia enfraquecer o governo iraniano e fortalecer sua posição política interna antes das eleições israelenses. O desfecho provisório, no entanto, ficou aquém dos objetivos defendidos por Israel no início da guerra.

Acordo frustra metas de Israel

O entendimento preliminar entre Washington e Teerã prevê que, durante os próximos 60 dias, um cessar-fogo esteja em vigor enquanto os termos de um acordo final são negociados. A etapa seguinte deverá tratar principalmente das preocupações dos Estados Unidos e de Israel em relação ao programa nuclear iraniano.

Autoridades israelenses, porém, avaliam que o período de negociação pode ser estendido, o que dificultaria novas ações militares de Israel enquanto suas demandas permanecessem sem solução. Um alto funcionário israelense, ouvido sob condição de anonimato, classificou o acordo como “terrível para Israel”.

“E não há ninguém na liderança israelense que veja de outra forma, do primeiro-ministro ao chefe do Estado-Maior”, afirmou o funcionário.

Segundo a reportagem, a tensão ocorre porque o pacto não contempla, ao menos neste momento, dois pontos que Netanyahu e Trump haviam apresentado como justificativas centrais para a guerra: a contenção do programa de mísseis iraniano e o fim do apoio de Teerã a forças políticas regionais com capacidade militar. 

A relação entre Netanyahu e Trump já vinha sendo marcada por divergências sobre o Líbano. O presidente dos Estados Unidos tem pressionado Israel a limitar suas ações contra o Hezbollah, aliado do Irã, enquanto a interrupção das hostilidades no país é considerada uma exigência fundamental de Teerã.

No início do mês, Trump chamou Netanyahu de “um completo louco” durante um telefonema irritado, ao ordenar que Israel não atacasse Beirute enquanto os Estados Unidos tentavam avançar em um acordo com o Irã. Netanyahu cancelou os ataques naquele dia, mas Israel atingiu os subúrbios do sul da capital libanesa uma semana depois, o que provocou disparos de mísseis iranianos contra território israelense e uma repreensão pública de Trump aos dois lados.

Horas antes do anúncio do acordo provisório entre EUA e Irã, Israel voltou a atacar a capital libanesa no domingo, após foguetes terem sido lançados do Líbano contra Israel. Trump classificou os disparos como “pequenos e sem sentido”.

Netanyahu diz que Israel manterá liberdade de ação

Em entrevista coletiva realizada em Jerusalém na noite de segunda-feira, Netanyahu afirmou que Israel saiu da crise “forte e firme”, com uma liderança que, segundo ele, age com firmeza e prudência. O premiê reconheceu que há divergências ocasionais com Trump.

“Ele é o presidente dos Estados Unidos, eu sou o primeiro-ministro de Israel. Muitas vezes vemos as coisas da mesma forma e há momentos em que vemos as coisas de forma menos parecida. Eu sou responsável pelos interesses de segurança de Israel”, declarou Netanyahu.

O memorando de entendimento entre EUA e Irã deve ser assinado na sexta-feira, na Suíça. Os termos exatos ainda não foram divulgados, mas o Paquistão, que atua como mediador, afirmou que o pacto prevê a interrupção permanente das operações militares em todas as frentes, incluindo o Líbano.

Netanyahu, no entanto, afirmou que Israel manterá suas forças no sul do Líbano e preservará sua “liberdade de ação” contra ataques do Hezbollah.

“O Irã queria que nos retirássemos de lá, mas eu me mantive firme”, disse Netanyahu a jornalistas. “Estamos mantendo nossa liberdade de ação e estamos mantendo a zona de segurança para proteger os cidadãos do norte de Israel”, acrescentou.

Israel diz não estar vinculado ao pacto

A posição pública do governo israelense tem sido cautelosa, em parte para evitar atritos diretos com Trump, considerado sensível a críticas. Nos bastidores, porém, autoridades israelenses demonstram frustração com o conteúdo do acordo.

Três autoridades israelenses afirmaram que Israel considera muito provável que o pacto de 60 dias seja ampliado para 90 dias. Nesse período, os Estados Unidos manteriam ativos militares na região enquanto negociam um acordo mais amplo com o Irã.

Outras duas autoridades disseram que Israel foi pego de surpresa na semana passada, quando Trump afirmou pela primeira vez que um acordo com Teerã estava próximo. Elas reconheceram que Tel Aviv teve pouco sucesso em influenciar as conversas.

Todas as autoridades falaram sob anonimato por não estarem autorizadas a se manifestar publicamente.

Analistas veem divergência estratégica

Dan Shapiro, ex-embaixador dos Estados Unidos em Israel durante o governo Barack Obama e atualmente integrante do centro de estudos Atlantic Council, avaliou que o momento evidencia uma divergência relevante entre Washington e Tel Aviv.

“Este é um momento bastante claro de divergência de interesses”, afirmou Shapiro.

Segundo ele, Netanyahu deve tentar evitar uma oposição aberta ao pacto para não entrar em confronto direto com Trump.

“Ele tentará não se opor abertamente ao acordo, para não entrar em uma briga com Trump”, disse Shapiro. “Mas indicará que Israel não está vinculado a ele, e que Israel reserva seus direitos”, acrescentou.

Acordo afeta imagem política de Netanyahu

O pacto também atinge a estratégia política de Netanyahu, que se aproxima de eleições no outono e aparece em projeções com risco de derrota. Ao longo de sua carreira, ele se apresentou ao eleitorado israelense como um líder especialmente capaz de lidar com Trump e obter ganhos estratégicos para Israel em Washington.

Durante o primeiro mandato de Trump, Israel obteve mudanças importantes na política externa norte-americana, incluindo a transferência da embaixada dos Estados Unidos para Jerusalém e o apoio aos Acordos de Abraão, que estabeleceram relações diplomáticas formais entre Israel, Emirados Árabes Unidos e Bahrein. Trump também abandonou o acordo nuclear com o Irã negociado durante o governo Obama, duramente criticado por Israel.

Em 2019, Netanyahu chegou a exibir grandes outdoors de campanha em Tel Aviv e Jerusalém com imagens suas ao lado de Trump, ambos sorrindo e apertando as mãos.

Jonathan Rynhold, cientista político da Universidade Bar-Ilan, perto de Tel Aviv, afirmou que o novo acordo entre EUA e Irã enfraquece o argumento de Netanyahu de que sua proximidade com Trump o diferencia de outros candidatos ao cargo de primeiro-ministro.

“Netanyahu não conseguirá vender este acordo ao público israelense”, disse Rynhold. “O melhor que ele pode esperar é que eles não consigam chegar a um acordo e que a guerra recomece em vantagem para Israel em 60 dias”, acrescentou.

Pesquisa mostra queda na confiança em Trump

Uma pesquisa divulgada na sexta-feira pelo Israel Democracy Institute apontou que apenas 41% dos judeus israelenses acreditam que sua segurança é uma consideração central para Trump. Em março, esse percentual era de 64%.

O ministro da Energia de Netanyahu, Eli Cohen, afirmou que Israel estará preparado para agir sozinho caso o Irã reconstrua suas capacidades nucleares e de mísseis. Ele ponderou, no entanto, que considera baixa a chance de Teerã adotar esse caminho durante o mandato de Trump.

“Se o Irã tentar renovar seus programas nuclear e de mísseis balísticos, estaremos lá e agiremos”, disse Cohen à emissora pública israelense Kan.

Além da dimensão militar, o acordo provisório prevê a reabertura do Estreito de Hormuz, ponto estratégico para o transporte global de petróleo. O futuro do programa nuclear de Teerã, porém, ficará para a mesa de negociação ao longo dos 60 dias previstos para a tentativa de construção de um acordo final.

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