Acordo entre EUA e Irã promete fim da guerra, mas permanecem dúvidas sobre detalhes
Acordo prevê cessar-fogo, reabertura de Ormuz e novas negociações sobre programa nuclear iraniano
247 - O acordo entre EUA e Irã prevê cessar-fogo, reabertura de Ormuz e novas negociações sobre programa nuclear iraniano, mas ainda deixa sem resposta pontos centrais para uma paz duradoura no Oriente Médio.
Segundo a Reuters, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou na segunda-feira (15), que Washington e Teerã assinaram um acordo preliminar para encerrar o conflito, embora os detalhes ainda não tenham sido divulgados. Autoridades dos dois países indicaram que uma trégua permanente ainda dependerá de novas negociações.
O entendimento provisório prorroga por mais 60 dias o cessar-fogo frágil anunciado em abril e permitiria a reabertura do Estreito de Ormuz, passagem estratégica entre Irã e Omã por onde circula cerca de um quinto do comércio mundial de petróleo. O canal vinha sendo efetivamente bloqueado pelo Irã desde o ataque realizado pelos Estados Unidos e por Israel em fevereiro.
Apesar do avanço diplomático, permanecem dúvidas sobre a implementação do acordo e sobre a confiança de armadores internacionais para retomar a navegação na região. Representantes do setor avaliam que o tráfego pelo Estreito de Ormuz pode levar semanas para se normalizar, mesmo após uma eventual reabertura formal da rota marítima.
“O acordo está todo assinado”, disse Trump após chegar à França para a cúpula do G7, grupo que reúne algumas das maiores economias do mundo. O presidente dos Estados Unidos afirmou ainda que o vice-presidente JD Vance participaria da cerimônia formal de assinatura, prevista para sexta-feira, em Genebra.
Programa nuclear do Irã ficará para nova rodada de negociações
A próxima etapa das conversas deverá tratar de um dos temas mais sensíveis da crise: o futuro do programa nuclear iraniano. As discussões ocorrerão dentro do prazo de 60 dias previsto no acordo provisório.
Segundo autoridades norte-americanas e iranianas citadas pela Reuters, o pacto pode abrir caminho para benefícios econômicos expressivos ao Irã. Entre as medidas em discussão estão o alívio de sanções, o desbloqueio de ativos no exterior e a criação de um fundo de reconstrução de US$ 300 bilhões, financiado por países do Golfo que abrigam bases militares dos Estados Unidos.
Vance afirmou à CNN que o memorando assinado é “um documento muito geral”. Autoridades norte-americanas disseram que os detalhes do acordo seriam divulgados nos dois dias seguintes. O vice-presidente também declarou posteriormente à Fox News que Trump poderia decidir divulgar o texto antes de sexta-feira.
De acordo com Vance, o entendimento inclui “um pacote muito significativo de alívio de sanções” para o Irã. Autoridades dos Estados Unidos, sob condição de anonimato, disseram que Teerã teria de atender a exigências de Washington de nunca construir uma arma nuclear e interromper o apoio a milícias como o Hezbollah, no Líbano, para obter os benefícios previstos.
O Irã, que sempre negou ter intenção de construir uma arma nuclear, sustenta que cedeu pouco ao aceitar retomar discussões diplomáticas sobre seu programa de enriquecimento de urânio, interrompidas pela guerra.
O presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, escreveu nas redes sociais que o acordo provisório representa um “passo importante” para interromper os combates, mas observou que um acordo final para uma trégua duradoura “ainda precisa tomar forma”.
Petróleo estabiliza após queda com expectativa sobre Ormuz
A possibilidade de reabertura do Estreito de Ormuz teve impacto imediato nos mercados de energia. Na segunda-feira, os preços do petróleo caíram ao menor patamar desde 10 de março, pouco depois de o bloqueio da passagem marítima ter interrompido parte relevante do comércio global de petróleo.
Na terça-feira, no entanto, os preços se estabilizaram, refletindo maior cautela entre investidores e operadores. Os contratos futuros do petróleo Brent recuaram 0,3%, para US$ 82,96 por barril, durante o horário de negociação asiático.
Embora o acordo seja o movimento diplomático mais relevante até agora para tentar encerrar a guerra, sua aplicação prática ainda é incerta. O conflito já deixou pelo menos 7 mil mortos, principalmente no Irã e no Líbano, além de ter desestabilizado os mercados globais de energia.
Armadores ainda esperam garantias de segurança
A eventual suspensão do bloqueio iraniano ao Estreito de Ormuz restauraria apenas a situação anterior à guerra. Para empresas de transporte marítimo, a retomada efetiva da navegação dependerá de garantias concretas de segurança.
O presidente-executivo da japonesa Mitsui O.S.K. Lines, gigante do transporte marítimo com uma frota de mais de 900 embarcações, incluindo petroleiros, disse ao Financial Times que armadores não voltariam a cruzar o Estreito de Ormuz até terem confiança de que o acordo entre Estados Unidos e Irã é “material”.
“Dadas as experiências dos últimos dois meses, acho razoável assumir que pode levar pelo menos algumas semanas ou, se não, um mês”, disse Tamura ao FT antes do anúncio feito por Trump.
Segundo a reportagem, a finalização do acordo entre Washington e Teerã não mudou a avaliação de Tamura sobre o tempo necessário para reconstruir a confiança no tráfego marítimo.
O Irã sugeriu que manterá, junto com Omã, algum grau de controle sobre o estreito. Os Estados Unidos afirmaram que a passagem ficará aberta sem cobrança de pedágio por 60 dias e indicaram esperar que essa condição seja incorporada a um acordo final.
Trump escreveu em sua rede Truth Social que navios carregados de petróleo estavam começando a sair do estreito, “seguindo pela ‘autoestrada’ do sul, que é totalmente segura, protegida e impecável”.
Líbano permanece como ponto de tensão
Outro obstáculo importante é o conflito envolvendo Israel, aliado dos Estados Unidos, e o Hezbollah, grupo aliado do Irã no Líbano. Os combates deslocaram 1,2 milhão de pessoas e continuam sendo um ponto sensível nas negociações.
O Irã afirmou que o acordo exige uma cessação completa das hostilidades no Líbano. O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, porém, declarou que Israel manterá suas forças no sul do país e preservará o direito de responder a ataques do Hezbollah.
“O Irã queria que nos retirássemos dali, mas eu me mantive firme”, afirmou Netanyahu na segunda-feira, durante entrevista coletiva.
Israel não participou diretamente das negociações de paz com o Irã. Um funcionário dos Estados Unidos disse que a retirada israelense do Líbano, invadido por Israel em março após a entrada do Hezbollah na guerra, não é uma condição do acordo.
O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araqchi, afirmou que os ataques israelenses devem parar imediatamente.
Questões centrais seguem fora da mesa
Além do programa nuclear iraniano, há outros temas que permanecem sem definição. Dois pontos usados por Trump e Netanyahu para justificar a guerra — o fim do apoio do Irã a grupos armados regionais e a contenção de seu programa de mísseis — não devem estar na agenda da próxima rodada de conversas.
Essa ausência reforça a percepção de que o entendimento atual é apenas um primeiro passo, sem garantias de que as partes chegarão a um acordo definitivo. A reabertura de Ormuz, o alívio de sanções e a reconstrução econômica do Irã podem reduzir tensões no curto prazo, mas a guerra só será efetivamente encerrada se Washington, Teerã e os atores regionais conseguirem avançar sobre os pontos ainda em aberto.



