Acordo entre EUA e Irã prevê fim das hostilidades, mas trégua permanente ainda depende de negociação
Acordo provisório entre EUA e Irã prevê abertura do Estreito de Ormuz, venda de petróleo iraniano e novas negociações nucleares
247 - O acordo provisório entre EUA e Irã deve ser formalmente assinado na Suíça na sexta-feira (19), e prevê a prorrogação do cessar-fogo por mais 60 dias, a reabertura do Estreito de Ormuz, a retomada da venda de petróleo iraniano e uma nova etapa de negociações sobre o programa nuclear de Teerã, as informações são da Reuters.
Segundo a Reuters, detalhes do entendimento começaram a ser conhecidos nesta terça-feira, em meio à tentativa de encerrar a guerra no Oriente Médio. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que o pacto impede o Irã de obter armas nucleares, enquanto um funcionário norte-americano disse que o texto permite a Teerã vender petróleo após a assinatura formal.
O memorando de entendimento assinado nesta semana ainda não foi divulgado integralmente. O documento, segundo as informações disponíveis, estende o cessar-fogo anunciado em abril e cria uma janela de 60 dias para que Washington e Teerã tentem negociar uma trégua permanente.
Pelos termos descritos até agora, os Estados Unidos encerrarão o bloqueio aos portos iranianos. Em contrapartida, Teerã restabelecerá a passagem de petroleiros e outras embarcações pelo Estreito de Ormuz, rota estratégica que estava praticamente bloqueada desde os ataques lançados por Estados Unidos e Israel em 28 de fevereiro.
Trump disse que o acordo deixa claro que o Irã não terá armas nucleares e afirmou que o texto completo será divulgado em uma cerimônia formal nos próximos dias. Teerã, por sua vez, sustenta há anos que não pretende desenvolver armas nucleares e que seu programa atômico tem finalidade exclusivamente pacífica.
As negociações, no entanto, ainda deixam pontos centrais em aberto. O acordo não resolve de imediato o futuro do programa nuclear iraniano, tampouco trata do programa de mísseis balísticos do país ou do apoio de Teerã a grupos armados regionais, como o Hezbollah. Esses temas haviam sido usados por Trump e pelo primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, como justificativa para a guerra.
A Casa Branca também enfrenta pressões políticas internas. O acordo pode expor Trump a críticas de setores do Partido Republicano, especialmente em um contexto de aproximação das eleições de meio de mandato em novembro. Alguns parlamentares republicanos reclamaram de falta de informações sobre o pacto e também criticaram o fato de o presidente não ter buscado autorização do Congresso para a guerra.
No Irã, os líderes do país podem enfrentar novas manifestações caso o acordo não produza alívio econômico após o impacto do conflito. Autoridades dos Estados Unidos e do Irã dizem que o entendimento pode abrir caminho para benefícios econômicos significativos a Teerã, incluindo o levantamento de sanções, o desbloqueio de ativos no exterior e até a criação de um fundo de reconstrução de US$ 300 bilhões.
Esse fundo, segundo as informações relatadas, seria financiado por países vizinhos do Golfo que hospedam bases militares norte-americanas e foram atingidos por ataques iranianos durante a guerra. A iniciativa dependeria, no entanto, do cumprimento de outras condições por parte do Irã.
A participação de Israel permanece como uma das principais incertezas. O país não integrou diretamente as negociações e se distanciou tanto do cessar-fogo anunciado em abril quanto do novo acordo entre EUA e Irã. Netanyahu declarou na segunda-feira que Israel não está obrigado pelos termos do pacto e que não retirará suas forças do sul do Líbano.
O vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, afirmou que o acordo inclui Israel e Líbano, em contraste com a posição expressa pelo governo israelense. Um porta-voz do Hezbollah disse à Reuters que o grupo acredita que o Irã não aceitará uma trégua permanente caso a ocupação israelense não seja encerrada.
O comando militar iraniano, o Quartel-General Central Khatam al-Anbiya, advertiu que Israel deve esperar uma resposta dura se não interromper seus ataques ao sul do Líbano. A continuidade do conflito envolvendo Israel e Hezbollah é apontada como uma das complicações mais sensíveis para a manutenção do cessar-fogo.
A guerra atingiu a maior parte da região e deixou mais de 7 mil mortos, principalmente no Irã e no Líbano. Israel invadiu o Líbano em março, depois que o Hezbollah, aliado do Irã, entrou nos combates.
Nos próximos 60 dias, negociadores deverão retomar discussões consideradas difíceis, especialmente sobre o futuro do programa nuclear iraniano. Teerã vinha tratando do tema com representantes do governo Trump em fevereiro, até que as conversas foram interrompidas pela decisão dos Estados Unidos de iniciar a guerra.
Trump afirmou publicamente estar insatisfeito com a condução israelense da campanha militar. Em declaração a jornalistas, disse que não estava “feliz” com a forma como Israel havia agido.
Sobre a nova etapa das conversas com Teerã, Trump declarou: “O Irã quer concluir isso”. O presidente dos Estados Unidos acrescentou: “Eles têm que voltar aos negócios, e a relação agora está normalizada, então acho que isso vai avançar bem rapidamente”. Em outra fala, descreveu o acordo como “um muro para uma arma nuclear” para o Irã.
O histórico recente das negociações nucleares segue como pano de fundo. Em 2015, o Irã assinou um acordo para reduzir fortemente seus esforços de enriquecimento de urânio com os Estados Unidos e outros países. O pacto entrou em colapso depois que Trump retirou unilateralmente Washington do entendimento durante seu primeiro mandato, o que levou Teerã a formar um estoque de urânio altamente enriquecido.
Durante reuniões do G7 na França, Trump disse gostar da ideia de enviar o acordo com o Irã ao Congresso dos Estados Unidos para análise. A avaliação ocorre após críticas de parlamentares republicanos que afirmaram estar sendo mantidos sem informações suficientes sobre o conteúdo do pacto.
O avanço do entendimento também repercutiu no mercado internacional. Os preços do petróleo caíram mais de 2% nesta terça-feira, atingindo novas mínimas em três meses, depois de já terem recuado quase 5% na véspera com a notícia do acordo. Executivos do setor, porém, avaliam que a produção de petróleo e gás no Oriente Médio ainda levará meses para se recuperar plenamente.
A navegação pelo Estreito de Ormuz continuará sendo observada com cautela. Os dois lados afirmam que a rota, por onde normalmente passa cerca de um quinto do comércio mundial de petróleo e gás natural liquefeito, será aberta a partir de sexta-feira. Empresas de transporte marítimo, no entanto, indicam que preferem aguardar sinais concretos de que a paz será mantida.
A televisão estatal iraniana informou nesta terça-feira que operações para suspender o bloqueio marítimo estavam em andamento. Ao mesmo tempo, ressaltou que as embarcações ainda precisarão coordenar sua passagem com a Guarda Revolucionária do Irã.
Os Estados Unidos disseram que o Estreito de Ormuz ficará aberto sem cobrança de taxas por 60 dias e que esperam incluir essa condição em um acordo final. O Irã sugeriu que manterá, ao lado de Omã, algum grau de controle sobre a rota estratégica.


