Aliados de Trump tentam conter preocupações em Israel sobre acordo com o Irã e futuro da parceria com os EUA
Autoridades e apoiadores de Trump buscam tranquilizar israelenses diante de divergências sobre o Irã, Hezbollah e a política externa de Washington
247 - Aliados do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, intensificaram nos últimos dias uma ofensiva política e diplomática para tranquilizar autoridades e a opinião pública israelense diante das crescentes preocupações com o acordo provisório firmado entre Washington e o Irã e com recentes críticas da Casa Branca ao governo de Benjamin Netanyahu. As informações foram publicadas pela agência Reuters.
As apreensões em Israel aumentaram após uma série de divergências públicas entre Trump e Netanyahu, em um momento delicado da relação bilateral. Embora os dois países tenham atuado em conjunto contra o Irã, as diferenças sobre os rumos do conflito regional e sobre a estratégia para encerrar a guerra que já se estende por quatro meses passaram a alimentar dúvidas sobre a solidez da histórica aliança entre Washington e Tel Aviv.
Durante uma conferência de política externa realizada em Jerusalém, o embaixador dos Estados Unidos em Israel, Mike Huckabee, reconheceu a existência de preocupações em torno da relação bilateral, mas procurou afastar temores sobre um eventual afastamento entre os dois governos. "Os Estados Unidos e Israel têm um laço inquebrável", afirmou Huckabee.
O diplomata também admitiu haver um "enorme nível de ansiedade em relação ao relacionamento" entre os dois países, refletindo um sentimento cada vez mais presente em setores da sociedade israelense.
Uma das principais fontes de preocupação é o memorando de entendimento firmado por Trump com o Irã. Netanyahu e outros líderes israelenses temem que o acordo fortaleça Teerã, considerado por Israel sua principal ameaça estratégica, além de restringir a capacidade israelense de responder a ações do Hezbollah no Líbano, grupo apoiado pelo governo iraniano.
Além do conteúdo do acordo, autoridades israelenses acompanham com atenção a pressão exercida por Washington para que Israel aceite um cessar-fogo com o Hezbollah. Também geraram desconforto comentários recentes de Trump sobre Netanyahu e sobre a condução das operações militares israelenses.
O debate em Jerusalém contou ainda com a participação de Mark Levin, comentarista conservador da Fox News e aliado histórico de Trump. Embora tenha criticado o acordo com o Irã e defendido uma postura mais dura contra o regime iraniano, Levin elogiou o presidente norte-americano por seu compromisso com valores que considera fundamentais.
Segundo ele, Trump continua sendo um defensor da liberdade, da liberdade religiosa, do cristianismo e do judaísmo.
Cresce a preocupação com mudanças entre republicanos
As inquietações em Israel não se limitam à política externa da Casa Branca. Também há receio quanto à mudança de percepção sobre Israel dentro do próprio Partido Republicano.
O vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, adotou recentemente um tom mais crítico em relação ao governo israelense. Em uma declaração amplamente repercutida, afirmou: "Trump é o único chefe de Estado em todo o mundo que é simpático à nação de Israel neste momento."
Posteriormente, Vance acrescentou que nem toda crítica a Israel deve ser automaticamente classificada como antissemitismo.
Para muitos israelenses, o fato de críticas mais contundentes passarem a surgir dentro do Partido Republicano representa uma mudança significativa no cenário político norte-americano. Tradicionalmente, os republicanos foram vistos como os principais aliados de Israel em Washington.
Durante o mesmo evento em Jerusalém, o apresentador de rádio conservador Sid Rosenberg reconheceu o descontentamento existente em Israel com algumas posições recentes de Trump. "Muitas pessoas em Israel estão muito, muito chateadas" com o presidente, afirmou.
Apesar disso, Rosenberg defendeu que Trump continua sendo a melhor alternativa para os interesses israelenses e alertou para a possibilidade de uma futura liderança republicana menos alinhada a Israel.
Os dados mais recentes do Pew Research Center reforçam as preocupações de longo prazo. Embora os republicanos com mais de 50 anos mantenham ampla simpatia por Israel, a percepção entre os mais jovens vem se deteriorando. Segundo levantamento realizado no fim de março, 57% dos republicanos entre 18 e 49 anos possuem hoje uma visão desfavorável de Israel, ante 50% registrados um ano antes.
Guerra em Gaza e conflito com o Irã influenciam opinião pública
A mudança de percepção nos Estados Unidos ocorre em meio às críticas internacionais à campanha militar israelense na Faixa de Gaza, iniciada após o ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023, que resultou em mortes e sequestros de civis israelenses.
Além disso, Israel também enfrenta questionamentos em relação à decisão conjunta com Washington de iniciar a guerra contra o Irã, conflito que enfrenta resistência significativa entre os eleitores norte-americanos, inclusive entre setores conservadores que apoiam Trump.
Victoria Coates, vice-presidente da Heritage Foundation e ex-conselheira adjunta de segurança nacional durante o primeiro mandato de Trump, reconheceu que a relação entre os dois países atravessa um período de tensão.
Ela afirmou que os últimos dias foram "desafiadores para todos nós, para dizer o mínimo", mas destacou que houve muitas realizações positivas durante o segundo mandato do presidente norte-americano.
Apesar das divergências recentes, Coates demonstrou confiança de que os líderes dos dois países conseguirão recolocar a parceria estratégica "de volta aos trilhos".
Netanyahu minimiza impacto das declarações
Segundo duas autoridades israelenses familiarizadas com o pensamento de Netanyahu, o primeiro-ministro não acredita que os comentários de Trump e Vance indiquem mudanças substanciais na política dos Estados Unidos em relação a Israel.
De acordo com essas fontes, Netanyahu avalia que parte das declarações pode estar relacionada ao contexto político doméstico norte-americano, especialmente às eleições legislativas de meio de mandato previstas para novembro, em um cenário de crescente desgaste da imagem de Israel entre os eleitores dos Estados Unidos.
Mesmo assim, o clima de incerteza já estimula reflexões em setores políticos israelenses sobre a necessidade de ampliar a autonomia estratégica do país.
Ohad Tal, presidente do grupo parlamentar de amizade Estados Unidos-Israel no Knesset, afirmou que Israel precisa se preparar para um cenário em que a Casa Branca seja comandada por um presidente menos favorável ao país.
"E é por isso que precisamos ser muito mais independentes e temos que forjar novas alianças", declarou.



