Ataque à Venezuela e sequestro de Maduro dividem apoiadores de Trump nos EUA
Planos de intervenção ampliam críticas internas ao foco externo do presidente dos Estados Unidos
247 - Um setor expressivo da base política do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, vem demonstrando crescente desconforto com o protagonismo da política externa em sua agenda. As críticas se intensificaram após o anúncio, feito no sábado (3), de que os Estados Unidos sequestraram o presidente venezuelano Nicolás Maduro e passariam a “administrar” o país por tempo indefinido, medida que reacendeu temores de um envolvimento prolongado em território estrangeiro, relata o jornal The New York Times.
Para críticos dentro do movimento MAGA, a ação contradiz promessas centrais de Trump de priorizar problemas econômicos domésticos e encerrar o que ele próprio chamou, ao longo dos anos, de “guerras intermináveis”.
À medida que mais detalhes da operação vieram a público, aliados e ex-aliados passaram a alertar para o risco de um conflito sem prazo definido. A deputada Marjorie Taylor Greene, antes próxima de Trump e hoje uma de suas vozes críticas, escreveu nas redes sociais: “Isso é o que muitos no MAGA pensaram que votaram para acabar. Como estávamos enganados".
Embora tenha prometido reduzir a presença militar dos EUA no exterior, Trump não descartou o envio de tropas à Venezuela. Em conversa com repórteres, afirmou que os Estados Unidos “não têm medo de botas no chão”, acrescentando que a administração planejava manter presença militar no país “no que diz respeito ao petróleo”. Em outro momento, declarou: “Vamos reconstruir a infraestrutura petrolífera” e “vamos administrá-la adequadamente e garantir que o povo da Venezuela seja cuidado".
As declarações causaram surpresa até mesmo entre republicanos, que questionaram a compatibilidade entre esses planos e o discurso de não intervenção. Trump voltou a insistir: “Vamos administrar o país corretamente. Será administrado com muita prudência, com muita justiça. Vai gerar muito dinheiro". Para analistas, a fala remete ao princípio conhecido como “regra da loja de porcelanas”, popularizado pelo ex-secretário de Estado Colin Powell: quem quebra, assume a responsabilidade.
O estrategista republicano Matthew Bartlett, que atuou no Departamento de Estado durante o governo Trump, classificou a proposta como “simplesmente impressionante”, acrescentando: “Isso não é algo que o presidente tenha delineado, certamente durante a campanha e mesmo durante os últimos meses".
O impacto político da operação, segundo observadores, dependerá de sua duração e de seus desdobramentos. Dave Carney, estrategista republicano e dirigente do Preserve America, afirmou: “Esta é a parte difícil. Ninguém quer um atoleiro. Ninguém quer, sabe, caixões voltando para Dover com soldados americanos que estão sendo alvejados por, sabe, uma minoria rebelde na Venezuela". Para ele, “se continuar por três anos, será negativo”, mas uma presença de poucos meses poderia levar Trump a “ser celebrado”.
Parte do Partido Republicano também demonstrou apoio. O senador Mike Lee, de Utah, afirmou após conversar com o secretário de Estado Marco Rubio que a ação militar “foi implantada para proteger e defender aqueles que executavam o mandado de prisão” contra o líder venezuelano.
Setores tradicionalmente intervencionistas da política externa americana também reagiram favoravelmente. O senador Mitch McConnell, do Kentucky, declarou: “Sou grato ao pessoal dos EUA que cumpriu ordens em situação de perigo. Uma Venezuela livre, democrática e estável, liderada por venezuelanos, está nos interesses de segurança nacional da América".
Assessores de Trump sustentam que a ofensiva está alinhada às promessas de campanha, argumentando que o governo venezuelano teria contribuído para problemas internos dos EUA, como violência de gangues e o aumento de overdoses por fentanil.
A operação também dividiu figuras da direita radical. Laura Loomer, aliada de Trump em outras ações militares, posicionou-se contra a intervenção na Venezuela. Ela afirmou: “Talvez em breve veremos uma invasão” para que María Corina Machado, líder da oposição venezuelana e vencedora do Prêmio Nobel da Paz em 2025, “possa assumir o poder em um país que ela nunca será capaz de administrar sem assistência dos EUA". Segundo Loomer, esse cenário poderia abrir espaço para maior influência da China.
O debate expõe uma fissura central no trumpismo: quem define, afinal, o significado de “América Primeiro”. Trump, que popularizou o slogan durante a campanha de 2016, sustenta que cabe a ele essa definição. Parte de seus apoiadores mais fiéis, no entanto, demonstra acreditar que o conceito deveria implicar menos envolvimento direto em conflitos externos e maior foco nas demandas internas dos Estados Unidos.



