Crise da Groenlândia reacende debate sobre boicote à Copa de 2026
Parlamentares europeus citam ameaça à soberania e defendem protesto esportivo contra os EUA
247 - A escalada de tensão diplomática envolvendo declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre a Groenlândia passou a ultrapassar o campo político e chegou ao futebol internacional. Durante o Fórum Econômico Mundial, realizado em Davos nesta terça-feira (20), parlamentares de diferentes países europeus passaram a defender publicamente um possível boicote à Copa do Mundo de 2026, que terá partidas sediadas nos Estados Unidos, além de Canadá e México.
A reação ocorre após o endurecimento do discurso do presidente dos Estados Unidos em relação ao território ártico ligado à Dinamarca. Embora o interesse de Trump pela Groenlândia seja antigo, nas últimas semanas a Casa Branca passou a sustentar de forma mais explícita a possibilidade de compra da ilha e, em tom ainda mais grave, não descartou o uso da força militar caso não haja acordo. O tema tem provocado forte desconforto entre líderes europeus e ampliado o desgaste diplomático entre Washington e o continente.
A discussão sobre um eventual boicote ganhou corpo na sexta-feira (17), quando o parlamentar alemão Jürgen Hardt, da União Democrata Cristã (CDU), afirmou em entrevista que uma ação contra a Copa do Mundo poderia ser utilizada como instrumento de pressão política. Para ele, a medida seria “o último recurso para fazer Trump cair em si na questão da Groenlândia”, destacando que o presidente dos Estados Unidos já deixou claro “o quanto a competição é importante para ele”.
Na Alemanha, a proposta encontra respaldo relevante da opinião pública. Levantamento divulgado pelo instituto INSA, realizado entre quarta-feira (15) e quinta-feira (16), com 1.002 entrevistados, apontou que 47% dos alemães apoiam um eventual boicote. Outros 35% rejeitam a ideia, enquanto 18% disseram estar indecisos ou preferiram não opinar.
O debate também avançou no Reino Unido, onde parlamentares de diferentes partidos passaram a tratar o boicote como uma forma legítima de protesto diplomático. O conservador Simon Hoare defendeu o envio de sinais claros a Washington. “Devemos enviar o máximo de mensagens possível ao governo Trump e ao povo americano de que existem certas linhas vermelhas em relação à preservação da soberania e dos assuntos internacionais”, afirmou. Em seguida, completou: “Se isso significa não ir à Copa do Mundo, então não devemos ir à Copa do Mundo”.
A posição foi reforçada pela trabalhista Kate Osbourne, que relembrou mobilizações políticas recentes no país. “No ano passado, houve grande apoio público à campanha bem-sucedida para que Trump não discursasse no Parlamento. Precisamos ver o mesmo agora em relação à Copa do Mundo”, disse. Para ela, “os EUA não deveriam poder participar, muito menos fazer parte da organização do torneio”.
Já o liberal-democrata Luke Taylor adotou um tom ainda mais crítico ao avaliar o comportamento do presidente dos Estados Unidos. Segundo ele, Trump não é um “homem racional” e reage apenas a “vaidades, como visto na incrível saga do Prêmio Nobel”. Além de apoiar o boicote esportivo, Taylor defendeu o cancelamento da visita do rei Charles III aos Estados Unidos, afirmando que as medidas serviriam para “mostrar a Donald Trump que a única coisa à qual ele responde é o próprio orgulho”.
Apesar do aumento da pressão política, nenhum país europeu anunciou oficialmente a intenção de retirar sua seleção da Copa do Mundo. Após as declarações de Hardt, o governo alemão afirmou que qualquer decisão sobre boicote caberia à Federação Alemã de Futebol (DFB) e à FIFA. No Reino Unido, a secretária de Relações Exteriores, Yvette Cooper, declarou que Londres seguirá priorizando o diálogo diplomático com Washington e ressaltou que o “engajamento” entre o primeiro-ministro Keir Starmer e o presidente dos Estados Unidos já resultou em acordos e investimentos bilionários em tecnologia.


