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Cuba nega negociação com EUA e denuncia uso de coerção econômica

Chancelaria afirma que não há diálogo em curso e anuncia plano nacional para enfrentar cerco financeiro e energético

Marcha das Tochas (Foto: Reuters)

247 - O governo de Cuba negou de forma categórica a existência de qualquer negociação bilateral em andamento com os Estados Unidos e voltou a denunciar o uso sistemático da pressão econômica como instrumento de coerção política contra a ilha. A posição foi reafirmada pelo vice-ministro das Relações Exteriores, Carlos Fernández de Cossío, em declarações concedidas a veículos internacionais na quarta-feira (4), ao comentar versões divulgadas a partir de Washington sobre supostos contatos diplomáticos de alto nível.

Segundo o diplomata, as informações que circulam nos Estados Unidos não correspondem à realidade e criam artificialmente a ideia de um diálogo inexistente. Ele afirmou que a chancelaria cubana mantém uma posição clara e consistente quanto à necessidade de respeito mútuo e igualdade soberana como pré-condições para qualquer tipo de conversa formal entre os dois países.

Em tom direto, Fernández de Cossío descartou qualquer processo formal de negociação entre Havana e Washington. “Seria um erro dizer que se está desenhando uma negociação”, afirmou, ressaltando que esse diálogo “não começou”. De acordo com ele, desde a agressão militar dos Estados Unidos contra a Venezuela e o sequestro do presidente Nicolás Maduro, em 3 de janeiro, ocorreram apenas trocas limitadas de mensagens, sem caráter negocial.

As declarações confrontam a narrativa do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que tem insistido publicamente na existência de contatos “em alto nível” com Cuba. Para o vice-ministro, Washington tem plena consciência da posição cubana diante do bloqueio. “O governo dos Estados Unidos sabe que Cuba tem a razão legal e a razão moral frente ao cerco petrolífero”, declarou, ao classificar a política de sanções como uma estratégia de pressão contra a população do país.

Fernández de Cossío também negou de maneira enfática a existência de negociações indiretas por meio de terceiros países ou de atores religiosos, descartando qualquer canal paralelo. Reiterou ainda que um eventual diálogo só poderia ocorrer sob condições estritas de respeito mútuo, igualdade soberana e responsabilidade diplomática, rejeitando práticas históricas de imposição unilateral por parte de Washington.

Nesse contexto, o diplomata estabeleceu limites claros. Cuba não aceitará condicionamentos políticos, reformas internas ditadas do exterior nem acordos humanitários utilizados como mecanismos de pressão. Sobre a libertação de detidos, ele afirmou que o tema não está vinculado ao levantamento do bloqueio petrolífero e não integra a agenda bilateral entre dois Estados soberanos.

Ao comentar acusações e tentativas de desestabilização política, Fernández de Cossío afirmou que não há divisões internas no governo cubano nem disposição para ceder soberania. “Pensar que há setores dispostos a claudicar frente aos Estados Unidos é uma interpretação equivocada”, enfatizou.

O vice-ministro reconheceu que o país atravessa um cenário de severas limitações econômicas, resultado do cerco financeiro, comercial e energético imposto de fora. Nesse quadro, anunciou que o governo divulgará nos próximos dias um plano de reorganização nacional para enfrentar a crise. Segundo ele, trata-se de um processo complexo, com impactos diretos sobre a administração pública e a vida cotidiana da população. “Não é um processo simples”, afirmou, ao classificar a reorganização como “algo difícil para a gestão do governo e muito difícil para a população em seu conjunto”.

Paralelamente, Fernández de Cossío confirmou que Cuba se encontra em estado de preparação defensiva diante de possíveis cenários de agressão militar. Destacou que a obrigação do Estado é proteger seus cidadãos “como cubanos e não como súbditos dos Estados Unidos”. Embora reconheça a superioridade militar norte-americana, advertiu que uma intervenção armada teria custos políticos, humanos e regionais elevados.

Ao questionar os objetivos de uma eventual ação militar, o diplomata lançou uma reflexão direta: “Destruir Cuba e deixar uma terra arrasada ou tentar impor uma ocupação militar contra um povo inteiro?”. Para ele, trata-se de um cenário impraticável e extremamente perigoso.

Por fim, o vice-ministro fez um apelo para que Washington abandone a lógica de confronto permanente e alertou para os riscos de seguir orientações de setores políticos que, segundo ele, construíram suas carreiras alimentando a hostilidade contra Cuba.

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