Governo da Síria e forças curdas firmam amplo acordo de integração para encerrar confrontos
As Forças Democráticas Sírias haviam resistido à integração ao governo que governa a Síria desde a derrubada de Bashar al-Assad, no fim de 2024
Reuters – A Síria e a principal força de combate curda fecharam neste domingo (18) um acordo de grande alcance para colocar as autoridades civis e militares curdas sob o controle do governo central, encerrando dias de combates nos quais tropas sírias capturaram territórios, incluindo campos petrolíferos estratégicos.
O enviado dos Estados Unidos, Tom Barrack, saudou o que chamou de um “ponto de inflexão crucial”, mas observou que ainda há trabalho difícil pela frente para finalizar os detalhes de um acordo abrangente de integração. Os termos do acordo pareceram representar um duro golpe para as Forças Democráticas Sírias (FDS), lideradas por curdos, que administraram uma região semiautônoma no nordeste da Síria por mais de uma década.
O chefe das FDS, Mazloum Abdi, confirmou, em declaração posterior, que o grupo concordou em se retirar de duas províncias de maioria árabe: Deir al-Zor, principal área produtora de petróleo e trigo do país, e Raqqa, que abriga importantes barragens hidrelétricas ao longo do rio Eufrates.
As FDS haviam resistido à integração ao governo que governa a Síria desde a derrubada de Bashar al-Assad, no fim de 2024.
O acordo de 14 pontos publicado pela presidência síria traz as assinaturas do presidente sírio Ahmed al-Sharaa e de Abdi, que teriam assinado separadamente, segundo a mídia estatal.
Abdi disse que deve se reunir com Sharaa em Damasco na segunda-feira e que divulgará os detalhes do acordo ao público após seu retorno, informou a mídia curda.
O líder das FDS afirmou que o grupo permanece comprometido em proteger as “conquistas” da região curda no nordeste. “Esta guerra nos foi imposta. Queríamos evitá-la, mas, infelizmente, como foi planejada por muitas forças, ela nos foi imposta”, disse ele.
Novo acordo
O governo sírio e as FDS travaram meses de negociações no ano passado para integrar as estruturas militares e civis administradas pelos curdos às instituições do Estado sírio até o fim de 2025.
Após o prazo expirar com pouco progresso, confrontos eclodiram e evoluíram para uma ofensiva governamental contra áreas sob controle curdo. O acordo deste domingo afirma que os combates devem encerrar-se, embora ainda tenham sido registrados enfrentamentos esporádicos em algumas regiões.
O texto estipula que todas as forças das FDS serão incorporadas aos ministérios centrais da Defesa e do Interior como “indivíduos”, e não como unidades curdas inteiras, uma exigência anterior das FDS.
Também determina que todas as passagens de fronteira, campos de gás e petróleo, além de prisões e campos que abrigam combatentes do Estado Islâmico e civis associados capturados após a derrota do grupo em 2017, sejam entregues ao governo, outro ponto ao qual as FDS resistiam há muito tempo.
Um funcionário do governo sírio afirmou que a segurança nesses locais permanecia “bastante boa” na noite de domingo e que Damasco buscava uma transição de controle “que não afete a missão de derrotar o Estado Islâmico e não ofereça oportunidade para que elementos ou células do grupo” desestabilizem a segurança na região.
O governo assumirá formalmente Deir al-Zor e Raqqa. A mídia estatal síria publicou fotos de moradores de Raqqa comemorando a esperada transferência de controle.
O funcionário sírio disse que a entrega deve ocorrer dentro de 24 a 48 horas e que esse é “o mais importante indicativo da seriedade por trás da implementação deste plano”.
O acordo também pareceu oferecer algumas concessões. Ele prevê que as FDS possam indicar nomes militares e civis para ocupar cargos-chave no governo central e que a província de Hasakeh, que tem uma população curda significativa e é o principal reduto das FDS, terá um governador nomeado por consenso.
Além disso, compromete as FDS a expulsar todas as figuras não sírias ligadas ao Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), grupo militante curdo que travou uma insurgência de décadas na Turquia.
Sharaa havia acusado o PKK de sequestrar o processo decisório das FDS e impedir avanços na integração.
Estados Unidos pressionados entre dois aliados
O Ministério das Relações Exteriores da Turquia afirmou esperar que o “acordo contribua para a segurança e a paz do povo sírio, bem como de toda a região, especialmente dos vizinhos da Síria”.
“Com o reconhecimento das realidades no terreno, esperamos que todos os grupos e indivíduos no país compreendam plenamente que o futuro da Síria não está no terrorismo e na divisão, mas na unidade, na integração e na coesão”, acrescentou.
Os confrontos colocaram os Estados Unidos em uma posição delicada entre seu apoio de longa data às FDS como parceiras-chave no combate ao Estado Islâmico e o novo respaldo a Sharaa, que prometeu unificar a Síria sob um governo central que proteja todos os sírios.
Barrack se reuniu com Abdi, líder das FDS, na região do Curdistão iraquiano no sábado e com Sharaa em Damasco no domingo.
As tropas sírias mantiveram seu avanço no domingo, mesmo após o Exército dos Estados Unidos ter pedido publicamente que interrompessem as operações. Um comandante curdo de alto escalão disse à Reuters, antes do anúncio do acordo, que os Estados Unidos deveriam intervir de forma mais contundente para pôr fim aos combates.
As preocupações curdas em relação ao governo de Sharaa foram aprofundadas por episódios de violência sectária no ano passado, quando quase 1.500 alauítas foram mortos por forças alinhadas ao governo no oeste da Síria, e centenas de drusos morreram no sul do país, alguns em execuções sumárias.


