Lula se reúne com Macron em meio a ratificação do acordo UE-Mercosul
França mantém resistência ao tratado comercial enquanto Brasil articula apoio para ratificação interna e aval europeu
247 - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva se reuniu nesta quinta-feira (19) com o presidente da França, Emmanuel Macron, à margem da Cúpula sobre Impacto da Inteligência Artificial, realizada em Nova Délhi, em um momento decisivo para o acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia. O tratado, que pode criar a maior zona de livre comércio do mundo, está na fase final de tramitação e ainda depende de ratificações internas para entrar em vigor, em meio a resistências de alguns países europeus.
Segundo nota divulgada pelo Palácio do Planalto, os dois líderes discutiram temas centrais da agenda bilateral, com destaque para cooperação nas áreas de defesa, ciência e tecnologia e comércio. A Presidência também informou que Lula e Macron conversaram sobre integração transfronteiriça e iniciativas conjuntas para combater o narcotráfico, o garimpo ilegal e outras formas de crime transnacional na fronteira entre o Amapá e a Guiana Francesa.
O encontro ocorre em um cenário estratégico para o futuro do acordo Mercosul-União Europeia, assinado em 17 de janeiro após mais de 25 anos de negociações. Apesar de contar com apoio majoritário dentro da UE, o pacto enfrenta oposição em países como França, Áustria, Hungria, Irlanda e Polônia, especialmente por preocupações relacionadas a impactos no setor agrícola europeu e exigências ambientais.
De acordo com o Planalto, Lula e Macron também destacaram o intercâmbio comercial recorde entre Brasil e França, que chegou a 10,3 bilhões de dólares em 2025, embora ambos tenham reconhecido que o volume ainda está abaixo do potencial econômico das duas nações.
Mesmo com divergências sobre o tratado comercial, Brasil e França seguem alinhados em temas globais, com forte ênfase na agenda ambiental. A relação diplomática entre Lula e Macron tem sido descrita como próxima e cordial, fortalecida por encontros frequentes e cooperação internacional nos últimos anos.
Ainda segundo a nota oficial, os presidentes abordaram temas da agenda internacional, como paz, segurança e inteligência artificial. Nesse contexto, Macron convidou Lula para participar da próxima reunião do G7, que será realizada em Evian, nos dias 15 e 16 de junho.
Encontro com premiê da Croácia reforçou defesa do acordo
No mesmo dia, Lula também se reuniu com o primeiro-ministro da Croácia, Andrej Plenković, igualmente à margem da cúpula em Nova Délhi. Segundo comunicado do Palácio do Planalto, os dois líderes ressaltaram a importância da assinatura do acordo Mercosul-União Europeia como instrumento de fortalecimento do comércio e de defesa do multilateralismo em um cenário internacional marcado por conflitos.
A Croácia, diferentemente da França, tem defendido a rápida entrada em vigor do tratado. Ainda conforme o Planalto, Lula e Plenković também discutiram questões ligadas à paz e à segurança internacional.
Ratificação pode levar acordo a vigorar provisoriamente
Embora o acordo tenha sido formalmente assinado, sua aplicação integral ainda depende da conclusão dos processos de aprovação interna nos dois blocos. No lado europeu, o texto precisa passar pelo Parlamento Europeu e ainda foi encaminhado ao Tribunal de Justiça da União Europeia, que avaliará a legalidade das medidas previstas.
A depender da interpretação jurídica, partes do tratado podem exigir também aprovação pelos parlamentos nacionais dos Estados-membros. Além disso, há possibilidade de judicialização após eventual aval político.
No Mercosul, o acordo precisará ser analisado e aprovado pelos Congressos de Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. No caso brasileiro, a expectativa é que a Câmara dos Deputados inicie a análise a partir da próxima segunda-feira (23), com o retorno das atividades legislativas após o recesso de Carnaval.
Se os países do Mercosul concluírem a ratificação interna antes da Europa, o acordo poderá entrar em vigor provisoriamente. No Brasil, a previsão é que a implementação possa ocorrer a partir do segundo semestre de 2026.
Divergências persistem, mas diálogo se mantém
O principal ponto de tensão entre Lula e Macron segue sendo a posição francesa sobre o acordo Mercosul-UE. O governo francês mantém uma postura protecionista, influenciado por pressões do setor agrícola e por cobranças relacionadas a padrões ambientais.
Apesar disso, a interlocução entre os dois governos permanece ativa e ampliada. No terceiro mandato de Lula, Macron visitou o Brasil em 2024 e passou por Rio de Janeiro, Brasília, São Paulo e a região amazônica. Posteriormente, participou da COP30 em Belém e cumpriu compromissos em Salvador, incluindo visitas a projetos ligados à embaixada francesa e ao Pelourinho.
A agenda recente reforça que, mesmo com impasses comerciais, Brasil e França seguem apostando no diálogo político e na cooperação em temas estratégicos, incluindo segurança, tecnologia e meio ambiente.


