Morte de ativista em ação do ICE em Minneapolis impulsiona protestos nacionais nos EUA
Organizações de direitos civis e de defesa de migrantes convocaram manifestações nacionais contra as operações de imigração
247 - A morte da ativista Renee Nicole Good, baleada por um agente do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE) em Minneapolis, desencadeou uma onda de protestos em todo o país e acirrou o embate entre autoridades estaduais e o governo federal. Organizações de direitos civis e de defesa de migrantes convocaram manifestações nacionais contra as operações de imigração conduzidas pela administração do presidente Donald Trump. As informações são da Reuters, com base em apuração feita nos Estados Unidos.
Segundo os organizadores, mais de 1.000 atos estão previstos para o fim de semana em diferentes cidades americanas, sob o lema “ICE Out”, exigindo o fim das grandes mobilizações de agentes federais em centros urbanos, em sua maioria administrados por políticos democratas. As manifestações ocorrem após a morte de Good, de 37 anos, mãe de três filhos, atingida a tiros na quarta-feira (7), enquanto estava ao volante de seu carro em uma rua residencial de Minneapolis.
A cidade se tornou um dos principais focos de tensão após o envio de cerca de 2.000 agentes federais à região, operação que o Departamento de Segurança Interna (DHS) classificou como “a maior já realizada” pela pasta. O governador de Minnesota, Tim Walz, criticou duramente a ação e afirmou que se trata de um exemplo “imprudente” de “governança por reality show”.
Na noite de sexta-feira (9), centenas de manifestantes realizaram um protesto barulhento em frente a um hotel onde estariam hospedados agentes do ICE. Vídeos publicados nas redes sociais mostram participantes batendo panelas, tocando instrumentos de sopro, gritando com megafones e apontando lanternas potentes para as janelas do prédio. A manifestação perdeu força após a chegada da polícia estadual, que declarou a reunião ilegal.
Ao menos 30 pessoas foram detidas, identificadas e liberadas. A polícia informou que agiu após receber relatos de que os protestos deixaram de ser pacíficos e que houve danos a propriedades. “Ordens de dispersão foram dadas antes das detenções”, afirmou o Departamento de Segurança Pública de Minnesota em uma rede social.
No momento em que foi morta, Renee Nicole Good participava de uma das chamadas “patrulhas de bairro”, grupos formados por moradores e ativistas que monitoram e registram a atuação de agentes do ICE, segundo familiares e militantes locais. Já autoridades federais apresentaram uma versão diferente dos fatos.
A secretária de Segurança Interna, Kristi Noem, e outros integrantes do governo Trump afirmaram que Good estaria “impedindo” e “perseguindo” agentes ao longo do dia e que o disparo ocorreu em legítima defesa, quando ela teria tentado atropelar um agente com o carro, em um suposto “ato de terrorismo doméstico”.
O prefeito de Minneapolis, Jacob Frey, contestou publicamente essa narrativa e afirmou que vídeos gravados por testemunhas contradizem diretamente a versão federal. Para ele, trata-se de uma “narrativa absurda”. Organizações de direitos civis também sustentam que as imagens não indicam qualquer justificativa para o uso de força letal.
Diante das versões conflitantes, autoridades estaduais de Minnesota e do condado de Hennepin anunciaram a abertura de uma investigação criminal própria sobre o caso, paralela ao inquérito federal conduzido pelo FBI. Alguns integrantes do governo Trump, incluindo o vice-presidente JD Vance, alegaram que promotores estaduais não teriam jurisdição para processar um agente federal, embora especialistas em direito afirmem que a imunidade não é automática nesses casos.
O clima de crise levou o governador Tim Walz a colocar a Guarda Nacional do estado em alerta. A tensão entre governos estadual e federal aumentou ainda mais após um episódio semelhante ocorrido em Portland, no Oregon, onde um agente da Patrulha de Fronteira atirou e feriu um homem e uma mulher durante uma tentativa de abordagem de veículo.
Assim como em Minneapolis, o DHS alegou que o motorista tentou “transformar o carro em arma” contra os agentes. A pasta afirmou que os ocupantes do veículo seriam associados a gangues venezuelanas e estariam ilegalmente no país, mas não apresentou provas públicas das acusações.
O prefeito de Portland, Keith Wilson, afirmou que não é possível aceitar a versão do governo federal sem uma investigação independente, ecoando a posição adotada por autoridades de Minneapolis.
A morte de Renee Nicole Good ocorreu a poucos quarteirões do local onde George Floyd foi assassinado por um policial em 2020, episódio que desencadeou protestos nacionais contra o racismo e a violência policial durante o primeiro mandato de Donald Trump. Para ativistas, a proximidade simbólica reforça a gravidade do caso atual.
Imagens gravadas por testemunhas mostram agentes mascarados se aproximando do veículo de Good, parado em um ângulo que parcialmente bloqueava a via. Um deles ordena que ela saia do carro e segura a maçaneta da porta do motorista. Quando o veículo começa a se mover para longe dos agentes, um deles recua e dispara três vezes contra a parte frontal do automóvel.



