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Portugal comemora aniversário da democracia em meio ao avanço da extrema-direita

"Portugal era o país que parecia imune à direita radical e, de repente, tudo isso mudou", afirmou cientista político

Bandeira de Portugal (Foto: Canva)
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SANTARÉM, Portugal (Reuters) - O capitão reformado Joaquim Correia Bernardo, de 84 anos, lembra-se da revolução que derrubou a ditadura fascista em Portugal há cinco décadas como se fosse ontem.

Ele tinha trinta e poucos anos quando ajudou a organizar o golpe militar de 25 de abril de 1974, que devolveu a democracia a Portugal após 48 anos de regime autoritário.

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Na cidade de Santarém, ao lado da estátua de Salgueiro Maia, um capitão do Exército que desempenhou um papel crucial na revolução, Correia Bernardo disse que seus valores, como a participação democrática e o respeito ao próximo, devem ser mantidos.

"A liberdade não pode ser perdida", afirmou.

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Suas palavras têm uma ressonância especial agora, no momento em que a extrema-direita está em marcha novamente em Portugal.

Foi de uma base militar em Santarém que uma coluna de veículos partiu em direção à capital Lisboa em 1974. Correia Bernardo ficou para trás, pois era seu dever colocar em ação um "Plano B", caso o golpe não saísse como planejado.

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O golpe, quase sem derramamento de sangue, foi bem-sucedido e ficou conhecido como a "Revolução dos Cravos" porque os soldados colocaram flores nos canos de suas armas.

O movimento também levou ao colapso do domínio colonial português no exterior, principalmente na África, onde as guerras contra os movimentos de libertação nacional haviam exaurido as Forças Armadas e drenado os cofres do Estado.

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Mas agora, enquanto os portugueses se preparam para comemorar o 50º aniversário do fim da ditadura, com a expectativa de que milhares de pessoas se reúnam nas ruas, a extrema-direita está se recuperando após uma eleição geral no mês passado.

Fundado em 2019, o partido populista e anti-imigração Chega, liderado por um ex-comentarista esportivo conhecido por seus comentários depreciativos contra minorias étnicas, é agora o terceiro maior partido político de Portugal.

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Correia Bernardo e acadêmicos dizem que o crescimento do Chega se deve à percepção de que os políticos tradicionais não conseguiram atender às necessidades dos cidadãos. Alguns dos ideais do regime deposto persistiram e o líder do Chega, André Ventura, adotou uma narrativa que lhe permitiu angariar apoio, dizem eles.

O Chega quadruplicou sua representação parlamentar para 50 parlamentares em 230 assentos na eleição do mês passado. A Aliança Democrática, de centro-direita, venceu por uma margem pequena e está governando sem uma maioria absoluta, com Ventura alertando para a instabilidade se o governo não negociar políticas com seu partido.

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"GRITO DE REVOLTA"

Correia Bernardo disse que os fracassos de governos consecutivos em lidar com o descontentamento social em relação a questões como a crise habitacional e os baixos salários alimentaram a ascensão de Chega. O voto no Chega seria provavelmente um "grito de revolta", disse ele.

Um estudo publicado na sexta-feira pelo Instituto de Ciências Sociais de Lisboa (ICS) e pelo centro de pesquisas ISCTE mostrou que 34% dos entrevistados acreditam que a situação da moradia é pior agora do que antes da revolução e 42% acham que o mercado de trabalho se deteriorou.

Cerca de 66% dos entrevistados também disseram que a corrupção está mais disseminada atualmente, um problema que o Chega prometeu eliminar.

Mais da metade não quer outro regime autoritário, mas 23% disseram que se os líderes políticos atuais seguissem os "ideais" do ex-ditador António de Oliveira Salazar, que governou por quase 40 anos, Portugal poderia "recuperar sua grandeza".

"Uma narrativa que foi criada durante o regime resistiu ao 25 de abril (revolução) e persiste 50 anos depois", disse Filipa Madeira, do ICS, uma das autoras do estudo.

O cientista político Vicente Valentim, da Universidade de Oxford, que escreveu um livro sobre a extrema-direita, disse que alguns votaram no Chega porque se sentiram "deixados para trás", mas que muitos já compartilhavam a ideologia do partido, como opiniões racistas e xenófobas.

Durante muito tempo, não havia nenhum político considerado elegível para liderar a extrema-direita, mas Ventura mudou isso, disse Valentim.

"Portugal era o país que parecia imune à direita radical e, de repente, tudo isso mudou", disse Valentim. "É importante entender o que aconteceu porque não se pode combater um fenômeno sem entender suas causas."

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