Portugal registra explosão de crimes de ódio e revela infiltração neonazi até no serviço púlblico
As autoridades alertam que o número real pode ser ainda maior, já que muitas vítimas evitam formalizar denúncias
247 - Uma megaoperação da Polícia Judiciária (PJ) portuguesa trouxe à tona um crescimento expressivo dos crimes de ódio no país e a infiltração de integrantes neonazistas em serviços públicos estratégicos. A ação resultou na prisão de 37 membros do grupo extremista conhecido como 1143, acusado de atuar de forma organizada, com ramificações em forças de segurança, saúde e no meio político.
As informações foram divulgadas pelo jornal O Globo. Durante entrevista coletiva, o diretor nacional da PJ, Luís Neves, responsável pela coordenação da operação batizada de “Irmandade”, revelou que os crimes de ódio tiveram um salto sem precedentes nos últimos anos. “— Passamos de uma dezena (de crimes de ódio) para sete vezes mais.”
A pedido do Portugal Giro, a Polícia Judiciária detalhou os números que embasam a afirmação. Segundo a corporação, foram registrados 10 crimes de ódio em 2020, contra 64 em 2025, o que representa um aumento de 540% em cinco anos. As autoridades alertam que o número real pode ser ainda maior, já que muitas vítimas evitam formalizar denúncias.
De acordo com a PJ, a expansão do grupo 1143 está diretamente relacionada a esse crescimento. A investigação aponta que a organização planejava se estruturar como uma milícia armada, com o objetivo de iniciar uma guerra racial em território português. “— (Responsáveis por) homicídios, por pessoas que ficaram com gravíssimas sequelas e isso não é possível num país com a nossa matriz —” afirmou Luís Neves.
A atuação do grupo, segundo a polícia, não se restringia a uma região específica e se espalhou por todo o país. As apurações indicam infiltração em setores sensíveis do Estado, incluindo forças de segurança e serviços públicos. Entre os 37 detidos estão um sargento da Força Aérea, um policial e um profissional da área da saúde.
As investigações também identificaram vínculos políticos. Conforme revelou o jornal Público, ao menos três dos detidos são militantes ou ex-militantes do partido de ultradireita e discurso anti-imigração Chega, o que ampliou o debate sobre a penetração de ideologias extremistas no cenário político institucional.
Luís Neves descreveu o 1143 como uma estrutura organizada e coesa, com forte apelo ideológico. “— Organização hierarquizada que se alarga com vontade coletiva e sentimento de pertença, de ideologia neonazi, com objetivo de segregação —” disse o diretor da PJ.
O material apreendido durante a operação reforça o caráter radical do grupo. Entre os itens recolhidos, havia propaganda que defendia a “remigração”, termo usado por extremistas para se referir ao retorno forçado de imigrantes aos seus países de origem.
A repercussão do caso chegou ao mais alto nível do Estado. Em discurso no Parlamento Europeu, durante as comemorações dos 40 anos da adesão de Portugal à União Europeia, o presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, fez um alerta direto contra narrativas de pureza racial. “— Não há portugueses puros. Há portugueses diversos na sua riqueza cultural.”
As autoridades portuguesas afirmam que a operação representa apenas uma etapa no combate ao extremismo violento e aos crimes de ódio. As investigações continuam, com foco na identificação de outros possíveis integrantes, financiadores e conexões internacionais do grupo neonazista.


