Pressão de Trump sobre Groenlândia expõe crise na Otan e acende alerta no Ártico
Insistência do presidente dos EUA em controlar o território dinamarquês gera temor de maior enfraquecimento da aliança
247 - A Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), aliança militar que há décadas sustenta a segurança europeia, enfrenta um de seus momentos mais delicados desde a Guerra Fria. A insistência do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em defender a posse norte-americana da Groenlândia tem provocado inquietação entre aliados e levantado dúvidas sobre a própria sobrevivência do bloco diante de um impasse sem precedentes.
A crise ganhou força após Trump retomar publicamente a ideia de que Washington deveria assumir o controle do território semiautônomo ligado à Dinamarca. A informação foi revelada pela agência Reuters, que ouviu diplomatas, analistas e autoridades envolvidas nas discussões internas da Otan. O argumento apresentado pelo presidente dos Estados Unidos é o de que a Groenlândia estaria insuficientemente protegida diante do interesse crescente da Rússia e da China no Ártico e em suas riquezas minerais.
Caso uma tomada de controle ocorresse pela força, o episódio representaria algo inédito: a ocupação do território de um país-membro da Otan por outro integrante da própria aliança. Especialistas ouvidos avaliam que um movimento desse tipo poderia significar o colapso do pacto ou, no mínimo, seu enfraquecimento profundo, com consequências diretas para a segurança da Europa.
“Não consigo pensar em outros momentos em que a Otan tenha estado tão ameaçada, especialmente por uma ação vinda dos Estados Unidos”, afirmou Sten Rynning, professor da Universidade do Sul da Dinamarca e autor de diversos livros sobre a aliança militar.
Diante da pressão de Washington, países europeus passaram a discutir alternativas para reforçar a presença no Ártico e responder às críticas do presidente dos Estados Unidos. As conversas ainda estão em estágio inicial, segundo diplomatas, mas incluem propostas como ampliação da vigilância aérea, patrulhas marítimas e maior uso de tecnologia para monitorar a região.
Em uma tentativa de demonstrar compromisso com a segurança do Ártico sem recorrer à mudança de soberania, Dinamarca e aliados como Alemanha, França, Suécia e Noruega anunciaram o envio simbólico de tropas para exercícios militares na Groenlândia. O gesto ocorreu no mesmo dia em que os chanceleres dinamarquês e groenlandês se reuniram em Washington com o vice-presidente JD Vance e o secretário de Estado Marco Rubio, sem que houvesse avanço para resolver o impasse.
Para analistas europeus, o problema central é que a estratégia só funcionará se Trump aceitar o reforço coletivo da Otan como alternativa à posse direta da ilha. Até agora, porém, o presidente dos Estados Unidos tem sido enfático ao afirmar que apenas a propriedade do território atenderia aos interesses norte-americanos, o que levou autoridades europeias a concluir que a motivação ultrapassa preocupações de segurança.
“A Otan pode ajudar a fazer parte da solução ao estruturar uma estratégia séria de vigilância e dissuasão no Ártico”, avaliou Fabrice Pothier, ex-diretor de planejamento político da Otan e atual CEO da consultoria Rasmussen Global. Segundo ele, “a credibilidade da aliança já sofre danos colaterais com essa tensão. As declarações de Trump introduziram uma dúvida sobre o compromisso dos Estados Unidos com a Otan que dificilmente será esquecida”.
Na última semana, Trump afirmou que os Estados Unidos continuam comprometidos com a Otan e declarou que Rússia e China só temem a aliança enquanto Washington fizer parte dela. Ele também sustentou que a Otan se tornaria ainda mais forte caso a Groenlândia estivesse sob controle norte-americano. Moscou, por sua vez, rebateu dizendo que a narrativa de ameaça russa ou chinesa ao território é um mito usado para alimentar histeria e justificar uma escalada perigosa no Ártico.
Entre vários membros da Otan, especialmente no Leste Europeu, a controvérsia é vista como uma distração arriscada. Desde a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022, a prioridade da aliança tem sido reforçar sua fronteira oriental, diante do temor de novos avanços militares de Moscou. Um diplomata da região classificou um eventual controle militar dos Estados Unidos sobre a Groenlândia como “uma situação de terremoto, com risco de destruir a Otan”.
Autoridades dinamarquesas e de outros países europeus lembram que a Groenlândia já está protegida pelo Artigo 5 do tratado da Otan, que prevê defesa coletiva em caso de ataque. Assim, qualquer tentativa de tomada do território por Rússia ou China significaria confronto direto com toda a aliança, inclusive com os próprios Estados Unidos. Além disso, Washington já mantém a base espacial de Pituffik na ilha, com cerca de 200 militares, e possui autorização para ampliar sua presença desde um acordo firmado em 1951.
Mesmo assim, há consenso entre aliados de que a Otan precisa fazer mais pela segurança do Ártico, tradicionalmente gerida de forma mais isolada por países da região. “Quando se trata do Ártico, precisamos trabalhar juntos como aliança”, declarou o secretário-geral da Otan, Mark Rutte, em Bruxelas. “Estamos agora detalhando os próximos passos para garantir que isso seja feito de forma coletiva".
Rutte reconheceu que Trump tem razão ao chamar atenção para a importância estratégica do Ártico e citou investimentos recentes da Dinamarca em aeronaves de vigilância, drones de longo alcance, caças F-35 e outras capacidades militares. Ainda assim, qualquer mudança significativa na postura da Otan depende do consenso de todos os 32 membros — incluindo, inevitavelmente, os Estados Unidos.

