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Socialista e ultradireitista avançam ao 2º turno na eleição presidencial em Portugal

Disputa entre António José Seguro e André Ventura em 8 de fevereiro expõe polarização e reposiciona o centro político no país

António José Seguro (Foto: Reuters)

247 – A eleição presidencial em Portugal caminha para um segundo turno entre o socialista António José Seguro e o ultradireitista André Ventura, marcado para 8 de fevereiro, segundo projeções de boca de urna e resultados preliminares divulgados neste domingo, 18 de janeiro de 2026.

As informações foram publicadas pela Folha de S.Paulo, com base em projeção da Universidade Católica de Lisboa para a RTP e em anúncio atribuído ao primeiro-ministro Luís Montenegro, que confirmou o cenário de segundo turno.

Projeções indicam Seguro na frente e Ventura consolidado no 2º lugar

De acordo com a projeção citada pela reportagem, Seguro teria ficado na faixa de 30% a 35% dos votos, enquanto Ventura apareceu com 20% a 24%, garantindo a segunda colocação e, portanto, a vaga na disputa final.

Em seguida, vieram João Cotrim de Figueiredo (Iniciativa Liberal), com 17% a 21%, Henrique Gouveia e Melo (independente), com 11% a 14%, e Luís Marques Mendes (centro-direita), com 8% a 11%.

Participação alta e eleição mais disputada em duas décadas

A votação registrou o maior comparecimento em 20 anos, num pleito descrito como o mais equilibrado desde a redemocratização. A projeção de abstenção, que variava entre 35% e 40%, teria ficado abaixo do patamar histórico recente. Em 2021, ainda sob o impacto da pandemia de Covid-19, a abstenção superou metade do eleitorado.

O aumento da participação adiciona um componente político relevante para a segunda rodada. Em eleições presidenciais, o comparecimento costuma favorecer candidaturas com capacidade de agregar setores distintos, sobretudo quando a disputa se transforma em um plebiscito entre moderação e ruptura.

Dois perfis opostos e a volta de Seguro como “moderado”

A reportagem descreve Seguro como um político de fala pausada e perfil professoral, que passou a vender, nesta campanha, a imagem de moderação e de reconstrução do diálogo num ambiente de polarização.

O ponto central de sua trajetória, segundo o texto, remonta ao período em que liderou o Partido Socialista na oposição, entre 2011 e 2014, durante a crise do euro e o programa de austeridade imposto a Portugal como contrapartida do resgate financeiro. Na época, Seguro criticava o governo, mas orientava o partido a se abster em votações cruciais, abrindo espaço para soluções de compromisso.

Ao revisitar esse período, ele afirmou, em entrevista citada pela reportagem: “Eu me orgulho de ter sido responsável e ajudado o meu país”.

A Folha relata ainda que, no comitê de Luís Marques Mendes, circulava a avaliação de que parte do eleitorado de centro-direita teria migrado para Seguro, num movimento de “voto útil” moderado. Esse comportamento pode pesar no segundo turno, especialmente se o pleito se consolidar como uma escolha entre estabilidade institucional e projeto de ruptura.

Ventura e o projeto de revisão constitucional

Do outro lado, André Ventura aparece como o antípoda do socialista, não apenas no estilo, descrito como alguém que termina discursos aos gritos, mas também na ambição política. Segundo a reportagem, o líder do Chega vê a Presidência como etapa de um plano mais amplo de alterar radicalmente a Constituição portuguesa, com ênfase em sistema penitenciário e imigração, em linha com o discurso xenófobo apontado no texto.

Em entrevista mencionada à RTP, Ventura declarou que pretende usar a “magistratura de influência” do cargo para trabalhar pela revisão constitucional. A reportagem acrescenta que ele nunca escondeu o desejo de se tornar primeiro-ministro, posto com poderes diretos muito superiores aos do chefe de Estado.

A presença de Ventura no segundo turno confirma a força do Chega como fenômeno político recente e amplia a pressão sobre o centro partidário português, ao transformar a eleição presidencial em teste de resistência das instituições diante do avanço da ultradireita.

O que está em jogo na Presidência em Portugal

Em Portugal, o presidente não governa, mas exerce funções decisivas. Pode vetar leis, influenciar o debate público e dissolver o Parlamento em situações de impasse. Por isso, mesmo sem poder executivo cotidiano, o cargo pode orientar o sistema político, sobretudo em momentos de fragmentação e instabilidade.

A sucessão também encerra um ciclo institucional. O atual presidente Marcelo Rebelo de Sousa está no fim do mandato, e a disputa ocorre em um momento em que o país vive tensões políticas mais visíveis, com o crescimento da ultradireita e a reorganização do campo moderado.

Quem são os candidatos do 2º turno

António José Seguro

Nascido em 1962, em Penamacor, foi militante da Juventude Socialista e se projetou como liderança do Partido Socialista. Foi ministro em governos de António Guterres e liderou a oposição entre 2011 e 2014. Depois, afastou-se da política partidária e passou a atuar no magistério e como comentarista de televisão. Retornou para disputar a Presidência com a bandeira do diálogo em tempos de polarização.

André Ventura

Nascido em 1983, em Sintra, é advogado e teve trajetória midiática como comentarista esportivo. Foi vereador pelo Partido Social Democrata antes de romper com a legenda e fundar, em 2019, o Chega. Em poucos anos, consolidou o partido como uma das maiores forças parlamentares, impulsionado por discursos inflamados contra corrupção, contra o que considera doutrinação de esquerda nas escolas e contra a imigração.

Com o segundo turno marcado para 8 de fevereiro, a eleição portuguesa se encaminha para uma decisão com peso simbólico e político. De um lado, a aposta na recomposição do centro e na moderação institucional. De outro, a tentativa de levar a ultradireita ao topo do Estado, com promessa de confrontar pilares constitucionais e ampliar tensões sociais.

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