Tarifaço de Trump é “gol contra” para os EUA e eleva custos para empresas e consumidores, aponta estudo
Pesquisa do Kiel Institute conclui que 96% do impacto das tarifas impostas pelos Estados Unidos é absorvido pelo mercado estadunidense
247 - A política tarifária retomada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tende a prejudicar mais a economia americana do que os países alvo das medidas, segundo estudo divulgado pelo Kiel Institute, centro de pesquisas econômicas sediado na Alemanha. A informação foi publicada originalmente pelo Valor Econômico.
O levantamento, intitulado America’s Own Goal: Who Pays the Tariffs? (“Gol contra dos Estados Unidos: quem paga as tarifas?”), conclui que os custos das tarifas são absorvidos quase integralmente dentro dos próprios EUA. De acordo com os pesquisadores Julian Hinz, Aaron Lohmann, Hendrik Mahlkow e Anna Vorwig, apenas 4% do ônus tarifário é suportado pelos exportadores estrangeiros, enquanto os outros 96% recaem sobre importadores, empresas e consumidores americanos.
Entre os casos analisados está o do Brasil. Segundo o estudo, quando produtos brasileiros foram submetidos a tarifas de até 50% em 2025, os exportadores praticamente não reduziram seus preços em dólares. Como consequência, o impacto foi transferido quase totalmente para compradores nos Estados Unidos.
Especialistas ouvidos pelo Valor avaliam que as conclusões são compatíveis com o que vem sendo observado na prática. “No fim do dia, tarifas são um tiro no pé de Trump”, afirmou Lívio Ribeiro, pesquisador do FGV Ibre e sócio da BRCG Consultoria. Segundo ele, o aumento dos custos tende a ser repassado gradualmente ao consumidor americano.
Na mesma linha, Otaviano Canuto, ex-vice-presidente do Banco Mundial, destacou que empresas podem absorver parte do impacto inicialmente, mas isso não é sustentável. “Mais cedo ou mais tarde elas terão que reajustar”, disse. Para ele, além dos consumidores, as indústrias que dependem de insumos importados também perdem competitividade.
Nesta semana, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) anunciou a intenção de impor tarifas de 25% sobre diversos produtos brasileiros com base em investigações conduzidas sob a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. Entre as justificativas citadas estão questões relacionadas ao Pix, decisões judiciais envolvendo a plataforma X e temas ambientais.
Além disso, o Brasil e outros países podem enfrentar uma sobretaxa adicional de 12% relacionada a alegações de trabalho forçado em cadeias produtivas. As medidas são vistas por economistas como uma tentativa de reconstruir a política tarifária ampla implementada por Trump em 2025 e posteriormente limitada por decisões judiciais.
O estudo do Kiel Institute também questiona a tese de que as tarifas possam impulsionar a reindustrialização americana. Os pesquisadores argumentam que exportadores tendem a buscar mercados alternativos e que muitos importadores dos EUA mantêm relações comerciais de longo prazo com fornecedores estrangeiros, dificultando substituições rápidas.
Para Carlos Primo Braga, professor associado da Fundação Dom Cabral e ex-diretor do Banco Mundial, as novas iniciativas fazem parte de uma estratégia global dos Estados Unidos. “Existe um aspecto político em relação ao Brasil, mas é importante o Brasil reconhecer que isso é parte de uma estratégia global dos Estados Unidos em relação à utilização de tarifas”, afirmou.
Diante desse cenário, especialistas defendem que o Brasil amplie a diversificação de seus mercados de exportação e avance em acordos comerciais, como o tratado entre Mercosul e União Europeia, para reduzir a dependência do mercado americano.



