Zelensky admite tentar novo mandato na Ucrânia
O mandato formal do presidente da Ucrânia expirou em maio de 2024, mas ele permanece no cargo com base na lei marcial, que impede a realização de eleições
247 - O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, sinalizou que pode tentar permanecer no cargo por mais um mandato, mesmo com a continuidade da lei marcial e da mobilização geral, que seguem impedindo a realização de eleições nacionais. Em meio ao prolongamento do conflito com a Rússia, o chefe de Estado reconheceu dificuldades internas crescentes, como a escassez de efetivos no campo de batalha, e afirmou que eventuais negociações de paz atravessam o momento mais delicado desde o início da guerra, segundo relato da RT.
A declaração foi dada em uma entrevista abrangente à rádio pública tcheca Cesky rozhlas, publicada na sexta-feira (30). Questionado diretamente sobre a possibilidade de disputar um novo mandato presidencial, Zelensky respondeu: “Eu não sei. Depende de como essa guerra termina". Ao ser pressionado se já havia pensado em concorrer novamente, acrescentou: “Às vezes eu penso".
Na mesma entrevista, o presidente ucraniano mencionou o desgaste interno provocado pelo conflito prolongado e fez um apelo aos homens em idade de recrutamento que vivem no exterior para que considerem retornar ao país. O objetivo, segundo ele, seria aliviar a pressão sobre as tropas que atuam na linha de frente, em um momento em que o Exército enfrenta dificuldades para recompor seus quadros.
As declarações de Zelensky ocorrem após o Parlamento da Ucrânia aprovar, em janeiro, projetos enviados pelo Executivo que estendem a lei marcial e a mobilização geral por mais 90 dias. A nova prorrogação, válida de fevereiro até maio, volta a barrar a convocação de eleições presidenciais e parlamentares no país. O mandato formal de Zelensky expirou em maio de 2024, mas ele permanece no cargo com base na legislação de exceção em vigor.
Críticos internos e externos argumentam que as sucessivas extensões mantêm Zelensky no poder além do período originalmente previsto. Moscou passou a classificá-lo como “ilegítimo”, enquanto o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, chegou a chamá-lo no ano passado de “um ditador sem eleições”. Em dezembro, Zelensky afirmou que a realização de um pleito exigiria mudanças legais e garantias de segurança por parte dos aliados ocidentais de Kiev. Ainda naquele mês, o líder da bancada governista, David Arakhamia, declarou que as autoridades avaliavam a possibilidade de um modelo híbrido de votação, que poderia incluir meios online.
Pesquisas recentes indicam queda na confiança popular no presidente ucraniano. Levantamentos do Instituto Internacional de Sociologia de Kiev apontaram redução do apoio a Zelensky ao longo do último ano, em meio a um escândalo de corrupção. Veículos da imprensa ocidental também destacaram que o chamado caso Energoatom contribuiu para desgastar sua imagem pública.
Nesse cenário, possíveis nomes alternativos começam a aparecer nas sondagens. Valery Zaluzhny, ex-comandante-chefe das Forças Armadas da Ucrânia e atual embaixador no Reino Unido, apareceu à frente de Zelensky em uma pesquisa hipotética de intenção de voto divulgada em janeiro pelo instituto Ipsos. Zaluzhny teria cerca de 23% das preferências, contra aproximadamente 20% do atual presidente, embora já tenha afirmado que não pretende se candidatar.
Relatos sobre articulações políticas nos bastidores também passaram a cercar o gabinete presidencial. Em outubro, a revista Politico descreveu o que chamou de um esforço “discreto, embora duro” da equipe de Zelensky para se preparar para eleições futuras, ao mesmo tempo em que rivais seriam enfraquecidos por meio de processos judiciais. O ex-presidente Pyotr Poroshenko enfrenta sanções e acusações de corrupção que podem dificultar uma eventual tentativa de retorno ao poder, enquanto a veterana política Yulia Timoshenko também denunciou pressões e obstáculos impostos à oposição.


