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Bolsa brasileira atrai mais de R$ 23 bilhões em janeiro, quase todo o fluxo estrangeiro de 2025

Entrada recorde de capital externo impulsiona Ibovespa e reflete rotação global de investimentos

Painel de cotações na B3, em São Paulo 19/10/2021 (Foto: REUTERS/Amanda Perobelli)

247 - O mercado acionário brasileiro registrou, em janeiro, um dos movimentos mais expressivos de entrada de capital estrangeiro dos últimos anos. Até terça-feira (28), investidores internacionais aportaram mais de R$ 23 bilhões na Bolsa, volume que já representa mais de 90% de todo o fluxo externo observado ao longo de 2025. O resultado ajudou a impulsionar o Ibovespa, que acumulou valorização de 12,56% no mês, o melhor desempenho mensal em cinco anos.

Os dados constam de levantamento da B3 e foram divulgados em reportagem do jornal O Globo. O montante registrado em janeiro é o maior para um único mês desde janeiro de 2022 e praticamente iguala o total investido por estrangeiros em todo o ano passado, quando o fluxo líquido somou R$ 25,47 bilhões.

Para Raphael Figueredo, estrategista de ações da XP, o movimento confirma uma tendência que já vinha se desenhando no mercado global, embora a intensidade tenha surpreendido. “De fato, há uma entrada muito forte de recursos internacionais. Isso era algo que poderia ser esperado, talvez não nessa magnitude em janeiro”, afirmou.

Segundo Figueredo, parte relevante desse fluxo está associada ao cenário externo, especialmente à redução da exposição de investidores aos Estados Unidos diante das incertezas provocadas pelas políticas econômicas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. “O mundo passa a questionar um pouco a institucionalidade dos EUA, e isso faz com que investidores reduzam a alocação lá para buscar praças mais competitivas, que paguem taxas de juros mais elevadas e ofereçam diferencial atrativo”, disse.

Nesse contexto, os mercados emergentes tendem a se beneficiar, e o Brasil aparece como um dos principais destinos, segundo o estrategista. Ele destaca o peso do país no mercado de commodities e sua relevância regional. Aproximadamente 30% do Ibovespa está ligado ao setor, e o Brasil responde por mais da metade do mercado acionário da América Latina.

Além do desempenho das matérias-primas, Figueredo ressalta que a Bolsa brasileira segue negociando a múltiplos inferiores aos de outros emergentes e apresenta resultados corporativos consistentes. “A Bolsa brasileira ainda negocia com desconto em relação a outros emergentes e conta com empresas mostrando balanços fortes, com uma temporada positiva no terceiro trimestre e projeções favoráveis para o quarto”, afirmou.

No cenário doméstico, ele avalia que o ano eleitoral pode gerar episódios pontuais de volatilidade, mas observa que, até o momento, esses riscos têm sido absorvidos pelos investidores dentro de uma estratégia mais ampla de alocação em economias emergentes. “A discussão sobre o enfraquecimento do dólar favorece essas economias. Vimos algo parecido no boom das commodities entre 2002 e 2008, e agora há um movimento semelhante”, disse.

A economista-chefe da GEP Brasil, Tania Grofredo, também associa o forte ingresso de recursos ao ambiente internacional e à expectativa de cortes de juros nas principais economias. “Com a perspectiva de queda das taxas nos Estados Unidos e no Brasil, aumenta o apetite por risco e a busca por mercados que ainda oferecem prêmio elevado”, afirmou. Para ela, o diferencial de juros brasileiro e a elevada exposição a commodities explicam o destaque do país. “O Brasil acaba entrando naturalmente no radar por combinar juros altos, empresas grandes e liquidez, além do peso no índice regional”, disse.

Já Marcelo Freller, estrategista de produtos de investimento do C6 Bank, avalia que o movimento deve ser interpretado principalmente como parte de uma rotação global de portfólios. “O principal ponto é que esse fluxo é global. Se a gente olha México, Chile e outros emergentes, o movimento é muito parecido. É pouco provável dizer que isso tem relação com fatores locais, sejam políticos ou econômicos”, afirmou.

Segundo Freller, não houve mudanças recentes no cenário doméstico que, isoladamente, justificassem a forte valorização da Bolsa brasileira. “Do ponto de vista político, não tivemos nenhuma novidade importante neste início de ano. E nem em juros ou commodities houve uma alteração expressiva que tornasse o mercado brasileiro repentinamente mais atrativo. As commodities que mais subiram foram ouro e prata, que não são centrais para o Brasil”, disse.

Ele lembra que o atual fluxo ocorre após um longo período de concentração de investimentos globais nos Estados Unidos desde a crise financeira de 2008. “Foram 15 anos em que os ativos americanos dominaram e drenaram liquidez do resto do mundo. Há cerca de 13 meses vemos uma reversão gradual, com saída de recursos dos EUA em busca de outros mercados”, afirmou.

Apesar desse movimento, Freller pondera que os Estados Unidos seguem relevantes no longo prazo. “Ainda de longe os Estados Unidos são dominantes no longo prazo, mas com a Bolsa cara, juros em queda e um cenário político mais errático, é natural que investidores busquem alternativas que ficaram de lado por muito tempo”, disse.

Para os próximos meses, a avaliação é de continuidade do processo de diversificação, sem mudanças abruptas. “Ainda existe muito dinheiro alocado em ativos americanos, tanto por pessoas físicas quanto por instituições. Esse movimento tende a seguir, mas sem grandes quebras de paradigma”, afirmou. No caso brasileiro, ele ressalta que o calendário eleitoral pode provocar um comportamento distinto em relação a outros emergentes. “O Brasil entra em um período de maior volatilidade política. Os ativos podem se sair melhor ou pior do que os globais, mas dificilmente vão repetir exatamente o mesmo padrão. A tendência é algum descolamento, para cima ou para baixo”, concluiu.

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