Brasil desperdiça 20% da energia renovável e perde R$ 6,5 bilhões em 2025
Excesso de oferta levou o sistema elétrico ao limite de segurança em 16 dias e expôs falhas estruturais na operação e no modelo tarifário
247 - O Brasil deixou de aproveitar cerca de 20% de toda a energia renovável que poderia ter sido gerada em 2025, segundo levantamento técnico sobre o desempenho do sistema elétrico nacional ao longo do ano. O desperdício ocorreu principalmente em usinas solares e eólicas e resultou em perdas econômicas estimadas em R$ 6,5 bilhões.
As informações constam do Balanço Anual do Curtailment 2025, estudo elaborado pela consultoria Volt Robotics, que analisou os cortes forçados de geração renovável no Sistema Interligado Nacional. O relatório mostra que, em 16 dias de 2025, o sistema operou próximo do limite inferior de segurança, devido ao excesso de oferta de energia, situação registrada apenas uma vez em todo o ano de 2024.
De acordo com o levantamento, os cortes médios de geração solar e eólica somaram 4.021 MW médios ao longo do ano, volume correspondente à energia que deixou de ser absorvida pelo sistema elétrico. O fenômeno é conhecido como curtailment e ocorre quando usinas são impedidas de gerar, mesmo havendo disponibilidade de sol e vento.
Concentração dos cortes em 2025
Embora os cortes já viessem crescendo nos anos anteriores, 2025 concentrou os maiores volumes já registrados. Os meses de agosto, setembro e outubro apresentaram os picos históricos de curtailment, com descarte de volumes de energia equivalentes à produção mensal de grandes usinas hidrelétricas.
O relatório identifica três tipos principais de cortes. Os cortes por razão energética ocorrem quando a oferta supera o consumo. Os cortes por razão elétrica decorrem de limitações na rede de transmissão, como manutenções ou falhas. Já os cortes por razão de confiabilidade são aplicados para evitar riscos à estabilidade do sistema, mesmo quando a rede está disponível.
Risco sistêmico por excesso de energia
Um dos dados centrais do estudo é o aumento expressivo de dias críticos. Em 2025, foram 16 dias em que os cortes ultrapassaram 80% da geração de referência, indicador de operação próxima ao limite de segurança. Em 2024, esse cenário foi registrado apenas uma vez.
Segundo o relatório, o crescimento acelerado da geração renovável, especialmente da solar, superou a capacidade de adaptação do sistema elétrico. Esse cenário levou o Operador Nacional do Sistema Elétrico a estruturar um plano emergencial, com apoio institucional da Agência Nacional de Energia Elétrica, prevendo inclusive cortes em usinas de pequeno porte conectadas às redes de distribuição.
Domingos de manhã concentraram episódios críticos
A análise aponta que boa parte dos dias críticos ocorreu aos domingos pela manhã. Nesse período, a demanda cai com a redução das atividades comerciais e industriais, enquanto a geração solar permanece elevada e, em alguns casos, combinada com ventos intensos.
Essa combinação resultou em sobra de energia, limites de rede atingidos e necessidade de cortes forçados. O relatório indica que o domingo passou a funcionar como um teste recorrente de estresse do sistema elétrico ao longo de 2025.
Medidas operacionais no fim do ano
O risco de agravamento foi maior no fim de dezembro e início de janeiro, quando a demanda costuma cair por conta de férias e recessos. Em 2025, decisões operacionais contribuíram para evitar um cenário mais crítico. No dia de Natal, quinta-feira (25), o despacho térmico foi de 6,7 GW médios, reduzindo-se para 6,3 GW médios na quinta-feira (1º) de janeiro de 2026.
Em contraste, no domingo (26) de outubro, um dos 16 dias críticos do ano, o despacho térmico alcançou 11 GW médios, nível que contribuiu para elevar a tensão na operação do sistema.
Impactos econômicos
O relatório destaca que o curtailment teve efeitos diretos sobre receitas e contratos. Nos contratos regulados, os empreendedores perderam receita e arcaram com penalidades. No mercado livre, os geradores ficaram expostos ao Preço de Liquidação das Diferenças, sendo obrigados a comprar energia para cumprir contratos.
A partir da análise desses dois segmentos, a Volt Robotics estima que as perdas econômicas associadas aos cortes de geração renovável alcançaram R$ 6,5 bilhões em 2025.
Diferenças regionais
Os impactos variaram entre os estados. Minas Gerais, Ceará e Rio Grande do Norte registraram cortes médios de 27,4%, 25,8% e 24% da geração de referência, respectivamente. Já Rio Grande do Sul e Santa Catarina apresentaram desperdício de cerca de 4,5% da energia renovável potencial.
Ao longo do ano, Minas Gerais permaneceu de forma recorrente entre os estados mais afetados, ao lado de Ceará e Rio Grande do Norte.
Avaliação do sistema
O estudo conclui que o problema não está na capacidade de geração, mas no aproveitamento da energia disponível. Segundo a análise, o sistema elétrico brasileiro foi projetado para um cenário de escassez e não acompanhou, em termos de arquitetura e sinalização econômica, a rápida expansão das fontes renováveis.
O balanço de 2025 aponta que o curtailment deixou de ser um evento pontual e passou a ocorrer de forma recorrente, exigindo ajustes regulatórios, operacionais e de infraestrutura para reduzir o desperdício de energia limpa.

