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Demanda asiática impulsiona exportações de petróleo do Brasil

Vendas externas crescem no 1º trimestre com destaque para China e Índia

Plataforma da Petrobras (Foto: REUTERS/PILAR OLIVARES)

247 - O aumento da exportação de petróleo do Brasil bateu recorde no primeiro trimestre de 2026, impulsionado principalmente pela forte demanda de países asiáticos, como China e Índia, em meio a tensões no Oriente Médio que afetaram o fluxo global da commodity.

De acordo com reportagem do jornal O Estado de S. Paulo, o avanço nas vendas externas elevou o total exportado pelo País para US$ 82,3 bilhões entre janeiro e março, superando os US$ 76,9 bilhões registrados no mesmo período de 2025 e estabelecendo o maior valor já apurado para um primeiro trimestre.

Petróleo lidera crescimento das exportações

O petróleo bruto teve papel central nesse desempenho. As vendas do produto cresceram 31% no período, alcançando US$ 12,562 bilhões. Segundo especialistas, o avanço está mais relacionado ao aumento do volume exportado do que aos preços.

A economista Julia Marasca, do Itaú, afirmou que o movimento já vinha sendo observado desde o fim de 2025. “Vemos essa melhora nas exportações desde o final do ano passado. E é uma melhora que veio principalmente pelo volume de exportação, não de preço”, disse.

Ela também destacou que a expansão da produção nacional, combinada com limitações na capacidade de refino, contribui para esse cenário. “A produção de petróleo brasileiro tem crescido e, como temos uma capacidade de refino limitada no País, todo excedente acaba virando exportação”, afirmou.

Produção elevada e limites estruturais

Dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) mostram que a produção brasileira atingiu 3,770 milhões de barris por dia em 2025, o maior nível já registrado, acima dos 3,358 milhões de barris diários de 2024.

Apesar do crescimento, há sinais de limitação estrutural. “As empresas já estão operando numa capacidade máxima de produção. E esse aumento é tão forte que tende a esbarrar nessa incapacidade”, avaliou Marasca. “É positivo no curto prazo, mas um ganho mais relacionado a isso depende da capacidade de produção do País.”

Conflito no Oriente Médio influencia mercado

O cenário internacional também teve papel decisivo. As tensões no Oriente Médio, com impacto direto no Estreito de Ormuz — responsável por cerca de 20% do transporte global de petróleo — reduziram o tráfego de navios e elevaram os preços da commodity, que chegaram a ultrapassar US$ 110.

Esse contexto levou países asiáticos a diversificar fornecedores. Para o pesquisador Lívio Ribeiro, da FGV/Ibre, esse movimento reforça uma tendência já em curso. “Há um cenário de diversificação dos ofertantes por causa do fechamento do Estreito de Ormuz e das questões relativas às hostilidades no Oriente Médio”, afirmou. “Na verdade, eu diria que está se ampliando uma tendência que estava sendo observada anteriormente.”

China e Índia ampliam compras

Os dados mostram crescimento expressivo das exportações para a Ásia. As vendas de petróleo bruto para a China saltaram de US$ 3,702 bilhões para US$ 7,192 bilhões no primeiro trimestre. Já para a Índia, passaram de US$ 577,4 milhões para US$ 1,027 bilhão.

A professora Daiane Santos, da UERJ, destacou o peso da China nesse desempenho. “A China aumentou consideravelmente a demanda por combustível brasileiro. E esse crescimento mascarou algumas quedas, como a exportação de combustível para os Estados Unidos”, disse.

Para os EUA, houve recuo nas compras, de US$ 1,065 bilhão para US$ 632,3 milhões no mesmo período.

Demanda global desigual e projeções

Apesar do crescimento da Ásia, a demanda global por petróleo apresenta sinais de desaceleração. Segundo relatório da Agência Internacional de Energia (AIE), a previsão é de queda de cerca de 80 mil barris por dia em 2026.

Ainda assim, a região asiática segue na contramão, com expectativa de aumento de 141 mil barris diários. “No geral, há uma queda de demanda por petróleo. Mas, se eu colocar uma lupa, eu vejo que não são todos os países com uma queda de demanda”, afirmou Daiane. “Os países da Ásia têm uma visão de crescimento maior neste ano.”

Revisão de projeções e riscos

Diante do desempenho do primeiro trimestre, o governo revisou suas projeções. O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços elevou a estimativa de exportações para 2026 de US$ 348,3 bilhões para US$ 364,2 bilhões, e o superávit comercial de US$ 68,1 bilhões para US$ 72,1 bilhões.

Especialistas, no entanto, alertam para riscos no cenário externo. “Não podemos olhar só para o efeito de curto prazo. Houve um ganho na largada, mas os preços de importação de outros produtos também vão crescer num ambiente em que há mais inflação global de maneira geral”, disse Ribeiro.

O presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, ressaltou a dependência de fatores externos. “Depender das exportações de commodities significa que não temos nenhum controle, porque sobem ao sabor dos acontecimentos”, afirmou.

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