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Alckmin resiste a plano do PT e sinaliza que não quer disputar eleição em São Paulo

Vice-presidente indica a aliados que só aceitará discutir movimentos eleitorais diretamente com o presidente Lula

Lula e Geraldo Akcmin Foto: Ricardo Stuckert / PR (Foto: Ricardo Stuckert / PR)

247 – O vice-presidente Geraldo Alckmin tem indicado a aliados que não pretende disputar um cargo eletivo por São Paulo caso seja descartado como vice na eventual chapa de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A avaliação, segundo relato publicado pelo jornal O Globo, é que há pressão de um núcleo do PT para que ele aceite uma candidatura majoritária no estado, mas o vice não estaria disposto a encarar esse desafio.

A movimentação ocorre num momento em que a permanência de Alckmin na chapa voltou a ser questionada após o presidente Lula admitir, pela primeira vez, a possibilidade de excluir o aliado da disputa presidencial. A hipótese se conecta à tentativa petista de atrair o MDB para uma composição nacional, com nomes como a ministra do Planejamento, Simone Tebet, passando a circular como alternativa em arranjos políticos.

Sinais do vice e a leitura do entorno

De acordo com a apuração, pessoas próximas a Alckmin enxergam que o vice não quer voltar ao tabuleiro eleitoral paulista, mesmo sendo um político profundamente identificado com o estado que governou por quatro mandatos. O entorno do vice-presidente também observa que a pressão interna para deslocá-lo para São Paulo surge como parte de uma negociação mais ampla, na qual setores do PT buscariam reorganizar a chapa presidencial e ampliar alianças.

Ainda assim, aliados ressaltam que Alckmin não deixará de ouvir o presidente Lula sobre o assunto, especialmente porque a relação entre ambos, construída desde a campanha de 2022, é descrita como marcada por lealdade e diálogo direto, sem intermediários. Ex-adversários, Lula e Alckmin se aproximaram naquele processo eleitoral, quando o então ex-tucano foi peça central da estratégia petista para ampliar alianças e derrotar Jair Bolsonaro.

Pressões no PT e a aposta em Haddad

Enquanto o vice sinaliza resistência, auxiliares que conversam sobre o tema avaliam que seria mais provável convencer o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, a disputar o Palácio Bandeirantes do que persuadir Alckmin a abrir mão da vice. O ponto de tensão, porém, é que Haddad já afirmou reiteradas vezes que não deseja concorrer ao governo paulista, mesmo sendo, para a cúpula petista, o “plano” mais consolidado para o estado.

Nesse cenário, petistas próximos ao presidente interpretam que Lula mencionou Alckmin e outros nomes publicamente também para reduzir o isolamento de Haddad diante de pressões recorrentes, vindas de figuras do governo, para que ele assuma uma candidatura em São Paulo. O tema, segundo o relato, já foi abordado por integrantes da Esplanada como Camilo Santana, Gleisi Hoffmann e Simone Tebet.

O que Lula disse e o recado para São Paulo

A discussão ganhou força depois de uma declaração do presidente em entrevista ao Portal UOL, na qual Lula mencionou possibilidades para a disputa paulista, incluindo Alckmin, Haddad e Simone Tebet. 

Lula: "Nós temos muito voto em São Paulo e temos condições de ganhar as eleições em São Paulo. Eu ainda não conversei com o Haddad, ainda não conversei com o Alckmin, mas eles sabem que têm um papel para cumprir em São Paulo. Eles sabem. A Simone (Tebet) também tem um papel para cumprir, também não conversei com ela".

A fala explicita a tentativa do presidente de manter opções em aberto e, ao mesmo tempo, sinaliza uma cobrança política: a de que quadros de peso do governo teriam “um papel” no maior colégio eleitoral do país. Para aliados, entretanto, a forma como essa cobrança será traduzida em decisões práticas dependerá do equilíbrio interno da coalizão e das negociações com partidos do centro.

Cenário nacional, MDB e a hipótese de troca na vice

Segundo a apuração, a reabertura do debate sobre a vice ocorre quando o PT busca atrair o MDB para uma “dobradinha” na corrida ao Palácio do Planalto. Esse tipo de movimento costuma implicar concessões na montagem da chapa e na distribuição de espaços políticos, o que alimenta especulações sobre mudanças.

Apesar disso, parte dos aliados de Lula afirma que aposta na manutenção do arranjo atual. A avaliação é que uma troca na vice só ganharia tração se houvesse uma alteração significativa do cenário nacional que levasse, formalmente, partidos como MDB, PSD ou Republicanos para a chapa, algo que, segundo esse grupo, não estaria no horizonte imediato.

Dentro dessa lógica, cresce também a ideia de que Alckmin poderia cumprir um papel central na campanha em São Paulo sem necessariamente concorrer a um cargo. A leitura é que ele poderia atuar como coordenador principal da estratégia eleitoral no estado, funcionando como ponte com setores que dialogam com sua trajetória política e sua rede de relações.

O peso do cargo e a “mudança” do estado desde 2018

Pessoas que convivem com Alckmin avaliam que ele realizou o objetivo de chegar ao Palácio do Planalto como vice de Lula e também como ministro da Indústria e Comércio. No cargo, segundo a mesma apuração, manteve interlocução com empresários, entidades e prefeitos, além de cumprir missões estratégicas, como a negociação da crise do “tarifaço” gerada por medidas impostas pelos Estados Unidos.

Aliados do vice-presidente também sustentam que São Paulo não é o mesmo desde que ele deixou o governo estadual, em 2018. O enfraquecimento do PSDB e a transformação do interior paulista, antes mais associado ao tucanato e hoje mais próximo do bolsonarismo, aparecem como fatores centrais para explicar a resistência do vice a um retorno eleitoral. A avaliação é que há forte resistência à gestão petista em parcelas do estado, especialmente fora da capital.

O PSB, João Campos e a blindagem de Alckmin

Outro componente decisivo é a posição do PSB, partido de Alckmin. No comando da legenda, argumenta-se que o presidente Lula teria dificuldades para sugerir o “escanteamento” do vice. O presidente do partido, João Campos, é candidato ao governo de Pernambuco e deve enfrentar Raquel Lyra, do PSD, também próxima de Lula, num cenário que tende a demandar coesão interna e força nacional.

Correligionários de João Campos afirmam que, para ele, é fundamental manter Alckmin como vice na chapa presidencial, o que eleva o custo político de qualquer rearranjo. Procurados, segundo o relato, Alckmin e João Campos não se manifestaram.

Dois caminhos em disputa e o nó político do PT

A disputa de bastidores, portanto, se organiza em torno de dois caminhos. No primeiro, Alckmin permanece como vice, e o PT tenta construir uma estratégia em São Paulo com Haddad, mantendo o ministro como principal aposta, ainda que ele resista à candidatura. No segundo, a pressão por uma acomodação mais ampla com partidos do centro ganha corpo, e o debate sobre a vice se intensifica, com impacto direto sobre o desenho nacional e sobre a engenharia política nos estados.

Ao mencionar papéis a cumprir em São Paulo, o presidente também indicou que a equação envolve mais de um nome e mais de uma função. Lula: "Eles sabem que têm um papel para cumprir em São Paulo. Eles sabem".

Por ora, o dado mais concreto é o recado transmitido pelo vice a seus aliados: se for descartado como vice, ele não pretende migrar automaticamente para uma candidatura paulista. Esse posicionamento tensiona a estratégia de setores do PT e reforça a centralidade de Lula como árbitro final, num processo em que alianças nacionais, disputas estaduais e cálculos eleitorais se cruzam no principal estado do país.

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