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Alckmin defende ampliar comércio e investimentos com a Rússia em reunião de alto nível em Brasília

Vice-presidente e premiê Mikhail Mishustin assinam declaração conjunta e apontam frentes como indústria, agronegócio, energia, ciência e infraestrutura

Geraldo Alckmin (Foto: REUTERS/Adriano Machado)

247 – O vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, afirmou que o Brasil quer “ampliar, diversificar e qualificar” a cooperação econômica e comercial com a Rússia, durante a VIII Reunião da Comissão Brasileiro-Russa de Alto Nível de Cooperação (CAN), realizada na quinta-feira (5), em Brasília. O encontro foi copresidido por Alckmin e pelo primeiro-ministro russo, Mikhail Mishustin, e terminou com a assinatura de uma declaração conjunta reforçando o compromisso de ampliar projetos bilaterais.

As informações constam de reportagem da Agência Gov, da EBC, que detalhou as principais falas das autoridades e os eixos estratégicos discutidos no encontro, considerado a principal instância de coordenação intergovernamental entre os dois países no campo econômico e de investimentos.

Relação “estrutural” e oportunidades concretas

Na abertura da reunião, Alckmin sustentou que Brasil e Rússia reúnem características econômicas que, combinadas, criam espaço para uma agenda de expansão. Segundo ele, ambos são países de grande escala, com base produtiva ampla, recursos naturais considerados estratégicos, capacidade tecnológica e mercados internos relevantes.

Em sua intervenção, o vice-presidente resumiu o diagnóstico e o objetivo da agenda bilateral ao afirmar: “Brasil e Rússia são economias de grande escala, dotadas de ampla base produtiva, recursos naturais estratégicos, capacidade tecnológica e mercados internos relevantes. Essa combinação cria oportunidades concretas para ampliar, diversificar e qualificar nossa cooperação econômica e comercial”. A mensagem, apresentada em tom propositivo, buscou ancorar a CAN em uma lógica de complementariedades e ganhos mútuos.

O encontro, na prática, funcionou como um mecanismo de alinhamento político e técnico para orientar iniciativas, destravar cooperações setoriais e sinalizar ao setor empresarial de ambos os lados uma disposição de continuidade e aprofundamento do diálogo econômico, em um cenário internacional marcado por disputas geopolíticas e reacomodação de cadeias produtivas.

Indústria, agronegócio, energia e inovação no centro da pauta

Alckmin listou áreas que, segundo ele, expressam “prioridades claras” para o avanço conjunto, indicando que a comissão pretende ser um instrumento de coordenação de políticas e projetos. Entre os temas mencionados, ele destacou cooperação industrial, fortalecimento do agronegócio, energia, ciência, tecnologia e inovação, infraestrutura, logística e desenvolvimento sustentável.

Ao detalhar o escopo, Alckmin afirmou: “A agenda da CAN reflete prioridades claras: cooperação industrial, fortalecimento do agronegócio, energia, ciência, tecnologia e inovação, infraestrutura, logística e desenvolvimento sustentável. Em todas essas áreas, buscamos promover integração produtiva, parcerias empresariais e cooperação tecnológica”. Na formulação, aparece uma ênfase em integração produtiva e transferência tecnológica, além de parcerias empresariais como motor para novos investimentos.

O discurso também conectou a aproximação com Moscou ao esforço interno de modernização do parque industrial brasileiro. Alckmin enquadrou a política do governo como uma “neoindustrialização”, associada a inovação, sustentabilidade e inclusão, indicando que a estratégia busca reposicionar o Brasil em cadeias globais de valor, com foco em digitalização e transição verde.

Nesse ponto, o vice-presidente declarou: “O governo brasileiro tem adotado uma política consistente de neoindustrialização, baseada em inovação, sustentabilidade e inclusão. Queremos uma indústria mais verde, mais digital e mais integrada às cadeias globais de valor”. A fala procura aproximar a cooperação bilateral de um objetivo maior de política econômica, com peso simbólico e estratégico.

Balança comercial cresce e sinaliza assimetrias

A CAN também foi apresentada como um espaço para impulsionar negócios e estimular investimentos produtivos. O panorama do comércio bilateral, porém, indica um desequilíbrio relevante no fluxo de bens. De acordo com os números divulgados, em 2025 a corrente comercial Brasil–Rússia alcançou US$ 10,9 bilhões, com US$ 1,5 bilhão em exportações brasileiras e US$ 9,4 bilhões em importações.

Os dados ajudam a explicar por que a palavra “qualificar” apareceu com destaque na fala de Alckmin: além de ampliar volumes, o Brasil sinaliza interesse em diversificar a pauta e construir parcerias que agreguem tecnologia, conteúdo produtivo e investimentos capazes de fortalecer a indústria nacional. A leitura implícita é a de que o relacionamento pode avançar para além do comércio tradicional, incorporando projetos em ciência, energia, infraestrutura e inovação.

A discussão sobre logística e integração produtiva, citada como prioridade, aponta para uma preocupação prática: encurtar distâncias operacionais, reduzir custos e criar mecanismos que permitam ampliar trocas em setores de maior valor agregado. A menção a desenvolvimento sustentável, por sua vez, se alinha a tendências de reindustrialização verde e a exigências crescentes em mercados internacionais.

Mishustin diz que cooperação ganha força com “novos projetos”

Do lado russo, Mishustin afirmou que a cooperação entre os dois países vem evoluindo e destacou a ampliação de projetos conjuntos. Ele posicionou o relacionamento em um quadro mais amplo, ressaltando a continuidade do diálogo e a expansão para diferentes áreas. Em sua fala, declarou: “A cooperação entre Brasil e Rússia está se desenvolvendo positivamente e, o mais importante, está se preenchendo com novos projetos benéficos para diferentes áreas, e estamos interagindo ativamente na área comercial e econômica”.

O primeiro-ministro também definiu o Brasil como parceiro central para a Rússia na América Latina e associou o intercâmbio bilateral à segurança alimentar, mencionando o papel brasileiro como fornecedor de alimentos. Mishustin afirmou: “O Brasil, para nós, é o principal parceiro econômico na América Latina e concentra metade de todo o volume comercial, além de manter posições de liderança entre os fornecedores de produtos alimentares, principalmente de carne e café. A cooperação permite contribuir conjuntamente para garantir a segurança alimentar.”

A ênfase na segurança alimentar e no fornecimento de alimentos indica um interesse russo em assegurar fluxos estáveis de produtos essenciais e reforça a relevância do agronegócio como eixo estruturante da relação econômica. Ao mesmo tempo, a fala sobre “novos projetos” sugere que Moscou busca ampliar o relacionamento para além do comércio de commodities, em linha com as áreas listadas por Alckmin.

Declaração conjunta e referência ao encontro Lula–Putin

Ao final da reunião, Alckmin e Mishustin assinaram uma declaração conjunta na qual confirmaram o compromisso de continuidade da parceria, com o objetivo de ampliar projetos de cooperação “nas diversas esferas” consideradas de interesse nacional para ambos os países. O documento também registrou avaliação positiva sobre a dinâmica do diálogo político bilateral, descrito como construtivo e baseado em confiança.

A declaração enfatizou ainda a importância do encontro do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com o presidente da Federação da Rússia, Vladimir Vladimirovich Putin, ocorrido em Moscou, em 9 de maio de 2025. A referência, feita no contexto do texto final, sugere que o entendimento no nível presidencial é visto como um marco político para sustentar a agenda econômica e dar respaldo institucional à continuidade dos projetos.

Com a CAN, Brasil e Rússia voltam a sinalizar que pretendem manter um canal estruturado de coordenação para comércio, investimentos e cooperação econômica. As falas de Alckmin e Mishustin indicam a tentativa de combinar objetivos imediatos — ampliar trocas e projetos — com metas de médio prazo, como integração produtiva, cooperação tecnológica e alinhamento a estratégias de desenvolvimento, em um cenário em que relações econômicas passam a ser também instrumentos de soberania e planejamento nacional.

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