Pastor condenado por corrupção enviou R$ 1,8 milhão em emendas para shows e carnaval
TCU investiga uso de emendas Pix destinadas por Pastor Gil e Josimar Maranhãozinho para eventos em Zé Doca, no Maranhão
247 - O Tribunal de Contas da União (TCU) investiga a destinação de recursos de emendas parlamentares para shows e eventos no interior do Maranhão envolvendo os deputados federais Josimar Maranhãozinho e Pastor Gil, ambos do PL do Marnhão. No total, os parlamentares enviaram R$ 1,8 milhão em recursos públicos para eventos realizados em Zé Doca, município controlado politicamente pela família de Josimar.
Segundo a investigação, Pastor Gil destinou R$ 1,5 milhão para estruturas provisórias do Carnaval de 2024 e outros R$ 300 mil para a contratação do cantor Tarcísio do Acordeon, que se apresentou nas comemorações do Dia das Mães do mesmo ano. Na época, a prefeitura de Zé Doca era administrada por Josinha Cunha, irmã de Josimar Maranhãozinho. Atualmente, o município é comandado por Flavinha Cunha, sobrinha do parlamentar.
O TCU abriu uma Tomada de Contas Especial para apurar possíveis danos ao erário. Além da ex-prefeita Josinha Cunha, a secretária de Finanças Samara Oliveira e servidores responsáveis pela fiscalização dos contratos também são investigados.
Entre as suspeitas levantadas pelos auditores estão irregularidades na justificativa dos gastos milionários com o Carnaval. A prefeitura alegou que contrataria quatro bandas de renome nacional, mas, segundo a investigação, apenas dois grupos desse porte participaram do evento: Calcinha Preta e Mastruz com Leite.
Outra frente da investigação do TCU envolve uma emenda de R$ 900 mil enviada por Josimar Maranhãozinho ao município de Centro de Guilherme, cidade administrada à época por sua esposa, a deputada federal Detinha, presidente estadual do PL no Maranhão.
A auditoria identificou pagamentos feitos à empresa A. de J. C. Cutrim Ltda sem comprovação documental da execução dos serviços contratados. Segundo os técnicos, as notas fiscais apresentavam descrições genéricas, impossibilitando verificar quantas estruturas, bandas ou equipamentos foram efetivamente entregues. Os documentos ainda continham campos obrigatórios em branco, mesmo assim os pagamentos foram autorizados.
As prefeituras de Zé Doca e Centro de Guilherme enviaram respostas semelhantes ao portal, afirmando que os recursos foram executados “em conformidade com a legislação vigente”.
Em março deste ano, o Supremo Tribunal Federal condenou Josimar Maranhãozinho, Pastor Gil e o ex-deputado federal João Bosco Costa por participação em um esquema de cobrança de propina em troca da liberação de emendas parlamentares.
A denúncia apresentada pelo Ministério Público Federal apontou Josimar Maranhãozinho como líder do grupo responsável por direcionar os recursos públicos e exigir devolução de parte do dinheiro das prefeituras beneficiadas.
Apesar da condenação por corrupção passiva, Pastor Gil continua exercendo o mandato na Câmara dos Deputados porque cumpre pena em regime semiaberto, e a perda do mandato depende de deliberação da própria Câmara. Josimar Maranhãozinho também mantém o mandato, embora esteja licenciado.
O esquema investigado envolvia emendas destinadas à saúde pública em municípios maranhenses. Os recursos deveriam financiar equipamentos hospitalares, atendimentos ambulatoriais de média e alta complexidade e ações da atenção básica.
Um dos casos analisados pelo STF ocorreu em São José do Ribamar, cidade que recebeu R$ 6,6 milhões em emendas parlamentares dos três condenados. Segundo o Ministério Público Federal, após a liberação dos recursos, o grupo passou a pressionar o prefeito para devolver R$ 1,6 milhão em propina.
De acordo com a denúncia, as cobranças começaram por meio do agiota Josival Silva, conhecido como Pacovan. Posteriormente, os próprios parlamentares teriam atuado diretamente nas pressões, inclusive por mensagens de WhatsApp e publicações patrocinadas em blogs locais.
Interceptações obtidas pelo MPF mostraram ainda que Josimar Maranhãozinho orientava Pastor Gil sobre quais municípios deveriam receber as emendas parlamentares. Conversas também revelaram a participação de Thalles Costa, filho de João Bosco Costa, na intermediação dos repasses e negociações políticas relacionadas às emendas parlamentares.



