Relatório mostra impulsionamento de posts contra Lula por grupo ligado a Flávio Bolsonaro
Levantamento aponta 55 apoiadores com anúncios pagos. O PT acionou a Justiça Eleitoral
247 - Pelo menos 55 apoiadores da candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência da República investiram em impulsionamento de publicações contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) após o desfile da escola de samba Acadêmicos de Niterói (RJ), no carnaval deste ano. Segundo o jornal O Estado de S.Paulo, as informações constam de um levantamento feito pelo PT que identificou os pagamentos nas plataformas digitais.
A lista com 70 páginas chegou ao Palácio do Planalto e reúne nomes de políticos e influenciadores que patrocinaram conteúdos críticos ao presidente. Entre os citados está o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), apontado como o que mais desembolsou recursos, com valores entre R$ 600 e R$ 699.
De acordo com a reportagem, senadores, deputados federais e estaduais, vereadores e até parentes de políticos teriam participado de uma ação articulada para ampliar o alcance de postagens que associavam o desfile a críticas ao governo. Os valores pagos para impulsionar conteúdos variaram de R$ 100 a R$ 699, sendo R$ 300 a faixa intermediária mais comum.
Na semana passada, o Partido dos Trabalhadores protocolou cinco ações no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A legenda sustenta que Flávio Bolsonaro, o PL, o governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), e aliados teriam utilizado conteúdos falsos com o objetivo de influenciar o cenário eleitoral.
As publicações patrocinadas associavam Lula a acusações de corrupção e a críticas envolvendo segmentos religiosos, especialmente evangélicos, após uma ala da escola de samba criticar os conservadores ao apresentar fantasias representando latas com a inscrição “família em conserva”.
Nomes
O empresário Renato Bolsonaro, irmão de Jair Bolsonaro e pré-candidato a deputado federal pelo PL, também aparece na lista que circula no Planalto, ao lado de influenciadores digitais.
O deputado Paulo Pereira da Silva, o Paulinho da Força (Solidariedade-SP), utilizou inteligência artificial para criar um vídeo em que Lula aparece fantasiado na Avenida Marquês de Sapucaí, ao lado da primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja. No material, um jingle satírico afirma: “Eu sou o Lula, e você me conhece, prometi picanha e entreguei confete. Mas não se estresse. Sou Lula, me dá um dinheiro aí”. O vídeo mostra ainda um carro alegórico com bandeiras que trazem as palavras “mensalão”, “petrolão” e “roubo do INSS”.
Ao comentar o impulsionamento, Paulinho declarou que “se eles pagaram o carnaval, por que a gente não pode pagar o impulsionamento de uma postagem na rede social?”. “O PT vai entrar na Justiça falando o quê? O dinheiro usado foi meu, não foi dinheiro público”, acrescentou.
As postagens do deputado alcançaram 187,5 mil visualizações. Ricardo Nunes liderou em volume de interações, com alcance estimado entre 375 mil e 400 mil. Procurado, o prefeito não se manifestou.
Em uma das mensagens impulsionadas, Nunes escreveu: “aos amigos, tudo. Aos inimigos, a lei. Acorda, Brasil”, ao compartilhar vídeo em que o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), questiona critérios adotados em relação ao desfile. Tarcísio afirmou: “se o desfile (...) não foi propaganda antecipada, o que será, então? Por que não haverá o mesmo rigor agora? E, não havendo, quanto elásticas serão as interpretações a partir deste momento?”, classificando a apresentação como “propaganda política descarada” e “desrespeito aos evangélicos”.
No ranking de maior engajamento, Paulinho da Força aparece em segundo lugar, seguido pelo deputado estadual Renan Jordy (PL-RJ), com 112,5 mil interações, e pelo secretário de Governo de Minas Gerais, Marcelo Aro, com 110 mil.
Em vídeo, Aro declarou que o jingle das campanhas de Lula foi entoado “70 vezes” no desfile. “Para piorar tudo, a escola de samba ainda fez uma ala chamada de Neoconservadores. E sabe quem eles colocaram lá? O pessoal do agronegócio (...), os evangélicos, os católicos e os conservadores em geral”, disse. “Zombaram de quem conserva valores e princípios. Para eles, quem presta são os revolucionários, os comunistas e os que querem destruir a família.”
Relator da PEC da Segurança Pública, o deputado Mendonça Filho (União Brasil-PE) também patrocinou conteúdo intitulado “O PT sambando na cara dos brasileiros com dinheiro público”. “Essa lista parece coisa de partido totalitário que quer intimidar adversários, mas não me intimidam. Aqui não é ditadura”. E completou: “Eu sustento a minha posição. Quem está errado é quem usou o dinheiro público para essa aberração e agora vem com essa atitude autoritária”, ressaltou.
Mendonça afirmou ainda que “todo político” impulsiona publicações e classificou a prática como “cotidiana”. A legislação atual proíbe impulsionamento pago de propaganda eleitoral negativa. O TSE, porém, propôs entendimento segundo o qual críticas a governos, mesmo patrocinadas nas redes, não configurariam propaganda antecipada negativa, desde que não façam referência direta às eleições.
Também constam no relatório os deputados Eduardo Pazzuello (PL-RJ) e Júlia Zanatta (PL-SC), além do senador Dr. Hiran (PP-RR). Nenhum deles comentou o assunto. O caso amplia o debate sobre os limites do impulsionamento pago nas redes sociais e seus impactos no ambiente político e eleitoral brasileiro.


