"Soberbo e possessivo": funcionários de prédio relatam comportamento bizarro de tenente-coronel acusado de matar esposa PM
O histórico de discussões entre o casal também foi mencionado por moradores
247 - O caso da morte da soldado Gisele Alves Santana ganhou novos elementos com o avanço das investigações, incluindo relatos de vizinhos e funcionários do condomínio onde ela vivia com o marido, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto. As informações foram divulgadas pelo portal Metrópoles.
De acordo com depoimentos colhidos pela Polícia Civil, moradores do edifício afirmaram ter “receio” do comportamento do militar. Uma funcionária do condomínio relatou que os vizinhos o consideravam uma pessoa “reservada e rigorosa com a conduta dos funcionários”, além de demonstrar postura considerada “fechada e até mesmo soberba”.
Outros relatos reforçam a percepção de isolamento e controle. Moradores disseram que o tenente-coronel não respondia a cumprimentos em áreas comuns. Uma vizinha descreveu um episódio em que encontrou o casal no elevador e afirmou que Gisele permaneceu de cabeça baixa durante todo o trajeto. Ao chegarem ao andar, segundo ela, o militar “apressou-se para esconder a esposa para que eles não a observassem, denotando possessividade“.
Testemunhas também indicaram que a policial raramente era vista sozinha. Segundo uma moradora, Geraldo a acompanhava com frequência, inclusive em atividades cotidianas, como idas à academia, “mesmo que ele não estivesse vestindo roupas apropriadas para fazer exercícios”. A mesma testemunha afirmou ainda que “nunca viu Gisele maquiada”, informação que corrobora relatos da família da vítima sobre possíveis restrições impostas pelo marido.
O histórico de discussões entre o casal também foi mencionado por moradores, que relataram ter ouvido brigas frequentes vindas do apartamento.Paralelamente aos depoimentos, os laudos periciais reforçaram a suspeita de feminicídio e indicaram possível tentativa de ocultação de provas. Exames com uso de luminol identificaram vestígios de sangue na bermuda do tenente-coronel, na toalha utilizada por ele e em diversas partes do banheiro, como o box, paredes e registros do chuveiro.
Segundo o delegado responsável pelo caso, “A única explicação tecnicamente compatível com a presença de sangue nos registros de água, na parede, no chão do box e em sua bermuda é que o investigado entrou no banheiro já impregnado de sangue, que lavou sob o chuveiro antes de receber qualquer equipe de socorro, em conduta deliberada de destruição de evidências”.
O delegado também afirmou que o militar “tomou banho com o propósito deliberado de eliminar os vestígios de sua participação no evento letal” e concluiu: “Trata-se de prova que confirma, simultaneamente, a autoria do feminicídio e a prática da fraude processual prevista no art. 347, parágrafo único, do Código Penal”.
Os resultados periciais contradizem a versão apresentada por Geraldo, que afirmou não ter tocado na esposa ao encontrá-la ferida, o que, segundo ele, explicaria a ausência de contato com sangue.
A investigação do Tribunal de Justiça Militar aponta que Gisele foi atacada de surpresa. De acordo com documento, ela foi “abordada por trás, com mão esquerda do agressor na mandíbula/face e arma na mão direita dirigida à têmpora direita. Após o disparo, o corpo foi deposto ao chão, houve escoamento sanguíneo e manipulações subsequentes (inclusive posição da arma na mão)”.
Relatos de socorristas também levantaram suspeitas sobre a cena encontrada no local. Segundo documento, a situação era incompatível com suicídio, com a vítima no chão, parcialmente envolta em uma toalha e com a arma posicionada de forma considerada atípica. Ainda conforme os registros, o tenente-coronel foi visto ao telefone, demonstrando tranquilidade incomum, enquanto Gisele ainda apresentava sinais vitais.
A linha do tempo da ocorrência também chamou atenção dos investigadores, já que o militar teria feito ligações para terceiros antes de acionar o serviço de emergência.Inicialmente tratado como suicídio, o caso passou a ser investigado como morte suspeita e, posteriormente, como feminicídio, após a consolidação de provas técnicas e testemunhais. A Justiça Militar de São Paulo decretou a prisão preventiva do tenente-coronel, que foi detido no dia 18 de março em um condomínio em São José dos Campos.
Gisele Alves Santana foi socorrida ainda com vida por equipes do Corpo de Bombeiros e transportada pelo helicóptero Águia ao Hospital das Clínicas, mas não resistiu aos ferimentos provocados por um disparo de arma de fogo na cabeça.
O caso segue em investigação e reúne um conjunto crescente de evidências que, segundo as autoridades, apontam para a responsabilização do militar pela morte da esposa.


