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“Sou macho alfa provedor, você é fêmea beta obediente e submissa", escreveu tenente-coronel dias antes do crime

O militar é acusado de feminicídio qualificado, por motivo torpe e com recurso que dificultou a defesa da vítima

O tenente-coronel da Polícia Militar Geraldo Leite Rosa Neto quebrou o silêncio e falou pela primeira vez publicamente sobre a morte da esposa, a policial militar Gisele Alves (Foto: Reprodução)

247 - A denúncia apresentada pelo Ministério Público de São Paulo contra o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto expõe detalhes de um relacionamento marcado por violência, controle e abusos psicológicos contra a esposa, a soldado Gisele Alves Santana. O caso foi divulgado pela CNN Brasil e ganhou repercussão após a Justiça aceitar a acusação e decretar a prisão preventiva do oficial.

De acordo com o documento, o militar é acusado de feminicídio qualificado, por motivo torpe e com recurso que dificultou a defesa da vítima, além de fraude processual por supostamente tentar encobrir o crime simulando um suicídio.

Entre as provas reunidas estão mensagens que evidenciam a dinâmica do relacionamento. Em uma delas, o oficial descreve sua visão de hierarquia dentro do casamento: “Eu te trato como todo homem macho alfa trata sua esposa – com amor, carinho, atenção e autoridade de macho alfa provedor e fêmea beta obediente e submissa. Como toda mulher casada deve ser”.Em outra troca de mensagens, o tenente-coronel se autodenomina “príncipe e soberano”, reforçando, segundo os promotores, uma postura de dominação. Já a vítima, dias antes de morrer, relata episódios de agressão: “Você não me respeita; não sabe conversar; ontem enfiou a mão na minha cara”.

Segundo o Ministério Público, o crime ocorreu na manhã de 18 de fevereiro, por volta das 7h28, no apartamento onde o casal vivia. A acusação sustenta que, durante uma discussão, o oficial teria segurado a vítima pela cabeça e efetuado um disparo de arma de fogo contra o lado direito do crânio.

Na sequência, ainda conforme a denúncia, o militar teria manipulado a cena para simular um suicídio. O documento aponta que o corpo foi reposicionado, a arma colocada na mão da vítima e vestígios foram ocultados, além de o acusado ter lavado as mãos para dificultar a perícia.Outro elemento destacado é a demora no acionamento do socorro. De acordo com os promotores, o pedido de ajuda teria sido feito cerca de 30 minutos após o disparo, período em que o local dos fatos teria sido alterado.

A denúncia também descreve um histórico de violência no relacionamento, com episódios de agressões físicas, psicológicas e humilhações. O Ministério Público aponta ainda tentativas de isolamento da vítima de familiares e amigos, além de relatos de exigência de relações sexuais em troca do pagamento de despesas domésticas.

Para os investigadores, o crime teria sido motivado pela intenção da vítima de se separar. Dias antes da morte, Gisele teria procurado ajuda dos pais e afirmado que não suportava mais a relação.O caso, inicialmente registrado como suicídio, passou a ser tratado como morte suspeita após inconsistências na versão apresentada pelo marido. Laudos periciais e novos elementos levaram à reclassificação para feminicídio.

Além disso, o Ministério Público sustenta que o tenente-coronel pode ter tentado interferir na investigação, utilizando sua posição hierárquica para influenciar testemunhas e descumprindo procedimentos no local do crime, como a preservação da cena.Diante dos indícios, a Justiça determinou a prisão preventiva do oficial e o afastamento de suas funções. O caso deverá ser julgado pelo Tribunal do Júri.Em nota, a defesa do acusado nega as acusações e sustenta que não houve feminicídio nem fraude processual, afirmando que a policial tirou a própria vida "independentemente da conclusão do inquérito policial". O processo segue em andamento.

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