Stuart Angel terá diploma póstumo pela UFRJ
Estudante morto pela ditadura receberá homenagem da UFRJ em cerimônia no dia 7 de julho
247 - Stuart Angel Jones, estudante de economia da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) morto por agentes da ditadura militar, será homenageado com um diploma póstumo em cerimônia marcada para 7 de julho, às 16h30, no salão dourado da instituição, 55 anos após seu desaparecimento político, informa a Folha de São Paulo.
O anúncio foi feito pelo centro acadêmico que leva o nome de Stuart Angel, aluno do Instituto de Economia da UFRJ. A homenagem busca reconhecer simbolicamente uma trajetória interrompida pela repressão do regime militar, que impediu o jovem de concluir a graduação após ser sequestrado e morto em maio de 1971, aos 25 anos.
A imagem usada para divulgar a diplomação mostra Stuart sorridente, com o braço direito erguido e segurando um canudo de formatura. A cena, no entanto, nunca ocorreu. O estudante foi impedido de concluir o curso depois de ser capturado por agentes da repressão durante o período da ditadura militar, que vigorou entre 1964 e 1985.
Stuart Angel era militante do MR-8, organização armada de resistência ao regime militar, e se tornou um dos desaparecidos políticos mais conhecidos do país. Sua história ganhou repercussão nacional e internacional sobretudo pela atuação de sua mãe, a estilista Zuzu Angel, que denunciou repetidamente a morte do filho e a ocultação de seu corpo.
A irmã de Stuart, a jornalista Hildegard Angel, comentou a homenagem nesta sexta-feira (5) e lembrou que o estudante não pôde completar sua formação universitária por causa da violência de Estado. “Como tantos outros estudantes naqueles anos sombrios, ele não pode concluir seus estudos”, afirmou.
Ao compartilhar a notícia da diplomação póstuma, Hildegard também recordou que Stuart foi assassinado na Base Aérea do Galeão, no Rio de Janeiro. Segundo ela, a família segue sem saber o paradeiro dos restos mortais do jovem, “se em terra ou se no mar”.
O caso de Stuart Angel foi relatado à Comissão Nacional da Verdade em 2014 pelo ex-guerrilheiro Alex Polari. De acordo com o depoimento, Stuart foi submetido a tortura até a morte para que revelasse o paradeiro de Carlos Lamarca, ex-capitão do Exército e líder da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária).
Segundo o relato apresentado à comissão, Stuart teve a boca amarrada próxima ao escapamento de um jipe que circulava no pátio da prisão, sendo forçado a inalar gás carbônico. O episódio tornou-se um dos símbolos da brutalidade da repressão contra opositores políticos durante a ditadura militar.
Somente em 2019 a morte de Stuart Angel passou a constar oficialmente em seu atestado de óbito como “não natural, violenta, causada pelo Estado brasileiro, no contexto da perseguição sistêmica e generalizada à população identificada como opositora política ao regime ditatorial de 1964 a 1985”.
A ausência de informações sobre o corpo do filho levou Zuzu Angel a transformar sua dor em denúncia pública. A estilista procurou autoridades brasileiras e estrangeiras, concedeu entrevistas e levou às passarelas desfiles que chamavam atenção para o desaparecimento de Stuart.
A busca de Zuzu por respostas também foi retratada na música “Angélica”, composta por Chico Buarque e Miltinho um ano depois da morte da estilista, em 1976. Um dos versos da canção afirma: “Só queria embalar meu filho, que mora na escuridão do mar”.
O anúncio da diplomação póstuma foi feito na data em que Zuzu Angel completaria aniversário. Ela nasceu em 5 de junho de 1921 e morreu em um acidente posteriormente atribuído a agentes da ditadura.
Antes de morrer, Zuzu entregou a Chico Buarque um bilhete no qual responsabilizava os mesmos autores da morte de Stuart por qualquer atentado contra sua vida. “Se algo vier a acontecer comigo, se eu aparecer morta, por acidente, assalto ou qualquer outro meio, terá sido obra dos mesmos assassinos do meu amado filho”, escreveu.
Em agosto do ano passado, a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, ligada ao Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, entregou à família de Zuzu Angel a certidão de óbito retificada da estilista. O documento passou a informar que sua morte também foi violenta e causada pelo Estado brasileiro.
Para Hildegard Angel, a homenagem a Stuart na UFRJ reafirma a necessidade de preservar a memória das vítimas da ditadura e de manter a busca por respostas sobre os desaparecidos políticos. “Aquele período de chumbo continua a assombrar nossas vidas e a memória do país”, disse.
A irmã de Stuart também afirmou que os sobreviventes carregam a responsabilidade de seguir cobrando verdade e localização dos restos mortais das vítimas. Para ela, “os que ficaram, os que esqueceram de matar”, têm o compromisso de continuar buscando a verdade e os restos mortais dos desaparecidos.



