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Zema diz que seu objetivo principal na eleição é debater – e não necessariamente vencer

Governador de Minas mantém pré-candidatura até o fim, recusa ser vice de Flávio Bolsonaro, volta a atacar o STF e apresenta agenda de ajuste fiscal

O governador de Minas Gerais, Romeu Zema, em evento no Palácio da Alvorada, em Brasília-DF - 04/10/2022 (Foto: REUTERS/Adriano Machado)

247 – O governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), afirmou que sua pré-candidatura à Presidência da República tem como foco central “contribuir com o debate” e “provocar mudanças”, colocando a vitória como consequência de um trabalho bem executado, e não como finalidade exclusiva. Primeiro a anunciar a intenção de disputar o Planalto, em agosto de 2025, o mineiro disse que levará sua campanha “até o final”, mesmo diante de articulações que o colocam como possível vice em uma chapa liderada pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

As declarações foram dadas em entrevista ao Valor, na qual Zema também retomou críticas ao Supremo Tribunal Federal (STF), defendeu o impeachment de ministros e apresentou uma plataforma econômica baseada em contenção de gastos, redução da estrutura do governo federal e novas mudanças nas regras previdenciárias e administrativas.

Zema tenta transformar desconhecimento nacional em narrativa de ascensão

Zema reconhece que ainda enfrenta baixa projeção fora de Minas e busca enquadrar esse desafio como etapa já superada em sua trajetória política. Ao comentar pesquisa que aponta desconhecimento sobre seu nome, ele afirmou: “Há oito anos, quando eu comecei a minha pré-campanha ao governo de Minas, eu era desconhecido por 90%. Então eu já estou numa situação muito melhor hoje.” O governador disse ainda que, após deixar o cargo, terá mais tempo e condições para “mostrar para o Brasil” o que atribui ao balanço de sua gestão.

Na entrevista, o governador listou números e fez uma leitura política do período recente em Minas, com ataque direto ao PT. “O Estado ganhou participação na economia brasileira, criamos mais de um milhão de empregos formais, trouxemos mais de R$ 530 bilhões de investimentos privados.” Em seguida, reforçou o tom de confronto: “Nós mostramos aqui em Minas que aquilo que o PT estragou, destruiu, nós reconstruímos.”

Vice de Flávio Bolsonaro? Zema rejeita e promete ir até o fim

Questionado sobre a possibilidade de ser atraído pelo PL para compor chapa como vice do senador Flávio Bolsonaro, Zema descartou a hipótese e reiterou que seguirá na disputa com um projeto próprio. “Eu gosto do Flávio, é um bom pré-candidato. Mas eu vou levar a minha pré-campanha e campanha até o fim.” O governador afirmou que pretende apresentar propostas “diferentes” e insistiu na ideia de que seu objetivo é influenciar o debate público.

Ao justificar a decisão, Zema repetiu o argumento que dá o tom da sua candidatura: “Se eu contribuir com o debate, conseguir provocar mudanças, é o meu grande objetivo, mais do que vencer a eleição. Vencer a eleição é consequência de um bom trabalho.” Ele associou a tese ao resultado eleitoral que obteve em Minas: “Fui reeleito aqui por esse motivo. Eu acredito muito nas minhas propostas.”

Campanha com poucas alianças e discurso antipolítica

Zema também afirmou que não considera alianças e estruturas locais determinantes para a vitória, fazendo paralelo com sua campanha de 2018. “Em 2018 eu não tinha um prefeito me apoiando e ganhei no primeiro e no segundo turno.” Na sequência, defendeu que o eleitorado valorizaria mais “boas propostas” do que palanques e recursos.

O governador disse que não tem “constrangimento” em fazer campanha onde não houver palanque e fez uma afirmação moralizante para se diferenciar de adversários. “E onde não tem palanque, a gente chega e chama as pessoas. Eu não tenho constrangimento nenhum. Eu fico constrangido é de roubar, como muita gente tem roubado no Brasil. Isso eu não faço, não.” Ele acrescentou que o desenho de candidaturas e acordos regionais está sendo costurado pelo presidente do Novo, Eduardo Ribeiro.

Rejeição entre lulistas e bolsonaristas e tentativa de se diferenciar da polarização

Na mesma entrevista, Zema reconheceu a rejeição apontada por pesquisa tanto entre bolsonaristas quanto entre lulistas e disse tratar esse cenário como “natural”. Ele afirmou que diverge frontalmente do campo progressista e também apontou diferenças em relação ao ex-presidente Jair Bolsonaro. “Tem muitos pontos em que atuamos diferente do [ex-presidente Jair] Bolsonaro. Eu tomei vacina, acredito na vacina.” Ao buscar reforçar uma imagem de gestão sem nepotismo, afirmou: “Eu falo com orgulho que não tenho um parente no Estado, que se beneficiou do meu cargo. Eu não tenho caixa preta aqui.”

Zema então conectou esse discurso a denúncias e suspeitas no setor público, sem apresentar detalhes adicionais além das falas. “E o que nós estamos vendo é o Brasil se transformar no país das caixas pretas, da distribuição ou de cargos, ou de contratos.”

Ataques ao STF e defesa de impeachment de ministros

O bloco mais agressivo da entrevista ocorre quando Zema retoma ataques ao Supremo e ironiza a ideia de um código de ética para a Corte. “Agora, a mais alta Corte do Brasil precisando de um Código de Ética. É a mesma coisa que falar que o Papa precisa de um caderninho de Eucaristia para aprender a Eucaristia.” Ele disse preferir o impeachment de ministros a medidas internas de conduta e afirmou que espera uma renovação do Senado para avançar nessa pauta.

Ao ser questionado sobre a que casos se referia ao falar de “caixas pretas”, Zema respondeu: “Exatamente. O que nós estamos vendo no Brasil é uma aberração, uma afronta ao brasileiro que trabalha todos os dias.” Em seguida, elevou o tom: “Essas pessoas que estão aí, é um câncer para a sociedade do Brasil.” E concluiu com cobrança direta ao Legislativo: “Espero que com essa eleição em outubro a gente tenha uma renovação e venhamos a ter um Senado corajoso para colocar para fora essas peças podres que estão lá.”

No mesmo trecho, Zema também atacou o Superior Tribunal de Justiça, sem detalhar nomes, ao declarar: “Lá no Superior Tribunal de Justiça tem um agressor sexual também. Essas pessoas têm de ser expelidas do setor público.”

Ajuste fiscal, “bomba-relógio” e reformas no centro do programa

Na agenda econômica, Zema afirmou que o país caminha para uma crise fiscal e recorreu à metáfora de “bomba-relógio” para falar da dívida pública federal. “O próximo presidente do Brasil vai ter de desarmar uma bomba-relógio, que é a dívida pública da União.” Ele atribuiu o problema ao crescimento da dívida por “gastança” e “juros elevados”, defendendo que um freio nos gastos reduziria a percepção de risco e ajudaria a derrubar a curva de juros.

Zema citou o teto de gastos como referência e argumentou que juros altos travam o crescimento. “Com uma taxa de juros de 15% a economia simplesmente não cresce.” Ao apresentar propostas, afirmou: “Nós vamos ter uma nova reforma da Previdência, não tem como fugir.” E completou: “Vamos precisar de uma reforma administrativa para mostrar que a médio e longo prazo as contas públicas vão melhorar.”

Ele também defendeu rever programas sociais e impôs condicionalidade explícita para benefícios: “O que eu quero é o seguinte: se foi oferecido um emprego para você e você não quiser, seu auxílio está suspenso.” Em relação à estrutura de governo, atacou o número de ministérios e sugeriu reduzir drasticamente. “Na minha opinião, 22 ministérios seriam mais do que suficientes, isso você faz de uma hora para a outra.” E afirmou que a despesa com juros seria a principal, com a cifra: “Está custando R$ 1 trilhão por ano.”

Caixa de Minas, investimentos postergados e privatizações

Ao ser confrontado com o dado do Relatório de Gestão Fiscal enviado ao Tesouro Nacional que indica caixa negativo em Minas no último quadrimestre de 2025, Zema contestou a metodologia e disse que o Estado segue honrando compromissos. “Eu não sei qual é a metodologia que eles adotaram, mas nós não atrasamos nenhum compromisso.” Ele admitiu frustração de arrecadação e postergação de investimentos, mas afirmou ter feito contingenciamento e disse haver previsões de fluxo de caixa “seguras” até meados do ano.

Sobre a privatização da Cemig, Zema reconheceu que o calendário eleitoral dificulta a tramitação. “É um ano eleitoral, a maioria dos deputados vão estar muito empenhados nas suas campanhas. Então fica difícil.” Já sobre a Copasa, declarou que o leilão na B3 deve ocorrer “muito provavelmente” no primeiro semestre.

Questionado sobre o aumento nominal da dívida de Minas com a União entre 2019 e 2025, Zema disse que isso não compromete seu legado e comparou o movimento a um financiamento imobiliário. “É igual quem tem um financiamento da casa própria. Você paga a prestação e a dívida aumenta.” Ele responsabilizou a gestão anterior do PT por atrasos e afirmou que a solvência do Estado melhorou, rejeitando comparações apenas por valores nominais: “Você pegar um valor nominal, depois de oito anos, e querer comparar uma coisa com a outra, é comparar melancia com melão. Não tem base de comparação.”

Uma candidatura que combina agenda fiscal dura e confronto institucional

A entrevista evidencia uma estratégia de campanha que tenta unir, ao mesmo tempo, discurso de gestão e ajuste fiscal com confronto institucional e moralização da política. Ao descartar a vice de Flávio Bolsonaro e prometer levar a candidatura até o fim, Zema procura se firmar como alternativa própria na direita, apostando que pode crescer nacionalmente sem depender de grandes alianças.

Ao mesmo tempo, suas falas sobre STF, impeachment de ministros e “peças podres” indicam que o governador quer explorar um debate de forte polarização, buscando consolidar apoio entre setores que cobram endurecimento contra autoridades e instituições. O desafio, a partir do que ele próprio admite ao falar de rejeição, será ampliar alcance e reduzir resistências sem perder o eleitorado que se identifica com o discurso mais agressivo e com a promessa de reformas duras no Estado.

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