Brasil firma parcerias com Coreia do Sul para produzir remédios estratégicos
Acordos preveem R$ 1,1 bilhão em investimento, transferência de tecnologia e ampliação da produção nacional para o SUS
247 - Em missão oficial à Coreia do Sul com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, participou da assinatura de três Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo (PDPs) destinadas à fabricação nacional de medicamentos estratégicos. A iniciativa, divulgada pelo Ministério da Saúde, prevê investimento estimado de até R$ 1,104 bilhão no primeiro ano para viabilizar a produção de bevacizumabe, eculizumabe e aflibercepte, com transferência de tecnologia e internalização da fabricação no Brasil.
Segundo a pasta, os acordos ampliam a capacidade produtiva nacional de insumos essenciais ao Sistema Único de Saúde (SUS), reduzem a dependência do mercado internacional e diminuem o risco de desabastecimento. O governo avalia que a medida também fortalece a soberania produtiva, estimula o desenvolvimento tecnológico e gera emprego e renda, além de ampliar o acesso da população a terapias de alto custo.
Padilha cumpre agenda oficial em Seul entre os dias 22 e 25 de fevereiro, com reuniões ministeriais e empresariais e visitas técnicas nas áreas de saúde, ciência, tecnologia e inovação. As PDPs foram formalizadas durante o Encontro Empresarial Brasil–Coreia do Sul, organizado pela ApexBrasil.
Durante o evento, o ministro destacou o significado estratégico dos acordos. “As parcerias firmadas têm um significado muito relevante. Representam a transferência de tecnologia, a produção local no Brasil, o fortalecimento da base industrial nacional e a redução de vulnerabilidades do sistema de saúde. Representam também previsibilidade para o setor privado e compromisso de longo prazo do Estado brasileiro”, ressaltou.
No caso do aflibercepte, indicado para o tratamento da degeneração macular relacionada à idade, a produção nacional envolverá a Fundação Ezequiel Dias (Funed) como parceira pública, além da Bionovis S.A. e da Samsung Bioepis Co., Ltda. como parceiras privadas. A formalização marca o início da fabricação no país.
O bevacizumabe, utilizado no tratamento de diversos tipos de câncer e também em indicações oftalmológicas, será produzido por meio de parceria entre a Fundação Baiana de Pesquisa, Desenvolvimento, Fornecimento e Distribuição de Medicamentos (Bahiafarma), a Bionovis e a Samsung Bioepis. Já o eculizumabe, indicado para o tratamento da Hemoglobinúria Paroxística Noturna (HPN), doença rara que afeta o sistema sanguíneo, contará com arranjo semelhante, reforçando a capacidade produtiva nacional em medicamentos biológicos de alto custo.
Além das PDPs, foi firmado um Memorando de Entendimento em Saúde entre o Ministério da Saúde do Brasil e o Ministério da Saúde e Bem-Estar da Coreia do Sul, estabelecendo bases para cooperação em inovação biomédica e farmacêutica, saúde digital, ecossistemas de dados, terapias avançadas e fortalecimento da resiliência dos sistemas de saúde.
Como resultado da visita, seis novos acordos foram assinados para produção conjunta de tecnologias em saúde, incluindo testes diagnósticos, medicamentos biológicos, terapias oncológicas e soluções voltadas a doenças oftalmológicas. Para Padilha, a cooperação tende a se ampliar. “Estamos confiantes de que teremos, em breve, mais empresas coreanas trabalhando com empresas brasileiras, contribuindo para salvar vidas no Brasil e na Coreia do Sul. Outra área fundamental de cooperação com resultados nesta visita é a saúde digital. O Brasil vive uma revolução na saúde digital liderada pelo Presidente Lula e pela sociedade brasileira. Temos muito a aprender com a experiência coreana neste setor”, enfatizou.
No âmbito do G20, sob presidência brasileira em 2025, foi criada a Coalizão para Produção, Inovação e Acesso a Tecnologias em Saúde. A proposta de governança foi apresentada na Organização Mundial da Saúde e aprovada em reunião realizada na África do Sul, com participação sul-coreana. O Brasil convidou formalmente a Coreia do Sul a integrar o Comitê Diretor da iniciativa antes do encontro previsto para março, no Rio de Janeiro, quando serão lançados desafios internacionais com foco inicial em medicamentos oncológicos, além de ações estratégicas para tuberculose e dengue.
A agenda bilateral também inclui cooperação em transformação digital do sistema de saúde. A Coreia do Sul é reconhecida por hospitais inteligentes e alto grau de integração tecnológica, enquanto o Brasil busca avançar na digitalização do SUS. “Queremos mais investimento, mais inovação, mais produção local e mais cooperação regulatória. Temos marcos legais, instrumentos de financiamento, mercado, escala e instituições sólidas. A saúde será um dos grandes motores do desenvolvimento econômico nas próximas décadas. Brasil e Coreia do Sul têm todas as condições de liderar esse processo juntos, de forma equilibrada, sustentável e benéfica para nossas populações”, afirmou o ministro.
Outro eixo estratégico tratado na visita foi a resiliência dos sistemas de saúde diante das mudanças climáticas. Durante a COP30, o Brasil lançou o programa AdaptaSUS, com adesão de mais de 80 instituições e países, voltado à construção de estruturas de saúde mais resilientes a eventos extremos como ondas de calor, enchentes e incêndios florestais.
No campo do diagnóstico, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) firmou alianças estratégicas com as empresas sul-coreanas Optolane Technologies, GenBody e Green Cross Corporation. As parcerias abrangem diagnóstico molecular, testes rápidos e kits de triagem, com foco na transferência de conhecimento, internalização de plataformas inovadoras e ampliação da capacidade produtiva nacional, reforçando a autonomia do SUS e a resposta a emergências em saúde pública.


