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Droga pode preservar músculos durante uso de canetas emagrecedoras

Apitegromabe reduziu perda de massa magra em pacientes tratados com tirzepatida, segundo estudo publicado na Nature Medicine

Droga pode preservar músculos durante uso de canetas emagrecedoras (Foto: Reuters/George Frey)
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247 - Uma nova estratégia medicamentosa pode ajudar a preservar a massa muscular de pessoas em tratamento com canetas emagrecedoras, especialmente durante o uso de agonistas de GLP-1, classe que tem revolucionado o combate à obesidade. O apitegromabe, anticorpo monoclonal em fase de estudos, reduziu a proporção de massa magra perdida por pacientes tratados com tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro, segundo resultados publicados na revista científica Nature Medicine, informa o jornal O Globo.

O avanço é considerado relevante porque os medicamentos injetáveis para perda de peso vêm apresentando resultados inéditos, com reduções que podem superar 20% do peso corporal. No entanto, parte expressiva desse emagrecimento pode envolver perda de massa magra, composta principalmente por músculo esquelético, elemento essencial para força, metabolismo, saúde geral e manutenção da atividade física.

Estimativas citadas no estudo indicam que cerca de 40% da perda de peso obtida com esse tipo de tratamento pode estar relacionada à massa magra, e não à gordura corporal. Por esse motivo, laboratórios e pesquisadores vêm testando combinações capazes de tornar o emagrecimento mais seletivo, preservando músculos enquanto a redução de gordura avança.

O apitegromabe foi desenvolvido para bloquear a ação da miostatina, proteína associada à degradação muscular. Inicialmente, a droga foi concebida para o tratamento da atrofia muscular espinhal, condição para a qual está sendo avaliada pela Food and Drug Administration, agência reguladora dos Estados Unidos. Com a expansão do uso dos medicamentos contra obesidade, a farmacêutica americana Scholar Rock passou a investigar também seu potencial nesse campo.

No estudo de fase 2, segunda de três etapas necessárias dos ensaios clínicos, 102 adultos com sobrepeso ou obesidade foram acompanhados por 24 semanas. Um grupo recebeu apenas tirzepatida, enquanto o outro foi tratado com a combinação de tirzepatida e apitegromabe. A cada quatro semanas, os participantes do segundo grupo receberam uma infusão intravenosa do apitegromabe; o grupo de comparação recebeu placebo.

Os voluntários não sabiam a qual grupo pertenciam, medida adotada para reduzir interferências nos resultados. Ao fim do período de acompanhamento, a perda total de peso foi semelhante nos dois grupos. A diferença apareceu na composição desse emagrecimento.

Entre os pacientes que receberam apitegromabe, a massa magra representou 14,6% do peso perdido. No grupo placebo, essa fatia chegou a 30,2%. Em termos absolutos, os participantes tratados com a nova droga perderam 1,9 kg a menos de massa magra, o que correspondeu a uma retenção muscular 54,9% maior.

O medicamento também apresentou boa tolerabilidade no estudo, com taxas semelhantes de eventos adversos entre os grupos analisados. Ainda assim, especialistas ouvidos sobre os resultados destacam que a descoberta deve ser interpretada como promissora, mas ainda preliminar.

Marie Spreckley, pesquisadora da área de prevenção do diabetes e de distúrbios metabólicos relacionados em grupos de alto risco da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, que não participou da pesquisa, avaliou que o tema é central para o futuro do tratamento da obesidade.

“Esta é uma área importante de pesquisa porque perdas substanciais de peso, seja por medicamentos, intervenções dietéticas ou cirurgia bariátrica, frequentemente são acompanhadas por alguma perda de massa magra”, afirmou.

A pesquisadora, porém, ressaltou que ainda será necessário ampliar a investigação para medir efeitos clínicos mais duradouros.

“Serão necessários estudos maiores e mais longos para determinar se essas mudanças se traduzem em melhorias significativas de força, função física, qualidade de vida ou outros desfechos de saúde de longo prazo. De modo geral, este estudo fornece uma importante prova de conceito de que a inibição seletiva da miostatina pode ajudar a melhorar a composição da perda de peso”, disse.

A avaliação é semelhante à de Brendan Gabriel, professor sênior do Instituto Rowett de Nutrição e Saúde da Universidade de Aberdeen, também no Reino Unido. Sem participação no estudo, ele lembrou que a base biológica da terapia vem sendo pesquisada há quase três décadas e classificou os achados como “bastante animador”.

Gabriel ponderou, no entanto, que o uso de um anticorpo monoclonal pode ter limites conforme o perfil clínico dos pacientes. Segundo ele, esse tipo de terapia “pode ser eficaz em algumas situações clínicas, mas não em todas, e talvez não seja tão amplamente aplicável quanto outras terapias para obesidade”.

“Ainda assim, para pessoas que vivem com obesidade sarcopênica, condição em que a perda de massa muscular ocorre mais rapidamente do que o normal, esta pode ser uma abordagem promissora”, concluiu.

O apitegromabe não é a única droga em investigação para preservar músculos durante tratamentos de perda de peso. Outro medicamento em estudo é o bimagrumabe, cujos resultados de fase 2 também foram publicados na Nature Medicine em março deste ano.

Nos testes, a combinação do bimagrumabe com a semaglutida, princípio ativo de Ozempic e Wegovy, levou a uma perda de 22,1% do peso corporal após 72 semanas. Desse total, menos de 10% foi composto por massa muscular, contra quase 30% entre os pacientes que receberam apenas semaglutida.

Diferentemente do apitegromabe, o bimagrumabe bloqueia vias de sinalização de um receptor no tecido muscular esquelético chamado activina. Esse receptor também está relacionado à perda de massa muscular e atua como mecanismo de controle para evitar hipertrofia excessiva.

O bimagrumabe foi desenvolvido originalmente pela Novartis e depois adquirido pela Versanis Bio. Em seguida, a Eli Lilly, fabricante do Mounjaro, comprou a Versanis. Por isso, o estudo citado avaliou a combinação com semaglutida, do Wegovy, e não com tirzepatida, do Mounjaro.

Agora, a Eli Lilly conduz testes para avaliar o uso do bimagrumabe em combinação com a tirzepatida em pacientes com obesidade. A expectativa em torno desses resultados é elevada porque o Mounjaro tem sido associado a perdas de peso superiores às observadas com o Wegovy.